Gregório Duvivier (2)

21/03/2016 às 18:26 | Publicado em Artigos e textos | 10 Comentários
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Já publiquei artigos dele antes. Duvivier escreve às segundas na Folha. Confiram esses dois, interligados, vale a pena !

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Do que e que se tem saudade

“O mundo tá chato”. Você já deve ter ouvido essa frase, geralmente vinda de gente chata. Em geral, serve para justificar o fracasso de alguma piada -claro, a culpa é do mundo, não da piada. Se sua piada não teve graça é porque “o pessoal hoje em dia se ofende com qualquer coisa”, afinal “você não pode mais brincar com nada” desde que “o politicamente correto venceu”. O que aconteceu? “O mundo perdeu a graça”.

Vale lembrar o óbvio: o fato de os ofendidos estarem manifestando somente agora sua indignação não significa que não se ofendessem antes. O que chamam de “politicamente correto” também pode atender pelo nome de “processo civilizatório”: o mundo definitivamente tá mais chato -se você for racista, machista ou homofóbico.

Nunca vi um negro com saudades das boas e velhas “piadas de crioulo”. O saudosismo, assim como o mocassim e a camisa polo com um cavalo enorme, é doença de branco. Se ninguém ri de uma piada machista, não significa que o mundo perdeu a graça, significa que o machismo perdeu a graça. Ou seja: cuidado. Quando você diz que o mundo tá chato, você pode estar se entregando.

“Quero meu Brasil de volta” -gritam atores em vídeo-manifesto e dançarinos em coreografia ensaiada. Não contem comigo para nenhuma manifestação que peça o Brasil de volta -são grandes as chances desse Brasil ser a encarnação das trevas.

Imagina que você tivesse uma máquina do tempo. Pode escolher uma época. Se eu fosse você, não colocaria no “shuffle”. Especialmente se você for negro, gay, mulher ou travesti. As chances de você ser espancado, escravizado, preso ou estuprado são altíssimas. Se você for pobre também não vai ser muito divertido. Viagem no tempo não é para esse povo diferenciado. A não ser que esteja procurando emoções fortes. Nesse caso, boa viagem.

Da minha parte, acho que prefiro ficar por aqui mesmo. Ainda não inventaram nada melhor do que o presente. Talvez abrisse uma exceção para o Brasil pré-colonial. Imaginem a Baía de Guanabara antes de Cabral -tanto o Sérgio quanto o Pedro Álvares- ou São Paulo antes de Borba Gato -tanto o bandeirante quanto a estátua. Aí sim. Por esse Brasil eu iria pra rua. No entanto, tendo em vista a profusão de hinos, bandeiras, camisetas da CBF, não acho que o Brasil das manifestações fale tupi-guarani. As selfies com a PM indicam que o Brasil saudoso é mais recente.

Se você quer algum Brasil de volta -levando em conta nossa história-, cuidado: você pode estar se entregando.

14/03/2016

(Gregório Duvivier)


O sequestro das palavras

Vamos supor que toda palavra tenha uma vocação primeira. A palavra mudança, por exemplo, nasceu filha da transformação e da troca, e desde pequena servia para descrever o processo de mutação de uma coisa em outra coisa que não deixou de ser, na essência, a mesma coisa –quando a coisa é trocada por outra coisa, não é mudança, é substituição. A palavra justiça, por exemplo, brotou do casamento dos direitos com a igualdade (sim, foi um ménage): servia para tornar igual aquilo que tinha o direito de ser igual mas não estava sendo tratado como tal.

No entanto as palavras cresceram. E, assim como as pessoas, foram sendo contaminadas pelo mundo à sua volta. As palavras, coitadas, não sabem escolher amizade, não sabem dizer não. A liberdade, por exemplo, é dessas palavras que só dizem sim. Não nasceu de ninguém. Nasceu contra tudo: a prisão, a dependência, o poder, o dinheiro –mas não se espante se você vir a liberdade vendendo absorvente, desodorante, cartão de crédito, empréstimo de banco. A publicidade vive disso: dobrar as melhores palavras sem pagar direito de imagem. Assim, você verá as palavras ecologia e esporte juntarem-se numa só para criar o EcoSport –existe algo menos ecológico ou esportivo que um carro? Pobres palavras. Não tem advogados. Não precisam assinar termos de autorização de imagem. Estão aí, na praça, gratuitas.

