O Galanteador de Olhos

15/04/2016 às 3:51 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Mais um conto do jovem escritor Davi Romboli. Um dos mais fortes dos que aqui já publiquei.

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O Galanteador de Olhos

Ele adentrou no recinto usando um chapéu daqueles que seu bisavô usava quando visitava o mesmo lugar, muitos e muitos anos atrás. Antes um cabaré, agora uma casa noturna – mudam-se os rótulos, mas nunca os adjetivos. Poderia dizer que a entrada de uma figura tão antiquada, entretanto misteriosamente charmosa, chamaria a atenção de todos, porém não estaria em paz com a realidade. Ninguém o notou, não poderiam, a escuridão das luzes piscava freneticamente, a bebida entorpecia o ar, e um ruído constante de falas se misturava com outro que alguns chamavam por música e se punham a dançar. Ele seguiu desviando-se de jovens em direção ao bar, sentou-se e se pôs a olhar incessantemente ao redor, como se procurasse por algo. Logo fixou o olhar em um objeto a seu lado, distante poucos metros duas jovens senhoritas conversavam enquanto bebiam qualquer coisa, vodka, talvez gim. Levantou-se, ajeitou o sobretudo e caminhou em direção a elas, por fim parou em frente a uma e olhou avidamente em seus olhos.
“Perdão, mas a senhorita permite-me fazer um elogio?”
Ela estranhou a pergunta, estranhou as palavras, estranhou o homem, e sorriu satisfeita pela atenção dada.
“Seus olhos são os mais belos que vi em toda a vida.”
Era a pura verdade, olhos únicos, verdes-azuis profundos, arrebatadores, imensidão oceânica. Quanto a ela, não era feia, estava só com a amiga que logo arrumou como esvair-se deixando-os a sós, era bonita até, compensava os quilos a mais usando roupas a menos, mas levando-se em conta o ambiente ébrio, era bem bonita.
Não demorou muito para que o senhor se levantasse e anunciasse uma despedida.
“Espere! Não vai querer meu telefone?”
Ele hesitou, olhou-a profundamente nos olhos.
“A senhorita concederia-me a honra de ter seus olhos em minha casa, na minha coleção particular?”
Ela sorriu, levantou-se e saiu com ele em um táxi. Então ele tinha um fetiche por olhos? No fundo ela sempre soube que eles a fariam, em certa ocasião, se dar bem.
O táxi parou não muito longe, não muito perto dali, ele morava na mesma casa em que o bisavô havia morado, usava o mesmo quarto, e aprendera a ter os mesmo hobbies e a passar a maior parte de seu tempo na biblioteca – particularmente com livros sobre arte e fotografia.
Ele a levou a sala, mostrou partes da casa e por fim o quarto.
“Fique à vontade. Vou preparar os instrumentos e já retorno.”
Instrumentos? Então ele gostava de apimentar as coisas. Afinal não era tão certinho como aparentava.
Ele adentrou por uma porta em uma espécie de escritório com gavetas de ferro e estantes, pegou um pote em uma destas e escreveu alguma coisa em sua base e o pôs em uma bandeja que retirou de umas das gavetas, nela colocou também alguns objetos metálicos e um copo de água. De um jaleco pendurado num cabideiro retirou um tubo de vidro preto e neste pegou um comprimido, guardou o tubo novamente na gaveta, e vestindo o jaleco voltou ao quarto com a bandeja nas mãos.
Ao entrar, ela estava à vontade, toda nua apenas com os braços cobrindo os seios e sorrindo a sua espera. Ele deu o comprimido com o copo de água para ela que tomou com entusiasmo pelo rumo que tudo seguia. Começou, então, a sentir-se fraca. Rapidamente ele levou a bandeja para a cama e pulou em cima dela. Pegou da bandeja alguns instrumentos – dentre eles um bisturi – e uma seringa. Ela tentou resistir, mas a cada instante estava mais abatida, e após a injeção perdeu qualquer resistência. Gemidos, suspiros, movimentos brandos, ela assistia desesperada e ebriamente a uma cirurgia em sua própria face. De repente tudo se fez trevas e só ouvia distantes barulhos metálicos.
Ele deixou-a na cama recuperando a consciência e forças, e levou a bandeja de volta ao escritório. De um recipiente jogou algo no pote que antes mexera. Esterilizou alguns objetos, descartou outros. Voltou ao quarto e a carregou até o mesmo táxi que se encontrava parado a poucos metros da casa.
“Antônio, leve-a de volta e chame por uma senhorita loira de verde, bem magra que a acompanhava.”
Sentado em uma poltrona no escritório passou a contemplar potes como aquele, neles estavam escritos: “14 Abril 1922”; “15 Novembro 1924”; “30 Outubro 1930”. Segurou o pote novo, “04 Março 2010”, e nele em um líquido imersos estavam os únicos, verdes-azuis profundos, arrebatadores, olhos oceânicos.

(Davi Romboli)

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