Questão de semântica

17/04/2016 às 17:31 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: ,

Num dia crucial como hoje, é bom ler os “clássicos”. Veríssimo nos brinda com a última crônica antes da decisão que vai determinar os destinos do nosso país. Questão de semântica ? Pode até ser. Mas se fosse questão de justiça, pelo “motivo” do alegado impeachment teriam que ser defenestrados da cena política brasileira e da História todos os ex-mandatários, a maioria póstumos, a começar por Pedro Álvares Cabral. Ah, e não nos esqueçamos do vice e de mais dez governadores de Estado que também estão atualmente inseridos no mesmo “crime”. Teríamos assim finalmente alguém probo no comando do país, a ratazana da figura abaixo.

CunhaRato


Questão de semântica verissimo

Quando o Eduardo Cunha alegou que não tinha mentido sobre suas contas na Suíça porque o que tem na Suíça não são contas, mas trustes que pode acessar como se fossem contas, e ninguém riu, ou perguntou se era certo um cínico declarado presidir a Câmara nacional ou comandar um movimento pelo impeachment da presidente da República, estava, sem querer, dando o mote destes dias. Tudo se resume numa questão de semântica.

Dinheiro em trustes é a mesma coisa que dinheiro em contas? Questão de semântica. O pretexto “oficial” para derrubar a Dilma é o uso das tais pedaladas fiscais.

Além da controvérsia sobre a legitimidade de governos recorrerem ao recurso emergencial, tivemos o estranho caso do Tribunal de Contas da União, que depois de um longo e profundo sono, do governo Getúlio Vargas ao governo atual, durante o qual não julgou ou sequer examinou as contas de nenhuma — nenhuma — administração, acordou justamente para julgar as contas da Dilma, por coincidência. E desaprová-las, por nenhuma coincidência.

É na discussão das pedaladas que a semântica entra com mais força, embora, a esta altura, não decida mais nada. O “crime” do qual a Dilma está sendo acusada é crime ou não é crime, eis a questão.

Se é crime, já é um crime tradicional, no Brasil, onde vem sendo cometido através dos anos. Pena que o TCU estivesse dormindo em vez de examinando as contas do governo Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, quando o recurso foi usado com abandono, apenas com outro nome.

Se pedalada não é crime, a Dilma é inocente como um, sei lá. Como um Fernando Henrique. Mas é claro que as supostas manobras fiscais são pretextos para um final que vem sendo urdido desde que o povo brasileiro teve a audácia de dar mais votos para a Dilma do que para o Aécio. No dia seguinte às eleições começava o movimento do impeachment. Ou o golpe. Questão, de novo, de semântica.

Seria bom se as pessoas pudessem se encontrar, de vez em quando, com sua própria posteridade. Olhar um espelho mágico e ver como ficou sua imagem na História.

Não tenho dúvidas de que muitos votarão pelo impeachment com convicção e não se envergonharão do que fizeram. Mas muitos não escaparão de ver ao seu lado, no espelho, a figura sorridente do Eduardo Cunha. Para sempre.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: principais jornais do país, hoje.

Anúncios

2 Comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Obrigado por compartilhar esse texto brilhante Zé Rosa!

  2. Muito bom o texto. Veríssimo é muito bom.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: