Um Castro na Ilha de Castro

17/02/2016 às 14:19 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | 1 Comentário
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Gente, isso vale a pena ser lido. Aproveito para divulgar o livro de Alex Castro (não, como ele diz, não é o filho do Fidel !). E também observar, entre muita coisa boa do artigo, que em Cuba o teatro e os livros são proporcionalmente muito superiores aos de outros países bem maiores, como o nosso. Cubanos, um povo apaixonado por livros !


um castro na ilha de castro | crônicas de cuba em 2016, 1

um brasileiro publicando em cuba um livro sobre cuba

porque estou em cuba

estou em cuba para lançar meu livro “autobiografia do poeta-escravo“.

em 1835, o poeta cubano juan francisco manzano, então escravizado, escreveu uma autobiografia contando a história de sua vida no cativeiro. o texto foi publicado na inglaterra, em 1840, e só saiu em cuba em 1937. apesar de lido e estudado em todo o mundo, a última edição cubana foi em 1972.

ano passado, a editora hedra publicou a primeira versão brasileira da autobiografia, traduzida por mim, com uma introdução crítica e quase 400 notas explicativas, todas minhas, além de várias fotografias originais pela fotógrafa claudia regina.

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a edição ficou tão caprichada que chamou a atenção de pessoas do meio editorial cubano.

por isso, amanhã, quarta, 17 de fevereiro. na feira internacional do livro de habana, o maior evento literário do país, a autobiografia do poeta-escravo será republicada em cuba pela primeira vez em quarenta anos, em uma edição caprichadíssima da ediciones matanzas.

além do texto original em espanhol, o livro conta com minha introdução e notas, reprodução fac-símile de todas as 53 páginas do manuscrito original (na própria caligrafia do poeta-escravo) e cinco vezes mais fotos da claudia regina do que a edição brasileira.

também vou aproveitar a oportunidade para dar palestras em escolas, universidades e museus sobre a trajetória do autor e sobre como pessoas subalternas, hoje e no passado, se utilizaram da palavra escrita para negociar o sistema e superar a posição inferiorizada onde tinham sido colocadas.

dia 17 de fevereiro, às 10h, como parte do seminário internacional “130º aniversário de la abolición de la esclavitud en cuba“, dou a palestra “o escravo e a palavra“, nacasa de las américas, uma das mais respeitadas instituições literárias do mundo.

no mesmo dia, às 16h, na sala lezama lima do pavilhão principal da feira internacional do livro, no morro cabaña, é o lançamento oficial do livro.

já está aparecendo na imprensa cubana, aqui e aqui.

para saber mais sobre o poeta-escravo juan francisco manzano, ver todos as fotos e conferir as páginas do manuscrito, é só conferir esse site que criei.

* * *

bienvenido a cuba!

já no saguão de desembarque do aeroporto internacional josé martí, uma surpresa.

pela primeira vez, além da imigração e da alfândega, havia também duas médicas.

quando souberam que eu era brasileiro, perguntaram sobre o zika e me deram esse gentil bilhete.

* * *

sobre o trabalho dos cachorros

“prefiro gatos a cachorros”, disse minha amiga camila pavanelli, “porque um gato jamais trabalharia para a polícia.”

é verdade: no mundo inteiro, cachorros trabalham para a polícia — e ainda abanam o rabinho.

em qualquer aeroporto da europa ou estados unidos, lá estão eles: pastores alemães de raça, vestidos de armadura e colete a prova de balas, seríssimos e compenetradíssimos, ao lado de oficiais humanos mais sérios e compenetrados ainda.

pois cuba, já no aeroporto, já à primeira vista, mostra que é um país diferente.

o turista sai do avião, vai pegar sua bagagem… e entra em uma sala cheia de cachorros vira-lata zanzando de um lado pro outro, felizes, livres, brincando com as pessoas.

“que avacalhação!”, pensa o belga certinho, “isso não pode ser um país sério! será que tem porco e galinha nos ônibus também?!”

mas, se um desses pulguentos demonstrar muito interesse por sua mala, um oficial cubano vai surgir, aparentemente do nada, e, com muita gentileza, pedir para ver o que tem dentro.

dado que existe muito menos tráfico de drogas em cuba do que nos eua e na europa, talvez dê até pra argumentar que cachorros felizes e livres trabalham melhor.

um fato, porém, é verdade indiscutível: um gato, seja ele cubano ou chinês, jamais se rebaixaria a tanto.

