Expedição POÉTICA a bordo da “komboteca”

16/12/2015 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esperança nessa terra e nesse povo. Esse é o resultado que se tem após ler este artigo. O que leva uma pessoa a fazer isso ? É para se pensar, objetivo desse blog.


Expedição POÉTICA

XXX

Uma kombi transformada em biblioteca móvel percorre o país, fomentando a leitura e a literatura. Ao volante, o poeta e compositor Guilherme Salgado, um mineiro radicado na Bahia.

YYY

Enquanto o leitor passa os olhos por essas páginas, Guilherme Salgado deve estar em Minas
Gerais, curtindo a companhia da esposa e dafilha de um ano e meio. Mas isso não quer dizer que ele seja um cara caseiro. “Moro na estrada”, foi o que confessou quando o encontramos, em outubro, durante a Flica – Festa literária de Cachoeira.

Fica fácil entender depois de ver a kombi multicolorida que ele adaptou, com a ajuda do pai, para transformar num misto de biblioteca, sebo, livraria e cinema. É ali que transporta o projeto Itinerância Ptica, que acabou de cumprir uma jornada de seis meses, percorrendo 12 mil quilômetros e passar por 70 cidades.

A expedição foi a solução encontrada por Salgado para driblar uma das maiores dificuldades de quem faz literatura independente. “O desafio é a distribuição. Quando você tem um material, mesmo que tenha um apoio logístico, às vezes, não tem condições de circular. Porque se seu livro chega à uma livraria grande, quem vai ser você ali?”, provoca.

DISTRIBUIÇÃO

O estalo veio em 2012, quando ele lançou seu primeiro trabalho de poesia, que acabou dando nome ao projeto. Na época, o escritor mineiro estava morando na Bahia havia sete anos-seis em Salvador e um em São Félix, vizinha de Cachoeira.

Numa das mãos, ele tinha 400 exemplares da obra. Na outra, a chave de um fusca. “Circulei com esse livro pelos estados de Minas Gerais, Bahia, Goiás e São Paulo”, enumera o poeta, que teve o trabalho lançado também em Cuba, traduzido para o espanhol. “Já tinha minha vocação em ser nômade, a literatura foi só um despertador”, ele confessa.

A ideia chamou a atenção de outros escritores, que padeciam da mesma dificuldade de ver suas obras chegarem às mãos do público. E tome-lhe a juntar gente, que lhe repassava os livros a preço de custo ou mesmo os doava ao poeta viajante. Era o suficiente para garantir a grana da gasolina e continuar circulando. Até que o fusca ficou pequeno.

POTÊNCIAS CRIATIVAS

O raio de ação da “komboteca”, conta Guilherme, também cresceu. “Um dos objetivos da kombi é o de fomentar, disparar ou somar a ocupação dos espaços. Acho que, na era da privatização do mundo, ocupar os espaços públicos com as coisas públicas é um ato de resistência mesmo”.

Por ter vindo da área de educação popular em saúde, Guilherme enxergou na iniciativa um elemento ainda mais subjetivo. “A poesia serve de ponte para o diálogo, para o encontro. E o projeto também pretende estimular o exercício da criatividade das pessoas. Acredito que, para que a gente tenha saúde, tem que haver a possibilidade de exercer nossas potências criativas”.

A inspiração pode vir de várias direções, especialmente da literatura latino-americana e afro-brasileira, com foco maior em poesia. Na biblioteca, montada na parte interna do veículo, Feia Kuti convive com João Cabral de Meio Neto, Gregório de Mattos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Tiago Oliveira Nascimento, Nelson Maca.

POESIA MALOQUEIRISTA

As pessoas podem consultar, anotar referências ou passar o dia lendo no único assento que restou ou nos banquinhos que Salgado distribui na rua, em volta da kombi. “Quando é bem interiorzinho mesmo, eu empresto para ficar mais dias e devolver depois. É incrível como no interior as pessoas têm um tempo e uma disponibilidade ao encontro tanto maior do que nas capitais”.

Nofundo, ficam expostos os livros que estão à venda. A maioria de projetos igualmente independentes, como o movimento Poesia Maloqueirista, coletivo formado por 21 poetas. Também estão ali os postais do mais novo projeto de Salgado, Poesia é Desenho, realizado em parceria com a ilustradora ludmila Britto.

De volta a Minas Gerais, o poeta diz que vai dar um tempo, enquanto realiza trabalhos locais. Mas a pausa não vai durar muito. Ano que vem, a esposa, que é psicóloga e professora, deve se mudar para o Ceará para fazer um curso de doutorado. “Aí eu subo
fazendo tudo de novo”, ele prevê, movido por uma certeza particular em relação à poesia: “Sempre tem lugar e motivo”.

PRÓXIMAS PARADAS:

  • Dezembro: Minas
  • 2016: Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco

(Daniela Castro)

FONTE: Caderno MUITO, jornal A TARDE, Salvador-BA, 15.11.2015

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