Chico – Artista Brasileiro

30/11/2015 às 3:52 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | 3 Comentários
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Esse é imperdível ! A estréia foi dia 26 em salas de cinema de todo o país.



CHICO SEM RESERVAS

Miguel Faria Jr. lembra-se – “Nos anos 1960, o pessoal do cinema e da música era muito próximo, no Rio. Frequentávamos os mesmos bares, os mesmos restaurantes.” Vem daí a longa amizade – 50 anos – do diretor Miguel Farias Jr. com o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Holanda. Ela culmina agora no documentário Chico – Um Artista Brasileiro. Miguel documenta o artista que tem fama de ser reservado. Deve ser por conta da proximidade, que produziu confiança. Chico diz coisas tão íntimas que você fica pensando. Como ele conseguiu? Ele, Miguel.

DivulgaçãoFilme imprime amizade do diretor com Chico BuarqueFilme imprime amizade do diretor com Chico Buarque

Chico fala da ex-mulher, Marieta Severo, de quem está separado há 16 anos. Diz que teve vários amores depois, mas as outras passam. Marieta foi a companheira em momentos decisivos, a mãe de suas filhas, a interlocutora. É o de que ele mais sente falta. Marieta era a primeira ouvinte das músicas, a primeira leitora dos textos. E Chico tinha absoluta confiança nela, no seu gosto, na sua sensibilidade. Havia o risco de que Chico – Um Artista Brasileiro fosse chapa branca. Miguel Faria Jr. foge a essa armadilha, até porque o próprio Chico se recusa a ser objeto de uma hagiografia. “Eu diria que é antes a humanização do mito”, define o diretor.
Chico, o filme, estreia nesta quinta, 26, em salas de todo o Brasil, depois de abrir o Festival do Rio e integrar a programação da Mostra. Há quase 40 anos, em 1977, Miguel Faria Jr. contactou o amigo Chico para que ele fizesse a trilha de Na Ponta da Faca. A parceria não se concretizou, mas dois anos depois Chico compôs duas canções para a trilha de República dos Assassinos, que Miguel adaptou do livro de Aguinaldo Silva, ficcionalizando a ligação de setores da repressão do regime militar com o Esquadrão da Morte. Tarcísio Meira faz o sinistro Mateus Romeiro e, em torno dele, gravitam a personagem de Sandra Bréa e a travesti Eloína, interpretada por Anselmo Vasconcelos.
Para as duas, Chico compôs canções que ultrapassaram seu significado na trilha e ganharam vida própria. Não Sonho Mais, o tema de Eloína, e Sob Medida, o de Sandra Bréa. Foi há 38 anos. E agora o documentário. Chico descontraído e exposto como você nunca viu. Miguel Faria Jr. que já foi diretor maldito, lotou os cinemas com a ficção O Xangô de Baker Street e o documentário Vinicius, sobre Vinicius de Moraes. Ele reflete – o documentário sobre Chico é um desdobramento do outro, sobre Vinicius. A surpresa talvez seja a forte conexão paulista na vida e obra de Chico Buarque. Chico, o artista brasileiro, é também Chico paulista.

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Diretor faz reflexão sobre Chico Buarque

