O Complexo de Medeia às avessas na República (a gota d’água)

30/04/2016 às 3:07 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Excelente artigo de Daniel Fernandes, jovem talento, filho de uma grande amiga minha do trabalho, Nira Motta. Quando leio coisas assim, fico com mais esperança no futuro do nosso país, porque esperança tem nome e teu nome é juventude !


O Complexo de Medeia às avessas na República (a gota d’água)

Em uma conversa de boteco, criei (pelo menos achei que tivesse criado) uma teoria, à moda freudiana, baseada na tragédia Medeia de Eurípedes: o Complexo de Medeia. Depois, em estado de sobriedade etílica, vi que não tinha criado nada, há psicanalistas que já tinham se apropriado desse mito para explicar fenômenos similares das relações humanas. Pois bem!

Medeia foi heroína, feiticeira, estrangeira e esposa repudiada pelo marido, o herói argonauta Jasão, que a traiu com a filha do rei Creonte. Para resumir, e aqui vai o que se costuma chamar hoje despoilers, Medeia matou os filhos com o fim de vingar-se do cônjuge desleal. Esse filicídio é o auge da trama grega e revela o desejo de uma mulher ferida por vingança.

Voltando àquela mesa de bar, falava aos meus interlocutores ébrios, tomando como régua experiências pessoais e vivências de outros conhecidos, que há uma espécie de configuração psíquica pós-rompimento marital que chamo de Complexo de Medeia. Em outros termos, algumas mulheres (alguns homens também, obviamente) lançam mão do poder sobre os filhos para atingir o ex-cônjuge. Não chegam necessariamente a matá-los (pelo menos, ainda não vi um caso assim no mundo real!). Enfim, no campo de estudos jurídico e psicológico contemporâneos, chamam isso de “alienação parental”.

Com o perdão da Poética aristotélica e com a devida licença à análise freudolacaniana, deixo essas preliminares para os mais experimentados nas respectivas áreas, tanto da literatura quanto da psicanálise. Na verdade, o que interessa aqui é o cenário tragicômico e perverso (beirando a psicose) da política nacional: a disputa pelo poder, a tergiversação traiçoeira do vice-presidente da República. Em uma palavra: o golpe!

Michel Temer traiu Dilma Roussef como Jasão fora infiel à Medeia. Mas quem é atento à origem dos deuses e heróis gregos, faz aqui uma ressalva fundamental: o anti-herói Temer não é herdeiro de um passado glorioso como Jasão. Vá lá que Michel tem um histórico constitucionalista que, pelo que se notou pelos últimos episódios, foi rasgado e jogado na lata do lixo, aliás, como muitos estudantes fizeram com o seu livro da lavra jurídica.

Em que pese esse inventivo e inventado Complexo de Medeia, saliente-se que a presidente Dilma nem de longe assume a postura dramática da personagem euripidiana. Dilma não assassina seus filhos, não mata a democracia nem aniquila o povo e as conquistas sociais.

Dito de outro modo, há aqui um Complexo de Medeia às avessas, pois o famigerado assaltante e anti-herói amesquinhado, Michel Temer, estraçalha de morte os descendentes do Estado Democrático de Direito. É só ler o programa destrutivo do PMDB, “Ponte para o Futuro” (falam nos corredores da Esplanada que é “ponte para o inferno”), para saber que o plano desses argonautas chefiados por Temer é claramente golpista. Eles querem subir à nau da máquina pública para entregar o novelo de ouro das riquezas nacionais aos estrangeiros e almejam entoar o canto dissonante da redução dos direitos sociais e trabalhistas.

Nesse diapasão, é forçoso relembrar a peça brasileira “Gota D’água”, inspirada também na obra de Eurípedes, de autoria dos escritores Chico Buarque e Paulo Pontes. Registro, nesse ensejo, uma transcrição do prefácio desse livro, que faz referência ao tempo de redução democrática:

O fundamental é que a vida brasileira possa, novamente, ser devolvida, nos palcos, ao público brasileiro. Esta é a segunda preocupação de Gota d’Água. Nossa tragédia é uma tragédia da vida brasileira.

Essa tragédia atual política (ou da política), que sobressai no processo de impeachment da presidente, vai ser a tragédia da vida brasileira, do povo brasileiro, em que se ouvirá, certamente, o grito dos vilipendiados:

“Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a gota d’água”.