Nem todos aceitam que as palavras sejam sequestradas ao bel prazer do usuário. A política é o campo de guerra onde se disputa a posse das palavras. A “ética”, filha do caráter com a moral, transita de um lado para o outro dos conflitos, assim como a Alsácia-Lorena, e não sem guerras sanguinárias. Com um revólver na cabeça, é obrigada a endossar os seres mais amorais e sem caráter. A palavra mudança, que sempre andou com as esquerdas, foi sequestrada pelos setores mais conservadores da sociedade –que fingem querer mudar, quando o que querem é trocar (para que não se mude mais). A Justiça, coitada, foi cooptada por quem atropela direitos e desconhece a igualdade, confundindo-a o tempo todo com seu primo, o justiçamento, filho do preconceito com o ódio.

Já a palavra impeachment, recém nascida, filha da democracia com a mudança, está escondida num porão: emprestaram suas roupas à palavra golpe, que desfila por aí usando seu nome e seus documentos. Enquanto isso, a palavra jornalismo, coitada, agoniza na UTI. As palavras não lutam sozinhas. É preciso lutar por elas.

21/03/2016

(Gregório Duvivier)

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  1. […] Gregório Duvivier, imperdível como sempre ! […]

  2. […] é de Gregório Duvivier […]

  3. […] Gregório Duvivier, mais um excelente artigo.  Saiu na folha no primeiro dia deste mês, mas o conteúdo é atemporal, confiram ! […]

  4. Duvivier: paulistano espera escândalo de corrupção de Haddad para poder votar nele

    Da coluna de Gregório Duvivier na Folha:

    De tudo o que escrevi por aqui, o que mais gerou revolta foi falar bem de São Paulo. Cariocas ficaram revoltados com um carioca elogiando outra cidade que não o Rio. Paulistanos ficaram revoltados com um carioca elogiando a cidade deles. “Falar bem de São Paulo é fácil!”, gritavam. “Quero ver morar aqui!”
    Na Redação da Folha me explicaram que quebrei um acordo tácito: aqui não se fala bem de São Paulo. Acho que foi o Juca Kfouri que me ensinou: “O que a imprensa carioca e a paulista têm em comum é que a imprensa carioca odeia São Paulo e a imprensa paulista odeia São Paulo”.
    Só mesmo essa falta de autoestima explica a maneira como tratam o Haddad. A decepção do paulistano com o prefeito me lembra da tristeza de uma amiga que reclamava do namorado fofo demais. Suspirava: “Se ao menos descobrisse que ele me trai…”. Todo dia entrava no Facebook dele e nada. Nem uma cutucada.
    Tenho certeza de que todo dia o paulistano abre o jornal ansiando por um escândalo de corrupção envolvendo o prefeito. Algo que fizesse jus à expectativa. Bastava um desviozinho pra paixão voltar com tudo! Mas nada. Enquanto isso, Doria e Russomanno só fazem subir nas pesquisas –na mesma proporção em que pipocam escândalos envolvendo os mesmos.
    Tenho a impressão de que os paulistanos votaram em Haddad da primeira vez por causa do sobrenome. Pensaram: “Kassab, Maluf, Temer, Alckmin… Deve ser da turma deles”. (Ainda vão explicar a onipresença libanesa na política brasileira).
    Ledo engano. Haddad fez corredor de ônibus, levou cinema pra periferia, priorizou a bicicleta, reduziu acidentes, empregou travestis, cuidou dos crackudos, fechou a Paulista pra pedestre, fechou o Minhocão mais cedo aos sábados pras famílias, e nem uma pontezinha superfaturada. Nada. Nem um peculatozinho.
    Poxa, Haddad, aí fica difícil te defender.

  5. […] Gregório Duvivier, uma esperança ! […]

  6. […] Duvivier, jovem esperança. Confiram essa entrevista e o livro. E, para os que moram em Salvador-BA, o convite para o evento de hoje: VOCÊ É O QUE LÊ ! […]

  7. […] Duvivier, a melhor retrospectiva de um ano do golpe (até o minuto 14:40)! […]

  8. […] Gregório Duvivier, sempre bom ! O foco nesse vídeo é o Poder Judiciário. […]

  9. […] Duvivier já esteve aqui antes. Dos novos é um dos melhores ! […]

  10. […] Duvivier, com a mesma genialidade de sempre ! […]


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