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Chico paulista? “O pai dele, Sérgio Buarque de Hollanda, foi um intelectual com a cara e a formação de São Paulo. Chico passou a juventude na cidade. Estudou, fez amizades em São Paulo. Isso é para toda a vida. E onde foi que ele estourou? No Festival de MPB da Record, em São Paulo. A ligação é forte, sim.” Quem avalia é o diretor Miguel Faria Jr. Amigo, há bem uns 50 anos, de Francisco Buarque de Holanda, o Chico, Miguel bateu muita bola com ele, empinou muito caneco de cerveja. E acompanhou sua evolução. “A obra de Chico reflete as várias fases que ele viveu – e as várias fases do Brasil. Tudo isso repercute no público, que dá o troco. Chico se tornou mítico.”
Havia um pouco de tudo isso em Vinicius de Moraes, outra figura emblemática – poeta, cantor, compositor, crítico de cinema, diplomata – que Miguel Faria Jr. também documentou, em outro belo trabalho, Vinicius. Se não é o documentário mais bem-sucedido de público da história do cinema brasileiro, Vinicius com certeza liderou a bilheteria do gênero numa fase em que o documentário já tinha prestígio, mas os números eram pequenos. Vinicius rapidamente ultrapassou 150 mil espectadores, foi o fenômeno de 2005. Miguel quis voltar à ficção e tentou adaptar Leite Derramado – de Chico. Seu projeto não vingou (mas o filme será feito pela Conspiração). A ideia do documentário sobre Chico, artista brasileiro (como Vinicius), começou a ser gestada.
Miguel levou a ideia ao amigo. Chico pediu alguns dias para pensar. Retornou dizendo que sim, mas não queria se envolver. Dava a entrevista, e só. Chegou a brincar. “Não vou nem querer ver pronto.” Com essa carta branca, incondicional, só restava a Miguel Faria Jr. seguir adiante. Ele começou a gravar as entrevistas no fim de 2013. Gravava, editava, definia o material para a pesquisa iconográfica. A pauta ia sendo definida nas conversas.
“Gravei cerca de 30 horas que abordam 70 temas.” Vida, obra, família, censura, por aí vai. Chico foi perseguido durante a ditadura, teve de se exilar. Tudo é contado, esmiuçado. Chico e seus heterônimos – Julinho da Adelaide, criado para driblar a censura.
Hoje, muitas histórias soam divertidas, mas na época… Se a música era dele, já estava proibida. Iniciava-se, então, um processo de negociação com a censura. Até que ponto mudar palavras podia alterar o sentido? Chico conta tudo, e em clima de descontração. “A grande diferença em relação a Vinicius é que ele está vivo”, esclarece o diretor. “Lá, eu precisava de outros para contar a história de Vinicius. Aqui, o próprio Chico conta. A fala é dele, mas o olhar é meu.” De posse das falas, havia outro problema. Como ilustrar o material?
“Não encontrei muita coisa no Brasil. O material era quase todo de vídeo, que vai desbotando com o tempo. A qualidade da imagem e do som não era boa.
Comecei a procurar fora do Brasil. Encontrei o material para o filme na Itália, na França, na Alemanha”, conta o diretor. Chico não participa do lançamento. “Seria cabotino” – é sua justificativa. Mas, no filme, ele reflete sobre sua formação, suas influências, sobre sua extensa produção. São 500 músicas, dez livros. Seu nome é trabalho. Chico preocupa-se com o tempo. “Os projetos demoram, a vida encurta.” Ele ainda tem livros para escrever, músicas para compor. É também o sentimento de Miguel Faria Jr. O diretor não tem mais fôlego para o futebol. “Chico tem”, conta. Miguel não dispensa a praia, que o revitaliza. No começo de sua carreira, ele fazia aqueles filmes cabeças, difíceis. “Sinto-me menos dono da verdade”, diz. “Amadureci.” E promete voltar à ficção.

(Luiz Carlos Merten)

FONTE: http://tribunadonorte.com.br/noticia/chico-sem-reservas/330911

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  1. Chico clareou o nevoeiro golpista, por Jari da Rocha
    POR FERNANDO BRITO · 07/01/2016

    chicopb

    Eu tento ler todos os comentários, nem sempre consigo fazê-lo com vagar, mas ontem um deles saltou em minha direção.

    Não só pelas ideias, claras e precisas, mas pela qualidade do texto.

    Velho e incorrigível fuçador, fui ver quem era o autor: Jari da Rocha, que eu não conhecia.

    E é um mestre em Linguística e Literatura, professor, cronista, escritor, coordenador e organizador de centros culturais e prêmios literários e blogueiro.

    O que prefiro resumir em: estuda, pensa, faz e escreve bem.

    Liguei para o Jari e pedi – quase impondo – para trazer o texto dele a um post, para não ficar espremido naquelas linhas poucas que o Facebook deixa aparecer. Como ele foi gentil e concordou, arroguei-me à condição de quase gaúcho e disse ao “conterrâneo”: te abanca no Tijolaço, quando quiseres.