(Daniel Fernandes)

FONTE: http://jornalggn.com.br/fora-pauta/o-complexo-de-medeia-as-avessas-na-republica-a-gota-dagua

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  1. Temer, o retrocesso e sua inviabilidade
    Por Fernando Brito · 28/04/2016

    Não é preciso coisa alguma, exceto não estar obturado pelo fanatismo – e como há gente assim, hoje – para perceber que o Brasil está na iminência de uma caminhada para o passado que não tem como ser bem-sucedida.
    Mais cedo, escrevi sobre a imoral intenção de tirar de 40 milhões de pessoas o miserável auxílio que lhes representa o Bolsa Família.
    É algo que só um cidadão imbecilizado pela vida de classe média pode deixar de compreender o que representa nos miseráveis grotões e periferias deste país.
    Áreas que, nestas cabeças, devem ser esquecidas, as primeiras, e tratadas a pau e polícia as segundas.
    Mas a barbárie não vai ficar só lá, naqueles que nunca “vieram ao caso” neste país.
    Vai chegar a eles, também, pela aposentadoria.
    Pela violência, que responde imediatamente ao abandono (Temer, neste campo, tem um especialista a seu lado, Moreira Franco, o que havia prometido acabar com a violência no Rio em seis meses).
    Vai chegar pelo salário e pela legislação trabalhista, pelo arrocho ao funcionalismo, por tudo o que se acabou por ver depois que acabou a farsa do real igual ao dólar de FHC.
    Vai olhar feio para eles, pelos porteiros e domésticas, que vão começar a sentir na pele que as histórias que ouviam na TV e no rádio não eram bem como lhes contavam.
    Vai chegar pelo mundo, que nos olha com espanto, querendo saber como é que um ladrão público comanda um golpe de Estado.
    Vai escandaliza-los com a nudez de sua mediocridade, como fez no dia da votação na Câmara.
    Vai surpreendê-los com sua voracidade, quando entregarem o pré-sal e abolirem – já deram ontem o primeiro passo, viu D. Marina? – os já miúdos cuidados com o meio-ambiente.
    E vai, sobretudo, atazaná-los com o clima de guerra e radicalização que já tomou e ainda vai se ampliar neste país, porque estes retrocessos não se farão sem conflitos.
    1964, mesmo no mundo da Guerra Fria, onde golpes eram internacionalmente aceitos desde que fossem “contra a ameaça soviética” só foi possível com força militar repressiva.
    Hoje, esta força não pode existir, não num país desta envergadura, que não é um Sudão ou uma Somália.
    Esta caminhada para o passado é, portanto, impossível e vai esmagar quem a tentar, ainda que com o apoio ostensivo da mídia e o previsível avanço policial sobre Lula, caminho fácil para um judiciário covarde, que terá de poupar Cunha et caterva…
    Mas eles têm de fazê-la, porque é da sua natureza e a matilha da extrema direita o exige. Seria bom, como a Cunha, descartá-la, mas é impossível.
    Em nada, já se viu, guardam a prudência de um governo que assumiria em condições precárias, sem voto.
    Não, cuidam de tudo como um assalto ao poder, uma reversão completa dos rumos escolhidos eleitoralmente – como, em parte, fez Dilma, com os resultados que se viu – e anunciam pouco menos que uma “revolução” de direita, com a hegemonia que nem mesmo se tivessem vencido uma eleição teriam.
    O Brasil, que nunca foi o céu, vai virar um inferno. As instituições preferiram o caminho da autodestruição, da perda do avanço civilizatório.
    Entregaram o nosso país a uma aventura.
    E a uma desventura, que a todos nós custará caríssimo.

  2. João Sicsú: Salário mínimo é um dos alvos do golpe
    Frei Betto tem razão quando diz que faltariam ruas para protestos se os pobres soubessem quais são os planos da coligação que tenta tomar o governo pela via do golpe. Um dos alvos principais é o salário mínimo. As razões são variadas. Mas todas convergem: o mais importante será a redução do valor real do salário mínimo.

    Por João Sicsú*

    O salário mínimo foi criado no dia 1º de maio de 1940 por Getúlio Vargas. Desde a sua criação, o salário mínimo sofreu muitos ataques. São ataques contra o seu valor e ataques à sua existência.

    Sempre foi mais difícil atacar a sua existência já que o principal argumento contrário é que salários deveriam ser negociados livremente entre patrões e empregados. Mas todos sabem que trabalhadores negociariam quase sempre com muita desvantagem.

    Não será surpresa, contudo, que comecem a surgir propostas no sentido da eliminação da obrigatoriedade do pagamento de um valor mínimo para o salário no mercado de trabalho.

    Eles irão propor que o salário mínimo seja um valor de referência para a negociação, mas não uma obrigatoriedade. Não é um absurdo pensar nessa possibilidade.

    Afinal, o que é a proposta patrocinada por instituições envolvidas no golpe referente à área trabalhista que propõe que o “negociado deve prevalecer sobre o legislado”? Representa a base do fim dos direitos trabalhistas estabelecidos e seguros.

    O golpe de 1964 também atacou e depreciou o valor do salário mínimo. João Goulart, o presidente que foi afastado, defendeu o salário mínimo concedendo aumentos necessários. Em março de 1964, o salário mínimo valia mais que 1,2 mil reais a preços de hoje. Ao final do regime ditatorial empresarial, em 1985, o salário valia menos da metade do que valia no governo de Goulart.