* * *

¿cuánto por tu sombrero?”

ainda no aeroporto, o moço da casa de câmbio perguntou quanto eu queria pelo meu chapéu amarelo-ovo. respondi que não só o chapéu era novíssimo, como eu era apaixonado por ele.

no carro, comentei com meu motorista e ele respondeu:

“pôxa, eu ia te fazer uma oferta pelo seu chapéu agora.”

da última vez que estive em cuba, perdi o meu chapéu preferido, fiel companheiro de cinco anos por cinco continentes.

agora, com todo esse olho gordo, estou com medo de deixar outro chapéu em cuba.

* * *

não sou o único “alex castro”

sou convidado oficial do instituto cubano do livro, organizador da feira internacional do livro de havana.

por isso, pela primeira vez na minha vida, em qualquer aeroporto, tinha um mocinho me esperando com um cartaz: “alex castro”

aliás, o mesmo nome de um dos filhos do fidel, famoso fotógrafo oficial do ainda mais famoso pai.

mal aí, pessoas que estavam orbitando o meu motorista, esperando o filho do homem chegar.

sou só eu.

* * *

o pior chato é aquele que fala do clima

depois de tantos anos vindo a cuba sempre no verão, quando o maçarico fica ligado o dia inteiro, está sendo uma delícia conhecer havana no inverno. (inverno de carioca, claro: 20 graus de dia, 15 à noite.)

nunca mais volto a cuba no verão, se puder evitar.

* * *

uma cidade de muitas filas

um hábito que peguei em cuba: vejo uma fila, eu entro.

por trás de qualquer aglomeração, sempre tem alguma coisa interessante acontecendo.

ontem, no agro da esquina, vi a fila, entrei, perguntei: tinha acabado de chegar batata e o preço estava ótimo.

(agro é abreviação de mercado agropecuário e é como chamam o equivalente cubano às nossas feiras ou hortifruttis.)

infelizmente, lembrei que, na casa onde estou, não posso usar a cozinha, e saí da fila.

a casa foi conseguida pelo instituto do livro, então, não reclamo, mas preciso encontrar outra.

não poder cozinhar minha própria comida (além de caro!) é como não poder limpar meu próprio cu: me sinto infantilizado.

* * *

o jeito cubano de fazer filas

em cuba, as filas não são concretas, são conceituais.

ou seja, em geral, as pessoas não ficam fisicamente enfileiradas uma atrás da outra.

você chega e pergunta:

“quem é o último?”

alguém levanta a mão e você passa a ficar de olho naquela pessoa: depois de ela ser atendida, será a sua vez.

naturalmente, em poucos minutos, alguém vai chegar e perguntar:

“quem é o último?”

e será a sua vez de se identificar.

eu acho brilhante: me permite ir para um canto, ler e fumar, e tudo o que tenho que fazer é observar uma única pessoa.

* * *

uma cidade cultural

hoje, no meio da tarde de um dia de semana, passando pelo centro cultural bertold brecht (que fica no mesmo bairro que o teatro karl marx, como não amar?), tinha uma aglomeração na porta, só de pessoas com carinha de artista descolado, a maioria negras.

de repente, as pessoas começaram a entrar e eu nem hesitei, fui junto.

era uma apresentação de um grupo de dança negro de um instituto local.

(burramente, não anotei o nome.)

mas esse é um dos motivos que me faz amar havana, e que me faz amar o rio, e que, incrivelmente, me fez sair de nova orleans:

a sensação de que a cidade é uma capital cultural, onde, a cada esquina, tem um poeta alternativo, um grupo de dança inventando novas coreografias, um coletivo de teatro pirando montagens pós-tudo.

(o rio tem, em média, sessenta peças teatrais em cartaz por semana; nova orleans, tinha sete. havana deve estar no meio do caminho entre as duas.)

havana ainda tem uma coisa que, pelo que sei, nenhuma outra cidade do mundo tem:

é o único lugar onde ainda é possível ser poeta profissional, com grandes tiragens, promovidas com grande destaque, vendidas nas grandes seções de poesia nas livrarias, para grandes números de pessoas comuns que de fato consomem poesia.

* * *

fumando em cuba

fumar é uma das minhas cinco coisas favoritas da vida (ler, escrever, fumar, transar, estar no mar), entre outras razões porque não fumo de maneira obsessiva.