    Espero que este seja apenas o primeiro dos textos de Jari que publico, os próximos sem a lenga-lenga das apresentações.

    O Resumo da Buffa Opera
    Jari Maurício da Rocha

    Depois que a expectativa de ver um governo popular cair por si mesmo ruiu, os ânimos se mantiveram amistosos por um bom tempo. Porém, Lula foi reeleito, apesar da judicialização política e da midiatização da justiça.

    A boa notícia, no entanto, era que seu nome não estaria nas cédulas de votação da eleição seguinte. Todavia, o mesmo projeto foi reeleito com nome diferente. Foi a gota d’água que faltava para a direita tomar uma atitude, embora viesse tratando disso através de cooptações e ‘sensibilizações’ de futuros servidores em posições estratégicas.

    Era preciso agir para acabar com as sucessivas derrotas, desta forma, se iniciou a etapa de evangelização, cuja principal pregação era o apolitismo, introjetado via senso comum. Havia ainda a necessidade de alterar a onda de vergonha dos cidadãos que se esquivavam para se autoproclamarem de direita.

    Diante de um governo de esquerda que possibilitou mudanças sociais estruturais, política econômica voltada ao bem estar social, ações transformadoras e visíveis, os militantes de direita desapareceram.

    Assim, o apolitismo serviria de estágio para se sair da estima em frangalhos para, num futuro próximo, chegar ao orgulho de se opor. O tiro, no entanto, saiu pela culatra.

    A definição “não sou de direita nem de esquerda”, cunhada no processo de despolitização, acabou atraindo possíveis simpatizantes dos partidos de oposição a grupos extremos que chegaram até mesmo a pregar a volta da ditadura.
    Foi imperativo concentrar esforços em torno de um ‘Novo’ projeto de ‘Brasil’, cuja plataforma, única e exclusivamente, tinha por fim encerrar a era petista – com o slogan da moralização e do ‘Abaixo a corrupção’ e, por incrível que possa parecer, renegando o próprio Brasil.

    A acertada escolha de Aécio Neves – quase 49% dos votos – a criminalização política e a campanha de desmoralização do petismo não foram suficientes para chegarem ao Planalto. E a ‘quase’ vitória serviria para legitimar uma reversão do resultado das urnas.

    O ataque iniciou logo após as eleições – o candidato da oposição tinha prazo de validade – e se intensificou a partir do momento em que o PT assumiu pela 4º vez o Governo Federal.

    A ideia era criar um sentimento de acanhamento para a esquerda. Só os insanos se atreveriam amparar um governo corrupto. Frases de laboratório seriam repetidas a esmo: “Isso é defender o indefensável; o governo mais corrupto da história; o PT afundou o país; um mar de lamas…”.

    Usaram todas as armas possíveis: bombardeio midiático, fabricação massiva de boatos, vazamentos e julgamentos seletivos, desaparecimento de helicóptero com meia tonelada de cocaína e o atiçamento da população para sair às ruas não importando o motivo.

    Esta última, aliás, do gigante que despertara, foi como uma espécie de carnaval de rua embalado pelo samba do crioulo doido. Virou motivo de piada nas redes sociais.

    Isso também atrapalhou os planos, pois o tempo era limitado para que o golpe obtivesse êxito. Então, os podres começaram a vir à tona. Em pouquíssimo tempo as passeatas, apesar do dinheiro, foram mirrando e chegou-se ao ponto de os adesivos “A culpa não é minha. Eu votei no Aécio” começarem a desaparecer das camionetes de luxo.
    Não havia mais como segurar a barragem de lama que ocultava décadas de impunidade, entreguismo e corrupção – sem falar da compra de votos da reeleição e o desmonte do estado na era FHC.

    O engavetador geral não estava mais lá e a imprensa (desacreditada, desmascarada) não conseguiu conter a lama nem (que soubéssemos) a 1ª dama (Lu Alckmin) que voava como se o estado, minimizado, fosse suas próprias asas.

    Havia ainda o novo filme de Aécio Neves: Os trezentos mil.

