1984 é aqui e agora

08/04/2016 às 3:56 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Muito bom esse artigo. Já escrevi muitos posts aqui sobre a questão de fundo que envolve esses novos tempos da grande rede. “Hic at nunc, Yo no creo en brujas, pero
que las hay, las hay!”
Confiram !


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Senti pela primeira vez a profecia de George Orwell no início dos anos 70 durante uma visita de Nixon a Roma, onde eu fazia um doutorado. Helicópteros militares da base americana de Nápoles roçavam os telhados. Em cima dos edifícios, fuzileiros apontavam para a multidão que protestava. Se alguém levantasse uma muleta ou apontasse uma teleobjetiva poderia ser fuzilado.A profecianão estava completa. De lá paracácriou-se um sistema de vigilância política/policial que não poupa nem presidentes como Angela Merckel e Dilma, e bisbilhota empresas como a Petrobras. Os que denunciaram os grampos ilegais e os excessos do exército de ocupação do Iraque estão exilados em embaixadas ou países estrangeiros e proibidos de falarem, como Assange e Snowden.

Bilhões de minicâmaras estão hoje espalhadas por todo o mundo, nas ruas e praças, em estações de transporte, estádios e em sanitários públicos, e ligadas aos satélites. Toda esta rede de espionagem, que Orwell apenas imaginou e se tornou realidade, aquem serve? Para
Orwell, ao comunismo internacional. Mas o que se viu foi o contrário, serve ao capitalismo transnacional. Nada disso nos deu mais segurança, evitando os atentados na Europa e a criminalidade em nossas cidades. Servem apenas para o controle político.Orwell previa uma
espécie de aparelho de TV com câmaras paracontrolar diuturnamente todos os cidadãos, em suas casas. Elas são as TVs interativas. Mas já chegam tarde, pois os nossos smartphones, notebooks e tablets fazem o mesmo. Fotos e fichas de todos nós estão em alguma nuvem. As empresas de cartões de credito sabem o que, quando, onde e quanto pagamos por bens e serviços. Vendem essas informações e nossos e-mails para empresas que nos massacram com seus spans vazios.

Nunca se viu tanto voyeurismo público e privado. As câmaras do Big Brother Brasil não estão apenas no Projac, mas nas nossas casas, escritórios, escolas e fábricas. Há um cenário novo que Orwell não previu, asociedade ou civilização do espetáculo, analisado por Guy Debord em 1967. Monteiro Lobato, que morreu em 1948 e não conheceu a TV , dizia que não existia opinião pública, senão opinião publicada. O que diria hoje? Somos o maravilhoso “gado novo”, marcado e feliz, cantado por Zé Ramalho. A este propósito, quero fazer referência ao excelente artigo do Prof. Ponciano de Carvalho “Há razão jurídica no processo penal do espetáculo?” , publicado neste jornal no último dia 18.

Por trás da crise política/econômica há uma crise institucional mais grave, a do presidencialismo de coalizão, e que sem resolvê-la vamos continuar convivendo com partidos de aluguel, com a ingovernabilidade e a compra de votos. A corrupção envolve todos os partidos e ninguém acredita nos políticos. Há uma crescente tensão, não só entre o Legislativo e o Executivo, como entre setores recém incluídos na sociedade e uma classe média temerosa de perder privilégios que só existem no Brasil. Nesse quadro, caberia ao judiciário exercer uma ação moderadora para evitar uma conflagração social. Mas a vaidade de alguns de seus membros, políticos oportunistas e uma mídia alienada não consideram a gravidade do momento e investem no espetáculo.

Há um ano, o Brasil, o mais influente país da América Latina, está parado. Os principais corruptos já foram alforriados com oritual das delações premiadas, enquanto a Petrobras e as maiores empresas brasileiras estão sendo sucateadas. O principal cientista nuclear brasileiro foi preso sob a acusação de corrupção, e o desenvolvimento de um caça e a construção de um submarino nuclear por empresas brasileiras com tecnologias europeias e nacionais estão sob suspeita e podem ter o mesmo fim da base de Alcântara. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!

(Paulo Ormíndo de Azevedo, Arquitero e Professor da UFBA)

FONTE: jornal A TARDE, Salvador-BA, 27.03.2016

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  1. Mídia atinge a democracia à queima-roupa

    Por Celso Vicenzi, em seu blog:

    Já se disse que jornalismo “é a história à queima-roupa”. Expressão que nos remete, de imediato, para “um tiro à queima-roupa”. Um atentado. É o que os tradicionais veículos da mídia oligopolizada do país estão promovendo neste momento contra a democracia. A sangue frio, como narraria Truman Capote.

    Todos os movimentos, feitos com sutileza, astúcia, insinuação, artimanha, dissimulação, logro, malícia, maquiavelismo, trapaça e distorção (exagero? não!) são habilmente manipulados para tentar induzir boa parte da opinião pública a aceitar inverdades. A começar por uma que já se fixou na mente de boa parte dos brasileiros desinformados: a de que nunca se roubou tanto neste país quanto nos governos do PT e que uma quadrilha se instalou no poder – como nunca antes houvera na história dessa nação de anjos.