(em 2015, devo ter fumado uns dez charutos e entrado no mar umas seis vezes, no máximo, e não deixaram de ser das minhas coisas favoritas da vida. praticamente qualquer coisa faria mal se fosse feita na quantidade obsessiva que a maioria das pessoas fumantes fuma. imagina se você gostasse tanto de canja de galinha que tivesse que comer assim que acorda, enquanto está engarrafada no trânsito, tivesse que sair do trabalho pra tomar uma canja de pé na frente do seu prédio, e ainda fizesse questão de tomar uma canja depois de transar!)

enfim, em cuba, não dá para não fumar. todo o clima do país é deliciosamente condizente ao fumo.

quando estou aqui, eu fumo os mesmos charutos que as pessoas cubanas fumam, os baratos e os vagabundos, aqueles que são vendidos em pacotes de papel, em moeda nacional, nas bodegas de esquina. cada pacote tem 24 charutos e custa 24 pesos cubanos: ou seja, seis reais pelo pacote, vinte e cinco centavos de real por charuto.

claro que não é o melhor charuto do mundo.

mas, se é bom o suficiente para as pessoas comuns do país que praticamente inventou e aperfeiçoou o charuto, então está bom o suficiente para mim.

(a marca de queijo mais vendida na frança, ou a marca de macarrão mais vendida na itália, com certeza não são as melhores produções de cada país nessa área, mas também passaram pelo mesmo rigorosíssimo teste de qualidade.)

* * *

sutil ágio

ontem, eu estava procurando por charutos depois da hora que a maioria das bodegas fecha.

perguntei para o moço de um sebo, que também estava guardando seus livros e fechando a lojinha, e ele se ofereceu para me vender dois pacotes de 24 charutos, por 35 pesos cada.

e vejam: eu sei que esse pacote custa 24 pesos em todas as bodegas do país.

mas estava tarde e o negócio dele não era vender charutos: provavelmente, estava vendendo pacotes que tinha comprado para ele mesmo fumar.

então, fiz uma coisa que faço muito em cuba:

me fiz de bobo.

porque, sério, o ágio total que o moço me cobrou, por me vender 48 dos seus próprios charutos, em uma hora em que todas as lojas estavam fechadas, foi de 20 pesos cubanos, ou R$3,50. (o charuto brasileiro mais vagabundo, no brasil, é no mínimo o dobro disso, por unidade.)

é como quando o vendedor da praia, carregando vinte quilos de picolé debaixo do sol inclemente do verão carioca, quer cobrar dez reais pelo chicabon que, no mercadinho, vale três, e algum bacana estirado na areia ainda tem a cara-de-pau de pechinchar.

dá vontade de dizer:

“ô maluco, se você quer pagar três reais pelo chicabon, levanta da areia e anda até o mercado. se quer o chicabon trazido até você na conveniência da praia, deitado em berço esplêndido enquanto o mar lambe seus pés, paga a porra dos dez.”

muitas vezes, os cubanos mais malandros querem arrancar tão pouco de mim… que eu simplesmente prefiro me deixar depenar.

* * *

mimetismo cubano

minhas três cidades favoritas no mundo, as três cidades que mais amo e que mais conheço, são todas cidades turísticas onde a malandragem é praticamente uma forma de arte: rio, nova orleans, havana.

(um texto meu sobre como é morar onde você passa férias.)

no rio, onde sempre saio de casa fantasiado de alex castro, é comum a ser abordado por todos os malandros de copacabana, mas basta responder em bom carioquês“vaza, merrmão” que me livro deles.

como visito e pesquiso cuba há quase dez anos, meu espanhol é completamente cubanizado: se abro a boca em qualquer lugar do mundo hispânico, pensam que sou cubano. aqui, entretanto, não dá pra enganar os próprios.

porém, como o meu biotipo étnico-misturado padrão do brasil também é o biotipo étnico-misturado padrão de cuba, teoricamente daria para eu passar por cubano se não abrisse a boca.

só que nunca consegui.

todo mundo sempre batia o olho em mim e já sabia que eu era estrangeiro.

estou literalmente há dez anos meditando essa questão:

o que posso fazer para ser confundido com um cubano?

* * *

é porque sou gordo?

não podia ser só isso, existem cubanos gordos.

mas estou tentando emagrecer, juro, e não só para parecer mais cubano.

* * *

é porque estou com uma bolsa ou sandália, acessório ou roupa, que não existe em cuba?

não podia ser só isso, porque a maioria dos cubanos anda vestindo coisas que não existem em cuba e que foram deixadas, trazidas, presenteadas por estrangeiros.

na última viagem, eu andava fantasiado de alex castro (camiseta, calças largonas de algodão cru ou malha, e havaianas) e todo mundo sabia que eu não era dali.

dessa vez, estou vestindo apenas camiseta e outras duas peças de vestuário que nunca, nunca uso, se puder evitar: jeans e (deus me ajude) sapatênis.

além disso, como não está muito calor, estou deixando o chapéu amarelo-ovo em casa.

tudo isso ajuda, mas nada disso é a chave.