    Durante o longo período de demonização do governo, houve resistências. Jornalistas, cineastas (Jorge Furtado), atores (Zé de Abreu, Werner Schunemann e Osmar Prado), escritores (Fernando Morais) eram execrados e apedrejados em ‘time line’ pública, mas não se intimidaram.

    Só o que faltava ainda era um fato que resumisse num só nome do que o desvairismo e a cegueira eram capazes. E foi no Leblon.

    A partir do episódio Chico Buarque, o país começou a se perguntar: A que ponto? E a névoa que encobria a campanha golpista começou a se dissipar. Claro, pelo alto grau de contaminação, alguns ainda fazem coro “Chico é um merda!”. O que dizer deles?

    A direita falhou novamente, errou em muitas coisas, mas numa delas acertou em cheio e deverá seguir na estratégia: a fabricação de boatos. Eles apostam na ignorância, no senso comum e na falta de informação.

    Por isso, ainda surgirão milhares de boatos, bombardeios incessantes para que não dê tempo de respirar, nem de pensar. Isso servirá de base para novas estratégias que vão sendo traçadas.

    Apesar das disputas tucanas internas, um novo nome poderá vir com a força de um lava-jato. Possivelmente, o foco, que era 2018, pode ter mudado para 2022. E isso não significa trégua, muito pelo contrário.

    Não se pode desconsiderar nada. Essa turma é incansável, sedutora e esperta. Afinal, são 500 anos de experiência.

  2. David Bowie, Chico Buarque e nós.

    Postado em 11 jan 2016por : Paulo Nogueira

    RIP
    RIP

    O primeiro disco de vinil que comprei, aos 16 anos, foi The Rise and Fall Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie.

    Ouvi este disco, às vezes mais e às vezes menos, a vida toda. Entra em qualquer lista curta dos maiores do rock.

    Nem preciso dizer, assim, quanto me entristeceu a notícia da morte de Bowie, neste domingo, aos 69 anos.

    Mas é sobre um aspecto paralelo que quero tratar.

    As manifestações de pesar logo se multiplicaram. A primeira de impacto veio de Ricky Gervais, pouco tempo depois de ter apresentado o Globo de Ouro.

    Eram muito amigos. “Perdi um verdadeiro herói”, disse Gervais no Twitter.

    Muitos outros roqueiros e artistas expressaram sua dor. Mas fui ler com mais atenção as palavras da chamada voz rouca das ruas, nos comentários dos artigos sobre a morte.

    Foi emocionante.

    O tom geral era de agradecimento a Bowie por tantas coisas boas que ele proporcionou a todos por todos estes anos. Bowie musicou memórias de várias gerações. Se eu fosse resumir o que as pessoas diziam seria assim: “Obrigado por haver existido, David.”

    E então chego ao ponto que eu queria fazer.

    A diferença entre uma sociedade que cultua seus heróis e uma sociedade que os deixa expostos a agressões de vândalos.

    Me veio à cabeça o ataque a Chico no Leblon, poucas semanas atrás.

    É doente uma sociedade em que um playboy inútil que vive do dinheiro da família se acha no direito de dizer para Chico, à queima roupa, que ele é um “merda”.

    Isso porque o playboy não concorda com as ideias políticas de Chico. Chico está com o povo e o playboy, claramente intoxicado pelo noticiário envenenado da mídia, com a plutocracia.

    Num mundo menos imperfeito, o playboy aproveitaria a chance de topar com Chico na noite carioca para agradecer a ele por tantas coisas boas que ele criou. Tiraria selfies com Chico e as mostraria orgulhoso a seus pais. Certamente em algum momento eles namoraram ouvindo Chico.

    Poderia até dizer que discorda das posições políticas de Chico, mas em tom civilizado, tolerante, democrático, e entre risos. Mas deixaria claro que o importante ali era reconhecer a grandeza do maior compositor da história da MPB.

    Mas nosso mundo está longe de ser perfeito, e aconteceu o que todo mundo sabe.

    Pensei em Bowie, nesta manhã triste, e pensei também em Chico.

    E vi que nossa sociedade está doente.

  3. […] do ocorrido com Chico recentemente, só mesmo lembrando Drummond […]


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