    Por qualquer informação ou estatística que se busque, mesmo na imprensa tradicional, é fácil constatar que a quantidade de escândalos de corrupção e o montante de valores envolvidos, já foram muito maiores em governos anteriores. Só para fixar em um, de âmbito estadual, o do tremsalão tucano, em São Paulo, é dezenas de vezes superior ao “escândalo do mensalão do PT”. E num julgamento midiático, muito questionado, posto que permitiu condenar até mesmo sem provas, com a “teoria do domínio do fato”, que possibilitou à ministra Rosa Weber, do STF, por exemplo, proferir uma sentença que entrou para a história: “Não tenho prova cabal contra (José) Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”. Imagine – faça um esforço! –, caro leitor, prezada leitora, tamanho rigor aplicado com a mesma justiça a tantos cidadãos e cidadãs, na vida pública e privada desse país! Quantos sobrariam?

    Não se trata aqui, obviamente, de uma contabilidade de crimes, menos ainda da tentativa de absolver culpados, mas de fazer a pergunta fundamental, que seria papel de todo jornalista: se apenas alguns são investigados e punidos, quais os interesses que estão por trás? Eu assinalaria a seguinte resposta: Um golpe de estado, jurídico-midiático-policial. Não é difícil demonstrá-lo, tamanhas são as evidências que já ganharam as ruas, as praças, mobilizaram juristas, intelectuais, artistas, as mais diversas entidades da sociedade civil que diariamente assinam manifestos e se posicionam na defesa da democracia e contra o golpe.

    Afinal, quem ganha com isso? Quem ganha com o impeachment de uma presidenta que não é acusada de nenhum crime e nenhum outro ato previsto na Constituição que poderia servir de motivo para destituí-la do cargo para o qual foi eleita? E que vai ser julgada por dezenas de parlamentares que respondem a processos de corrupção na justiça? Por que a mídia aceita, com dócil subserviência, essa imoralidade? Quem ainda não vê a total partidarização política e a seletiva investigação de uma Operação Lava-Jato que, pensava-se no início, tinha foco exclusivo no combate à corrupção, mas que hoje permite que os maiores corruptos do país dela mantenham confortável distância? Como é possível aceitar que um parlamentar dono de uma folha corrida de crimes que se estende do Brasil à Suíça, já provado e documentado, ocupe impunemente a cadeira de presidente da Câmara e seja o comandante do impeachment? Por que a imprensa foge dessas perguntas como o diabo da cruz, enquanto sofisma e produz tergiversações eloquentes com o intuito de justamente distrair leitores, telespectadores, radiouvintes e internautas sobre o que de fato tem importância, para muito além de sítios e pedalinhos, visto que é o futuro do país que está em disputa?

    Repito: Quem ganha com um golpe travestido de impeachment? Não o povo, os trabalhadores e todos aqueles que viram florescer, timidamente, uma democracia mais inclusiva no país, permitindo que milhões de brasileiros tivessem mais acesso a direitos que sempre foram negados à parcela mais pobre da população.

    A mídia, a quem caberia fazer sínteses, comparações, análises e conclusões fidedignas, desde o início tornou-se protagonista de um golpe contra a democracia e vem cumprindo a sua indigna missão de embaralhar os fatos, distorcer, descontextualizar, manipular e omitir informações, papel fundamental para que se produza desinformação e ódio, que toma conta de muitos setores da sociedade, sobretudo nas classes média e rica, entre os detentores das profissões mais bem remuneradas e entre os que ocupam cargos importantes nas engrenagens da sociedade.

    Em síntese, em boa parte daqueles que compõem o que se pode chamar de uma “elite brasileira”, em sua maioria branca, racista, preconceituosa, discriminatória, injusta, insensível, cruel e antinacionalista, porque se envergonha de seu país, como se não fosse a principal responsável pela nação tão desigual que se desenvolveu à beira do Atlântico e continente adentro. Poderia acrescentar, uma elite escravocrata, posto que ainda vê com naturalidade a enorme desigualdade social, o abandono e a miséria, e crê, firmemente, que a distância que a separa do resto da população é resultado de meritocracia e não de privilégios que sempre foram defendidos, a ferro e fogo, ao longo de séculos.

    O povo, que se informa basicamente por TV e rádio, mesmo desinformado, desconfia e reluta em aderir ao golpe. Os mais conscientes, que geralmente participam de movimentos sociais, já estão nas ruas para defender a democracia.

    O que a atual crise política demonstra claramente é que a frágil democracia brasileira não pode mais continuar a conviver com um sistema de mídia oligopolizado, que ameaça e chantageia os Três Poderes, ao mesmo tempo em que mantém na ignorância – ora anestesiando, ora insuflando – milhões de brasileiros, para que se perpetuem interesses particulares e de grupos a quem presta serviços – alguns deles, donos de imenso capital internacional.

    O líder negro norte-americano Malcolm X (1925-1965), que viveu numa época em que a revolução midiática ainda não alcançara a força que hoje tem, já alertara: “Se você não for cuidadoso, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão oprimindo”.

    Imagine se ele tivesse conhecido a Globo!


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