* * *

no finalzinho de minha última estadia em cuba, senti que tinha conseguido destrinchar o enigma e agora estou testando a teoria:

é a vaidade.

as pessoas cubanas, homens e mulheres, são as mais vaidosas do mundo: quase todas andam arrumadas e maquiadas, unhas feitas e cabelos modelados.

qualquer pessoa largadona que vejo pela rua provavelmente é estrangeira: homens cubanos não andam de chinelo de dedo e, quando andam, seus pés estão feitos. qualquer dedão do pé com unha preta que você veja em havana será antes de um belga ou de um canadense do que de um havaneiro.

também comecei a reparar na barba e no cabelo dos homens: quase sempre estão muito bem cuidadas, aparadas, modeladas.

eu, por outro lado, no rio, nem tenho espelho em casa pra acompanhar o progresso da minha barba em direção ao estado selvagem: vou ao barbeiro uma vez por mês, peço máquina zero na cabeça, dois na barba, e pronto.

claramente, terei que me adaptar.

* * *

meu barbeiro, robertico, em línea com f, tem um cartaz na parede com mais de sessenta modelagens específicas para cabelo e barba. é só pedir: quero a barba 34 e o cabelo 46. todas, desnecessário dizer, bastante elaboradas.

nas minhas estadias em havana, eu chegava lá e pedia o mesmo que peço pro meu barbeiro do rio — e robertico, aliás, ficava igualmente frustrado.

agora, mudei o pedido:

“robertico, quero parecer cubano. faça o que você quiser. meu cabelo e minha barba são seus. pode pirar.”

o resultado está nas fotos — com uma foto antiga para servir de grupo de controle.

estou rindo até agora. se voltasse para o rio sem avisar, acho que nem eu mesmo me reconheceria.

meu eu antigo

meu eu cubano

* * *

todas as mulheres que já me tiveram eram muito vaidosas.

(naturalmente, nunca “tive” mulher alguma. todas as mulheres que já me tiveram são justamente o tipo de mulher que jamais admitiria ser “tida” por algo tão reles quanto um homem.)

mais naturalmente ainda, o fato de terem sido todas mulheres muito vaidosas também não é coincidência.

e, de todas as mulheres vaidosas por cujas mãos já passei, nenhuma é mais vaidosa que a Diva, com quem tenho andado atualmente.

minha teoria é que a Diva, apesar de ser loira e branca que nem leite, com seu visual chamativo e bem cuidado, cabelos coloridos e modelados, roupas de oncinha e unhas azuis, poderia andar por havana de alto a baixo e não ocorreria jamais a ninguém que ela não fosse cubana.

um dia, vamos testar essa teoria.

* * *

parece que funcionou.

finalmente, consegui.

já no mesmo dia, levei dois esporros totalmente inéditos (e merecidos) de seguranças de lojas.

quando pedi desculpa pela besteira que tinha feito, o segurança ouviu meu sotaque e respondeu:

“ah, é estrangeiro? então, tudo bem.”

como se dissesse, “tá, você é café-com-leite.”

mas, enfim, é uma vitória.

* * *

mas isso foi no vedado, um bairro largamente residencial.

o teste de fogo foi no dia seguinte: passei a manhã inteira andando em havana velha, a região mais turística da cidade, assombrada por hordas de turistas belgas e assolada por multidões ainda maiores de jineteiros (os malandros cubanos) tentando explorá-los.

(escrevi sobre os jineteiros cubanos aqui.)

antes, em uma caminhada de uma manhã, eu seria abordado, no mínimo, no barato, umas vinte vezes.

agora, foram somente duas abordagens, e todas enquanto eu estava fumando charuto, e bem especificamente perguntando se eu queria comprar cohibas —  a melhor marca do país.

e nunca consegui me livrar tão fácil de jineteiros: bastou mostrar o anel do charuto que eu estava fumando e eles simplesmente sumiam.

afinal, quem fuma a marca mais vagabunda possível e imaginária com certeza é pobre demais para um cohiba.

melhor ainda: como nem precisei abrir a boca, ainda saíram achando que eu era cubano.

* * *

observatório da publicidade

no aeroporto, vi um cartaz vendendo relógio. tirando isso, toda a publicidade que vi foi ou de bebida (rum, cerveja, refrigerante) ou de charuto.

até agora, nenhuma publicidade me chamou de feio ou inadequado.

mas estou de olho.

