A nova fórmula da Kroton

07/04/2016 às 3:11 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Mais que um caso de sucesso na área de Educação. Parabéns a esses jovens empreendedores brasileiros. Se pararmos para pensar, a ideia é simples, como toda idéia genial.


A nova fórmula da Kroton

A maior empresa de educação do mundo acaba de comprar uma startup, fundada por dois engenheiros. Por quê? Ela quer se tornar um Google do ensino


Felipe Mattos (à esq.) e Murilo Andrade, da Studiare;Empreendedorismo;Educação;Studiare;Kroton (Foto: Leonardo Wen/Estúdio Lunes)

Murilo Andrade (à esq.) e Felipe Mattos, da Studiare. Aos 29 anos, eles venderam a empresa, mas continuam à frente do negócio (Foto: Leonardo Wen/Estúdio Lunes)

Era julho de 2013, e o carioca Felipe Mattos vivia um frenesi movido por algoritmos. Diante de uma tela de computador, programava sem descanso. Foi aí que o telefone tocou. O alagoano Murilo Andrade, do outro lado da linha, queria convidá-lo para seu casamento. Mattos declinou. “Sinto muito, mas não posso ir”, disse. “Estou virando noites para montar uma empresa.” Não foi preciso ouvir mais nada. Andrade, que à época trabalhava no Morgan Stanley, em Londres, andava desalentadíssimo com o mundo das finanças. Perguntou se o amigo não precisava de um sócio. Nascia, naquele instante, a startup Studiare, especializada em softwares para a educação. E deu certo? Bem, em outubro, ela foi vendida por R$ 4,1 milhões para a Kroton, o maior grupo educacional do mundo. E Mattos e Andrade continuam à frente do negócio.

A Studiare produz uma tecnologia chamada, no jargão, de “ensino adaptativo”. Na prática, os algoritmos desenvolvidos pela empresa (aqueles que mal deixavam Felipe Mattos dormir) analisam o desempenho dos estudantes em provas. A partir daí, o sistema identifica as deficiências de cada aluno e propõe um plano individual de estudos. Com a ferramenta, é possível, por exemplo, preparar com maior eficiência um advogado para o exame da OAB, um vestibulando para o Enem (a prova nacional para alunos do ensino médio) ou descobrir quais problemas um jovem carrega do colégio para a universidade. Ou seja: em tese, presta um servição.

Um google da educação
A parceria entre a Kroton e a Studiare começou quando a tecnologia engatinhava. Ainda em 2013, Mattos exibiu um protótipo da plataforma na Fundação Estudar, criada pela turma do 3G (Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira). Ele tentava obter uma bolsa da instituição. Conseguiu o benefício e, de quebra, conheceu Igor Lima, então vice-presidente de integração da Kroton, que assistiu à apresentação. “Vi uma versão da ferramenta feita para o Enem e perguntei se seria possível desenvolver algo parecido para o ensino superior”, diz Lima. “O Enade, que avalia o desempenho de estudantes de graduação, aconteceria dali a três meses. Mattos me pediu seis semanas para desenvolver um novo software para essa prova. E conseguiu.”

O primeiro grande teste do programa da Studiare ocorreu no curso de serviço social da Uniasselvi, universidade vendida recentemente pela Kroton por exigência do Cade. De uma amostra de mil alunos, 800 usaram por oito semanas a tecnologia. O objetivo da ação era melhorar o resultado dessa turma no Enade. À medida que o aluno realizava as provas, a ferramenta – que também calcula a probabilidade de um assunto cair no exame – sugeria os tais planos individualizados de estudos. Paralelamente, um grupo de professores passou a receber indicadores de desempenho de cada estudante. Ao final do processo, quem usou o sistema de ensino adaptativo obteve uma avaliação, em média, 12,5% superior aos demais.

200.000 estudantes já utilizaram a ferramenta de ensino da Studiare. Em média, a performance acadêmica dos alunos melhorou 35%, segundo a Kroton

No ano seguinte, 2014, a parceria da Studiare com a Kroton alargou-se. No primeiro semestre, já envolvia 30 mil alunos. Após a fusão entre a Kroton e a Anhanguera, em julho do ano passado, o número dobrou. Somente para a preparação do Enade de 2015, 90 mil jovens utilizaram a plataforma. Ao todo, ela alcança 50 cursos, além de 10 mil professores e gestores. A performance acadêmica dos estudantes apresentou um novo avanço: melhorou, em média, 35%.

