Pão de queijo e chimarrão

13/04/2016 às 3:15 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Esse vem de um grande amigo mineiro que adotou terras gaúchas para viver, Luiz Henrique Pantaleão: pão de queijo e chimarrão. Das centenas de amigos que compartilhei banco de Escola e Universidade nessa vida, com certeza ele foi e é um dos mais brilhantes.               Salve Panta !


 

Pão de queijo e chimarrão

Fazia o café da manhã e era o último pó no fundo da lata. Suficiente para um café e também suficiente para lembrar das palavras iniciais do romance “Ninguém escreve ao coronel” de Gabriel García Márquez. Estranhos esses labirintos da mente que levam a manhã a iniciar-se com recordações de prazeres literários e preferências desenvolvidas ao longo da vida. Envolvido em recordações e reflexões, viajando com Cecília Meireles e Paul Auster, Saramago e Dalton Trevisan, José Condé e Italo Calvino, Guimarães Rosa e Érico Veríssimo, chego à rua da praia e vou mesclando os personagens reais e fictícios de minha memória com os personagens (reais?) das calçadas: a estátua do laçador, o Zé da folha, o tenor falcatrua, os índios que dublam música andina fantasiados de comanches ou, talvez, apaches.

Então, súbito, na praça da alfândega, vejo uma dupla de velhos conhecidos. Entretanto, mal percebem a minha aproximação, disfarçam e dissimulam. Mas eu noto que, entre Carlos e Mário, o assunto rolava solto antes. Agora eles estão como quem não quer nada, como se tivessem todo o tempo do mundo. E têm mesmo.

Mas eu os entendo, não querem papo com fãs chatos que vêm pedir opinião sobre suas pretensas carreiras literárias.

Carlos eu conheci naquela época em que minha professora deu-me aqueles sábios conselhos a respeito de minha precoce pretensão de ser escritor. Naqueles tempos, de milagres e marechais, em que fãs do clube da esquina pichavam os muros de Uberaba com a frase “Sou o mundo, sou Minas Gerais”, Carlos confidenciava-me, por antecipação, que

“Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!”

Uns anos mais tarde, quando já experimentava na prática a lição poética de Carlos, conheci o Mário. Não, não é o Mário que pensam. Esse Mário, que mineiramente partiu enquanto o país se comovia com a perda do grande heroi, falava coisas do contra como

“Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!”

Entre os tempos em que conheci o Carlos, os tempos em que conheci o Mário, saí de Minas Gerais e acabei no Rio Grande do Sul. Duas terras de gente malunga, com muitas similaridades e outras tantas dessemelhanças. É claro que nunca a rivalidade entre Galo e Cruzeiro chegará aos pés da que existe no GreNal, coisa que demorei para entender, de modo que me mantenho até hoje à margem dela.

Imagino que a longa conversa de Carlos com Mário atravessa dias e noites e madrugadas, verões e invernos. Então, na provável solidão da praça da alfândega, depois que roubaram das mãos de Carlos seu valioso livro, Mário pegunta:

– E agora, José?

– Não dorme com a cuia na mão, Mário. Passe-me esse mate que, mais amargas que ele, são as desilusões crônicas que se acumulam a cada livrinho que nos roubam ao longo da vida.

Olho para aquele diálogo de anjos na praça e reflito: há muitas mistura gaúchas e mineiras de que gosto muito. Elis Regina cantando Milton Nascimento, João Saldanha (de Alegrete, como o Mário) treinando o mineiro Tostão. Mas há duas coisas das quais gosto demais da conta. Uma aprendi a gostar com o tempo, outra, com o tempo não esqueci de gostar: chimarrão e pão de queijo. Não necessariamente nesta ordem e, certamente, não ao mesmo tempo.

(Luiz Henrique Pantaleão)

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3 Comentários »

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  1. Excelente! Parabéns ao Panta.

  2. Salve Rosa! Obrigado pela honra de publicar meu texto no Zeducando.
    Grande abraço.

  3. Amigo Panta, a honra é minha ! Abs, José Rosa.


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