(textinho meu sobre o horror da publicidade.)

* * *

decameron en cuba

está em cartaz, no teatro trianon, no vedado, uma adaptação teatral do decameron, de boccaccio, um dos clássicos mais sem-vergonha da literatura mundial e que acabei de reler.

(você pode conferir minhas notas de leitura aqui.)

abaixo, o belíssimo cartaz.

* * *

jornais de cuba

nas manchetes de sexta-feira, 12 de fevereiro, destaque para a visita do patriarca ortodoxo e para a abertura da feira literária.

e, na revista bohemia, uma das minhas preferidas, uma análise da situação política brasileira que deixa muito jornalão brasileiro no chinelo.

* * *

os livros cubanos expõem a cegueira brasileira

cuba tem uma grande população de pessoas leitoras e um mercado literário pujante para alimentá-las.

em geral, volto de cuba com malas e mais malas de livros que simplesmente não consigo encontrar em outros lugares.

não apenas livros sobre história e cultura de cuba, mas também, talvez mais importante, livros com novas perspectivas sobre velhos assuntos.

em minha última visita, por exemplo, comprei:

uma história da revolução iraniana de 1979… escrita por um iraniano revolucionário;

três histórias e testemunhos da guerra do vietnã… escritos por vietnamitas;

vários livros sobre o processo de independência da áfrica… escritos pelos próprios africanos, e muitos destacando a ajuda cubana;

e assim por diante.

na foto abaixo, alguns dos livros que comprei nos últimos dias:

uma versão cubana de paidea, um clássico sobre história cultural grega que li na universidade;

mais uma história vietnamita do vietnã (é sempre lindo ouvir alguém contando sua própria história);

um testemunho sobre o terremoto do haiti e a reconstrução posterior, escrito por uma médica cubana que fez parte da missão que o país enviou para lá;

um testemunho de uma brasileira que viveu em cuba por dez anos, na década de setenta, depois de ser exilada por nossa ditadura;

um livro sobre os macúa, o povo africano de onde vieram as últimas pessoas escravizadas que chegaram em cuba;

uma seleção dos melhores discursos de robespierre, parte de um esforço historiográfico para corrigir sua imagem de “tirano sanguinário”;

duas antologias com o melhor da literatura contemporânea indiana e chinesa;

uma história da filosofia, com viés marxista, escrita por um filósofo italiano, em três volumes;

um estudo sobre a comunidade de cubanos residentes em miami, incansáveis conspiradores para derrubar o governo de cuba;

por fim, uma tradução de gargantua e pantagruel, de rabelais, um dos livros mais importantes do ocidente, e que simplesmente não se encontra em português.

* * *

no brasil, apesar de termos um mercado editorial muito maior, muito mais rico e muito mais livre, esse tipo de perspectiva simplesmente não se encontra.

dá para passar a vida inteira lendo livros editados no brasil e jurar que pessoas não-norte-americanas e não-europeias simplesmente não escrevem livros.

(ou, se escrevem, não são bons.)

na nossa imensa arrogância, não conseguimos olhar nem para os lados, e muito menos para baixo: somos vítimas da mais profunda auto-imposta eurofilia, que nos cega e nos empobrece.

daí a importância de iniciativas diplomáticas e culturais sul-sul, como iniciadas pelo presidente lula.

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pôr-do-sol no monumento calixto garcía, no malecón

pra não me acusarem de não fazer foto de turista.

monumento a calixto garcia

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uma gigantesca feira literária

quando eu falo que a feira do livro de havana é um dos maiores eventos literários do mundo, acho que minhas pessoas literárias brasileiras não levam muita fé, porque, afinal, quase ninguém no brasil ouviu falar do evento.

mas isso diz mais sobre a cegueira constitutiva do brasil a TUDO que venha do mundo hispânico do que sobre a feira do livro em si.

aqui está o programa completo da feira internacional do livro de havana de 2016.

é tipo VINTE vezes maior que a flip. uma pessoa teria que viver VINTE vidas só para ir a todos os eventos desse ANO. só o esforço pra organizar tudo isso já é de fundir a cabeça.

benditos sejam os cubanos e sua paixão nacional por livros.

aí se perguntem: porque a imprensa brasileira não noticiou NADA disso?