Foram resultados como esses que levaram a Kroton a iniciar as negociações de compra da Studiare, no começo de 2015. Elas foram concluídas em outubro passado. Na verdade, a investida da empresa faz parte de uma estratégia  mais ampla. Desde o início de 2013, a Kroton vasculha o mundo em busca de tecnologias que possam ser aplicadas às salas de aula. Ao todo, já foram analisadas soluções desenvolvidas por 107 companhias, provenientes de 12 países (o Brasil é somente um deles). “A linha que divide a educação e a tecnologia está cada vez mais tênue”, disse Rodrigo Galindo, o CEO da Kroton, ao anunciar a compra da Studiare. Por isso, a gigante do ensino quer atrair startups para debaixo de sua asa. Pioneiro, o negócio com a dupla Mattos e Andrade deve se tornar um modelo para futuras aquisições. “A gente até brinca que, de repente, podemos nos tornar o Google da educação”, diz Paulo de Tarso, vice-presidente de negócios e inovação da Kroton.

Rodrigo Galindo;CEO Kroton;Empreendedorismo;Educação;Studiare;Kroton (Foto:  Gabriel Rinaldi)

Galindo, o CEO da Kroton: “A linha que divide a educação e a tecnologia está cada vez mais tênue” (Foto: Gabriel Rinaldi)

Trajetórias brilhantes
Felipe Mattos e Murilo Andrade estudaram no Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro, uma das mais renomadas escolas do país, conhecida pelo vestibular dificílimo – só é páreo para o do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Os dois ingressaram na instituição aos 17 anos, sem fazer cursinho. No segundo ano, aproximaram-se. “Logo de cara, deduzimos, juntos, a equação de Black-Scholes”, diz Mattos. O modelo, aplicado para precificar derivativos, rendeu o Nobel, em 1973, aos cientistas que dão nome à fórmula (Fischer Black e Myron Scholes). “Dez anos depois, lembraríamos disso para fazer a nossa sociedade.”

Ambos cursaram engenharia da computação. Mattos formou-se em 2008, com a melhor nota do Enade para o curso. Fez mestrado em economia matemática no prestigiado Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio. Ingressou na consultoria McKinsey. Ali, ganhou uma bolsa para um MBA na Wharton School, na Pensilvânia (EUA). “Não sei se foi a cultura empreendedora dos americanos ou a minha vontade de fazer algo transformador”, afirma Mattos. “Mas foi ali que surgiu a ideia de criar a Studiare.” E ele arriscou. Seus pais o criticavam pela empreitada, considerada de alto risco. Mattos também arcou com uma dívida de US$ 100 mil com a McKinsey, por ter deixado a empresa logo após concluir o MBA, bancado pela consultoria.

Murilo Andrade, um contumaz vencedor de olimpíadas de matemática, concluiu o curso no IME e seguiu para a França. Ali, ingressou na École Polytechnique, uma das mais renomadas do mundo, até atravessar o Canal da Mancha e, em Londres, trabalhar por três anos no Morgan Stanley. Depois que acertou a sociedade na Studiare, ele deixou a Europa. Mal pestanejou. Arrumou as malas e trouxe a esposa francesa e o filho para morar no Rio.

A venda da Studiare não vai alterar a rotina de Mattos e Andrade, ambos, hoje, com 29 anos. Eles permanecerão à frente do negócio, desenvolvendo projetos ao lado de outros cinco profissionais. Segundo Mattos, dentro da startup, “todos são melhores ou tão bons” quanto ele e o sócio. Do lado da Kroton, a ideia é levar a plataforma para o ensino médio (o antigo colegial) e fundamental, tanto em escolas públicas como privadas. Nos mesmos moldes que aplicou no Enade, a Kroton quer, agora, atuar na preparação para o Enem – e, de quebra, atrair alunos para suas universidades.

É preciso acompanhar os próximos passos de Mattos e Andrade para ver até onde evolui o sistema de ensino adaptativo desenvolvido pela dupla. “Muitas empresas brasileiras de tecnologia voltada para a educação não conseguem, de fato, personalizar o conteúdo para os alunos”, diz Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann. Sem isso, a plataforma perde grande parte de seu sentido. Mizne também observa que a tentativa de disseminar esse tipo de recurso, principalmente entre alunos de escolas públicas, ainda tropeça em entraves elementares. Muitos desses estudantes não têm acesso a computadores e à internet com banda larga. Mattos a Andrade conhecem o tamanho do desafio. Tentam, cada vez mais, investir em interfaces que aumentem o engajamento dos alunos. Afinal, eles acreditam que não adianta criar os melhores algoritmos se os estudantes não forem fisgados pela tecnologia.

(04/02/2016 – 11h00 – Atualizada às 12h19 – POR BARBARA BIGARELLI)

FONTE: http://epocanegocios.globo.com/Empreendedorismo/noticia/2016/02/nova-formula-da-kroton.html

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3 Comentários »

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  1. […] Fonte: A nova fórmula da Kroton | ZÉducando […]

  2. Excelente! Prova de que o Brasil TEM jeito, basta o povo focar, parar de ser “ixperto” e trabalhar!

    Pena que, nem na matéria original dão mais detalhes…

  3. Também achei ZeLuis. Os idealizadores são contemporâneos no IME de um sobrinho meu do Ceará. Abs,


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