A invenção do parafuso

24/01/2016 às 20:39 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Excelente esse artigo para terminar um domingo. Dedico, com muito humor, a convicção de Norma a todos os profissionais que, assim como eu, sempre trabalharam com os computadores. Ah os clássicos… não se lê hoje nem os básicos !

Parafuso


A invenção do parafuso

O computador deixou de ser um empecilho na vida de Norma quando ela finalmente entendeu como tratar o touchpad. Três meses de esconjuros, palavrões e insultos sem resposta até que enfim parou de praguejar após ser salva pela Wikipédia: “O touchpad é um dispositivo sensível ao toque, utilizado em computadores portáteis, para substituir o mouse, e realmente tem a função de substituir o mouse, utilizando células sensíveis ao toque”. Norma riu por quase uma hora e teve a convicção de que os computadores eram fabricados por idiotas.

A máquina a fez saber da existência do chileno Hernán Letelier, cuja relação com os computadores e o mundo virtual ainda está envolta em mistério e fascinacão. Aos 95
anos, o ator e autor, em algum lugar do passado uma glória do teatro musical no Chile, tornou-se no início do mês, provavelmente, o mais velho usuário do Twitter. Solteiro e sem filhos, com seus velhos companheiros todos mortos e restando só a presença cotidiana da gata Martina, foi convencido por uma boa alma a abrir uma conta contra a solidão. Refletiu por dias a fio e, inseguro por jamais ter usado um PC na vida, ditou seu primeiro e comovente tuíte em um device mais familiar, o telefone. “Será comum um homem de 95 anos abrir conta no Twitter? Tenho desejo de me coneetar com o mundo”, explicou em sua mensagem de apresentação. Outro dia anotou: “Descobrindo o YouTube.lsso é mágica!”. Como a imprensa ainda tem alguma utilidade, a história correu mundo e milhares de tuiteiros se apressaram para ouvi-to, buscando por @letelier1920.

Egresso da civilização do papel, don Hernán propôs a seus seguidores uma tarefa: dizer que livro estavam lendo e por quê. Se não estavam, porque não? Analisou as respostas: “Muita literatura contemporânea e pouco clássica”. E aconselhou que se pudessem ler só alguns livros na vida, que lessem Shakespeare, Dom Quixote e os russos do século 19. O encantamento com a nova invenção não abalou sua visão de mundo, segundo a qual é inútil viver sem a companhia dos clássicos. Os anos passam, só o essencial não passa. locomotiva a vapor, automóvel, rádio, telégrafo, gramofone, telefone, rede elétrica, câmera fotográfica, câmera defilmar, avião, televisão, geladeira, lava-louças, torradeira, cafeteira, fita K7, walkman, computador pessoal, laptop, computadores em rede, smartphone, smartTV, smartlife. O que permanecerá? O parafuso

(Vitor Pamplona)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje, devidamente escaneado

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  1. Muito bom artigo, meu caro Zé Rosa!


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