* * *

minha palestra “o escravo e a palavra”

para quem tiver curiosidade e souber ler espanhol, aqui está o texto completo da palestra que vou proferir na casa de las américas, na manhã de 17 de fevereiro:

juan francisco manzano, el esclavo y la palabra.

semana que vem, conto como foi.

leiam as pessoas cubanas

a imprensa brasileira nunca deu nenhuma linha verdadeira sobre cuba. para conhecer a realidade da ilha, é preciso ouvir os próprios cubanos, tanto pró- quanto anti-revolução.

para isso, criei uma lista no facebook com mais de 50 perfis cubanos, de todos os matizes políticos. acompanhe aqui.

* * *

porque escrevo em minúsculas.


publicado em 16 de Fevereiro de 2016, 15:05

(Alex Castro)

FONTE: http://www.papodehomem.com.br/um-castro-na-ilha-de-castro-or-cronicas-de-cuba-em-2016-1?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+PapodehomemLifestyleMagazine+%28Papo+de+Homem+-+%C3%89+tempo+de+homens+poss%C3%ADveis.+Puxe+uma+cadeira%2C+a+casa+%C3%A9+sua.%29

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Bel Pesce e a carta de Mark Manson

17/02/2016 às 3:36 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Midiateca, Zuniversitas | 3 Comentários
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Há alguns meses eu pretendia fazer um post aqui divulgando o trabalho e o site de Bel Pesce. Faço isso agora, no momento em que vi um vídeo dela lendo a carta de Mark Manson que se espalhou pela grande rede. Por óbvio ele não faz nenhuma análise histórica tentando buscar o porquê de termos chegado até aqui, mas vale a pena a leitura. Quando leio algo desse tipo, sempre me vem a mente Darcy Ribeiro e seus livros. Nesse caso me lembrei de um dos melhores dele, esgotado: AOS TRANCOS E BARRANCOS, COMO O BRASIL DEU NO QUE DEU. Para mim é como se fosse uma bíblia, ou uma constituição: todo brasileiro deveria ler.

aos-trancos

 

SITEhttp://belpesce.com.br



Querido Brasil,

O Carnaval acabou. O “ano novo” finalmente vai começar e eu estou te deixando para voltar para o meu país.

Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá pela primeira vez em busca de festas, lindas praias e garotas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior parte dos 4 últimos anos dentro das suas fronteiras. Aprenderia muito sobre a sua cultura, sua língua, seus costumes e que, no final deste ano, eu me casaria com uma de suas garotas.

Não é segredo para ninguém que você está passando por alguns problemas. Existe uma crise política, econômica, problemas constantes em relação à segurança, uma enorme desigualdade social e agora, com uma possível epidemia do Zika vírus, uma crise ainda maior na saúde.

Durante esse tempo em que estive aqui, eu conheci muitos brasileiros que me perguntavam: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

No passado, eu tinha muitas teorias sobre o sistema de governo, sobre o colonialismo, políticas econômicas, etc. Mas recentemente eu cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai achar essa minha conclusão meio ofensiva, mas depois de trocar várias ideias com alguns dos meus amigos, eles me encorajaram a dividir o que eu acho com todos os outros brasileiros.

Então aí vai: é você.

Você é o problema.

Sim, você mesmo que está lendo esse texto. Você é parte do problema. Eu tenho certeza de não é proposital, mas você não só é parte, como está perpetuando o problema todos os dias.

Não é só culpa da Dilma ou do PT. Não é só culpa dos bancos, da iniciativa privada, do escândalo da Petrobras, do aumento do dólar ou da desvalorização do Real.

O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.

O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de “ser brasileiro” mesmo que isso não esteja certo.

Quer um exemplo?

Imagine que você está de carona no carro de um amigo tarde da noite. Vocês passam por uma rua escura e totalmente vazia. O papo está bom e ele não está prestando muita atenção quando, de repente, ele arranca o retrovisor de um carro super caro. Antes que alguém veja, ele acelera e vai embora.

No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho que você mal conhece dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e ele amanheceu sem o retrovisor. Pela descrição, você descobre que é o mesmo carro que seu brother bateu “sem querer”. O que você faz?

A) Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger seu amigo? Ou
B) Diz para o cara que sente muito e força o seu amigo a assumir a responsabilidade pelo erro?

Eu acredito que a maioria dos brasileiros escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos gringos escolheria a alternativa B.

Nos países mais desenvolvidos o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.

Eu percebo que vocês brasileiros são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos e, por isso, não se consideram egoístas.

Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos brasileiros seja extremamente egoísta, já que priorizar a família e os amigos mais próximos em detrimento de outros membros da sociedade é uma forma de egoísmo.