    Com o golpe de 1964, um novo modelo econômico foi imposto. O pacto empresarial era pela promoção do crescimento econômico e a realização de investimentos públicos e privados. E assim foi feito. Mas foi um modelo concentrador de renda e de riqueza. A ideia que justificava esse modelo foi expressa pelo então ministro Delfim Netto, que dizia que era necessário, primeiro, fazer o bolo crescer para, depois, distribuí-lo. Cresceu, mas não foi distribuído.

    Durante a ditadura, o setor privado fez grandes investimentos financiados pela folga financeira devido à redução de custos que representava a folha de pagamentos (arrocho salarial) – além de favores concedidos pelos militares a determinados setores empresariais.

    O arrocho salarial não foi uma mera maldade de um governo que eliminou a democracia, extinguiu a liberdade, torturou e assassinou; a compressão salarial era parte importante do modelo de financiamento do crescimento econômico com concentração de renda e riqueza.

    No golpe que está em curso há também argumentos para justificar a compressão do valor real do salário mínimo. Alguns argumentos são similares. O modelo econômico de Michel Temer guarda semelhanças com o modelo econômico da ditadura: crescer com concentração de renda ou fazer o bolo crescer e jamais distribuí-lo.

    O primeiro argumento dos defensores do golpe é que o salário mínimo é exclusivamente um custo e, portanto, deve ser reduzido para que haja aumento da competitividade da economia. Em outras palavras, o dinheiro que iria para os trabalhadores deve ir para as mãos dos empresários para que possam investir (ou aplicar no mercado financeiro).

    Para aumentar a poupança privada, defendem que será necessário tirar o dinheiro de quem gasta tudo o que recebe para colocar nas mãos de quem não transforma em consumo ganhos adicionais.

    Este primeiro argumento está absolutamente equivocado. Esquecem que salários baixos (tal como o mínimo) são, na verdade, gastos em sua totalidade pelos trabalhadores e suas famílias. O resultado é que a massa salarial de todos quem têm baixa renda (ou renda média) vai para o comércio de bens e mercadorias. Logo, o salário mínimo é muito mais um dinamizador da economia (ativando o comércio e a produção) do que uma trava na forma de custos.

    O segundo argumento dos golpistas: consideram que quanto maior o valor do salário mínimo maior é a informalidade no mercado de trabalho. Documento do Ministério da Fazenda (de 22 de dezembro de 2000, disponível do site no ministério), quando o ministro era Pedro Malan e o presidente era Fernando Henrique Cardoso, declarava que: “… o aumento no valor do salário mínimo pode vir acompanhado de um aumento da informalidade…”.

    O raciocínio tucano do período FHC, que está de volta, é básico: se, de um lado, houve aumento de custos empresarias via reajuste do salário mínimo, isso gerará informalidade (ou seja, carteira de trabalho não assinada) para que haja redução de custos, de outro lado. Então, a redução do valor do mínimo garantiria a carteira assinada e protegeria o trabalhador.

    Aqui há um segundo equívoco que foi provado pela experiência dos últimos anos, mas principalmente evidenciada durante os governos do ex-presidente Lula. Juntamente com as centrais sindicais o presidente formulou uma regra de reajuste do salário mínimo que é a seguinte: o salário mínimo é reajustado todos os anos de acordo com a inflação do ano anterior mais o crescimento econômico de dois atrás.

    A regra garante que o salário mínimo não perde valor real e se a economia crescer, ganha poder de compra. O resultado foi que houve uma extraordinária valorização do salário mínimo (mais que 70% em termos reais). E para causar pesadelo nos conservadores: a informalidade no mercado de trabalho caiu drasticamente durante os governos do PT e seus aliados.

    Por último, querem atacar os beneficiários da Previdência Social quebrando uma regra de ouro: nenhum benefício da Previdência Social pode ter valor inferior a um salário mínimo. A Previdência Social paga quase 30 milhões de benefícios por mês. Aproximadamente 70% dos beneficiários da Previdência Social receberiam menos que um salário mínimo se não fosse essa regra de ouro. Os golpistas não aceitam que o valor de piso de um benefício da Previdência seja de um salário mínimo.

    Se conseguirem quebrar essa regra de ouro, vão prejudicar 20 milhões de pessoas e suas famílias. Mas dizem que querem salvar a Previdência. Em verdade, querem reduzir gastos na Previdência para ter mais espaço orçamentário para transferir renda para grandes grupos empresariais (financeiros, inclusive).

    É muito importante destacar que os benefícios pagos pela Previdência juntamente com o salário mínimo pago no mercado de trabalho são os dois mais fortes instrumentos de distribuição de renda no Brasil. Portanto, ao mirar no valor do salário mínimo e nos benefícios da Previdência Social, o modelo econômico golpista revela a sua face concentradora de renda. E revela sua face ideológica: antipopular.

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