Sabe todos aqueles políticos, empresários, policiais e sindicalistas corruptos? Você já parou para pensar por que eles são corruptos? Eu garanto que quase todos eles justificam suas mentiras e falcatruas dizendo: “Eu faço isso pela minha família”. Eles querem dar uma vida melhor para seus parentes, querem que seus filhos estudem em escolas melhores e querem viver com mais segurança.

É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua famílias, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo.

Além disso, seu povo também é muito vaidoso, Brasil. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é vaidoso por aqui não é considerado um insulto como é nos Estados Unidos. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Algumas semanas atrás, eu e minha noiva viajamos para um famoso vilarejo no nordeste. Chegando lá, as praias não eram bonitas como imaginávamos e ainda estavam sujas. Um dos pontos turísticos mais famosos era uma pedra que de perto não tinha nada demais. Foi decepcionante.

Quando contamos para as pessoas sobre a nossa percepção, algumas delas imediatamente disseram: “Ah, pelo menos você pode ver e tirar algumas fotos nos pontos turísticos, né?”

Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem essa questão da vaidade: as pessoas por aqui estão muito mais preocupadas com as aparências do que com quem eles realmente são.

É claro que aqui não é o único lugar no mundo onde isso acontece, mas é muito mais comum do que em qualquer outro país onde eu já estive.

Isso explica porque os brasileiros ricos não se importam em pagar três vezes mais por uma roupa de grife ou uma jóia do que deveriam, ou contratam empregadas e babás para fazerem um trabalho que poderia ser feito por eles. É uma forma de se sentirem especiais e parecerem mais ricos. Também é por isso que brasileiros pagam tudo parcelado. Porque eles querem sentir e mostrar que eles podem ter aquela super TV mesmo quando, na realidade, eles não tenham dinheiro para pagar. No fim das contas, esse é o motivo pelo qual um brasileiro que nasceu pobre e sem oportunidades está disposto a matar por causa de uma motocicleta ou sequestrar alguém por algumas centenas de Reais. Eles também querem parecer bem sucedidos, mesmo que não contribuam com a sociedade para merecer isso.

Muitos gringos acham os brasileiros preguiçosos. Eu não concordo. Pelo contrário, os brasileiros tem mais energia do que muita gente em outros lugares do mundo (vide: Carnaval).

O problema é que muitos focam grande parte da sua energia em vaidade em vez de produtividade. A sensação que se tem é que é mais importante parecer popular ou glamouroso do que fazer algo relevante que traga isso como consequência. É mais importante parecer bem sucedido do que ser bem sucedido de fato.

Vaidade não traz felicidade. Vaidade é uma versão “photoshopada” da felicidade. Parece legal vista de fora, mas não é real e definitivamente não dura muito.

Se você precisa pagar por algo muito mais caro do que deveria custar para se sentir especial, então você não é especial. Se você precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir importante, então você não é importante. Se você precisa mentir, puxar o tapete ou trair alguém para se sentir bem sucedido, então você não é bem sucedido. Pode acreditar, os atalhos não funcionam aqui.

E sabe o que é pior? Essa vaidade faz com que seu povo evite bater de frente com os outros. Todo mundo quer ser legal com todo mundo e acaba ou ferrando o outro pelas costas, ou indiretamente só para não gerar confronto.

Por aqui, se alguém está 1h atrasado, todo mundo fica esperando essa pessoa chegar para sair. Se alguém decide ir embora e não esperar, é visto como cuzão. Se alguém na família é irresponsável e fica cheio de dívidas, é meio que esperado que outros membros da família com mais dinheiro ajudem a pessoa a se recuperar. Se alguém num grupo de amigos não quer fazer uma coisa específica, é esperado que todo mundo mude os planos para não deixar esse amigo chateado. Se em uma viagem em grupo alguém decide fazer algo sozinho, este é considerado egoísta.

É sempre mais fácil não confrontar e ser boa praça. Só que onde não existe confronto, não existe progresso.

Como um gringo que geralmente não liga a mínima sobre o que as pessoas pensam de mim, eu acho muito difícil não enxergar tudo isso como uma forma de desrespeito e auto-sabotagem. Em diversas circunstâncias eu acabo assistindo os brasileiros recompensarem as “vítimas” e punirem àqueles que são independentes e bem resolvidos.

Por um lado, quando você recompensa uma pessoa que falhou ou está fazendo algo errado, você está dando a ela um incentivo para nunca precisar melhorar. Na verdade, você faz com que ela fique sempre contando com a boa vontade de alguém em vez de ensina-la a ser responsável.

Por outro lado, quando você pune alguém por ser bem resolvido, você desencoraja pessoas talentosas que poderiam criar o progresso e a inovação que esse país tanto precisa. Você impede que o país saia dessa merda que está e cria ainda mais espaço para líderes medíocres e manipuladores se prolongarem no poder.

E assim, você cria uma sociedade que acredita que o único jeito de se dar bem é traindo, mentindo, sendo corrupto, ou nos piores casos, tirando a vida do outro.

As vezes, a melhor coisa que você pode fazer por um amigo que está sempre atrasado é ir embora sem ele. Isso vai fazer com que ele aprenda a gerenciar o próprio tempo e respeitar o tempo dos outros.

Outras vezes, a melhor coisa que você pode fazer com alguém que gastou mais do que devia e se enfiou em dívidas é deixar que ele fique desesperado por um tempo. Esse é o único jeito que fará com que ele aprenda a ser mais responsável com dinheiro no futuro.

Eu não quero parecer o gringo que sabe tudo, até porque eu não sei. E deus bem sabe o quanto o meu país também está na merda (eu já escrevi aqui sobre o que eu acho dos EUA).

Só que em breve, Brasil, você será parte da minha vida para sempre. Você será parte da minha família. Você será meu amigo. Você será metade do meu filho quando eu tiver um.

E é por isso que eu sinto que preciso dividir isso com você de forma aberta, honesta, com o amor que só um amigo pode falar francamente com outro, mesmo quando sabemos que o que temos a dizer vai doer.

E também porque eu tenho uma má notícia: não vai melhorar tão cedo.

Talvez você já saiba disso, mas se não sabe, eu vou ser aquele que vai te dizer: as coisas não vão melhorar nessa década.

O seu governo não vai conseguir pagar todas as dívidas que ele fez a não ser que mude toda a sua constituição. Os grandes negócios do país pegaram dinheiro demais emprestado quando o dólar estava baixo, lá em 2008-2010 e agora não vão conseguir pagar já que as dívidas dobraram de tamanho. Muitos vão falir por causa disso nos próximos anos e isso vai piorar a crise.

O preço das commodities estão extremamente baixos e não apresentam nenhum sinal de aumento num futuro próximo, isso significa menos dinheiro entrando no país. Sua população não é do tipo que poupa e sim, que se endivida. As taxas de desemprego estão aumentando, assim como os impostos que estrangulam a produtividade da classe trabalhadora.

Você está ferrado. Você pode tirar a Dilma de lá, ou todo o PT. Pode (e deveria) refazer a constituição, mas não vai adiantar. Os erros já foram cometidos anos atrás e agora você vai ter que viver com isso por um tempo.

Se prepare para, no mínimo, 5-10 anos de oportunidades perdidas. Se você é um jovem brasileiro, muito do que você cresceu esperando que fosse conquistar, não vai mais estar disponível. Se você é um adulto nos seus 30 ou 40, os melhores anos da economia já fazem parte do seu passado. Se você tem mais de 50, bem, você já viu esse filme antes, não viu?

É a mesma velha história, só muda a década. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoa da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas.

O “jeitinho brasileiro” precisa morrer. Essa vaidade, essa mania de dizer que o Brasil sempre foi assim e não tem mais jeito também precisa morrer. E a única forma de acabar com tudo isso é se cada brasileiro decidir matar isso dentro de si mesmo.

Ao contrario de outras revoluções externas que fazem parte da sua história, essa revolução precisa ser interna. Ela precisa ser resultado de uma vontade que invade o seu coração e sua alma.

Você precisa escolher ver as coisas de um jeito novo. Você precisa definir novos padrões e expectativas para você e para os outros. Você precisa exigir que seu tempo seja respeitado. Você deve esperar das pessoas que te cercam que elas sejam responsabilizadas pelas suas ações. Você precisa priorizar uma sociedade forte e segura acima de todo e qualquer interesse pessoal ou da sua família e amigos. Você precisa deixar que cada um lide com os seus próprios problemas, assim como você não deve esperar que ninguém seja obrigado a lidar com os seus.

Essas são escolhas que precisam ser feitas diariamente. Até que essa revolução interna aconteça, eu temo que seu destino seja repetir os mesmos erros por muitas outras gerações que estão por vir.

Você tem uma alegria que é rara e especial, Brasil. Foi isso que me atraiu em você muitos anos atrás e que me faz sempre voltar. Eu só espero que um dia essa alegria tenha a sociedade que merece.

Seu amigo,

Mark

Traduzido por Fernanda Neute

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