Hipocrisia

08/05/2016 às 18:24 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Esse não é o título original do artigo de Veríssimo, mas lendo me lembrei logo daquele “Pedaladas adúlteras“ que fiz há alguns dias.


DISTRAÇÃO  Verissimo_sax

O provável ministro de Ciência e Tecnologia no gabinete em formação do Temer é um bispo licenciado da Igreja Universal, indicado pela bancada evangélica. Deixa eu repetir porque ainda não acreditei no que li. O provável ministro da Ciência e Tecnologia do governo Temer é um bispo licenciado da Igreja Universal!

Supõe-se que o bispo seja um criacionista, que repele a teoria da evolução das espécies e prefira a tese de que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, além de inventar o homem e a mulher.

O bispo tem todo o direito às suas crenças — mas no Ministério da Ciência?!

Sua escolha é uma amostra do retrocesso que nos espera ou mais uma amostra da distração do Temer, que queria para o Ministério da Justiça um amigo seu, sem se dar conta de que ele assinara um manifesto de juristas comparando os métodos da Lava-Jato a métodos fascistas.

A Polícia Federal vetou o preferido do Temer, inaugurando, ao mesmo tempo, um quarto poder na República, o da PF com direito a dar palpites na formação de ministérios.

Talvez Temer já esteja cansado da dura tarefa de montar um governo sem votos, e daí sua distração. Ele merece descansar, como o Deus dos evangelhos.

Hipocrisia

Durante muito tempo cultivou-se o mito do Brasil como uma espécie de jardim de inocentes num mundo conspurcado. Até no nosso autodesprezo havia um certo tom triunfal de uma raça diferente esperando sua vez de entrar na História.

Éramos ineficientes mas simpáticos, atrasados mas cordatos, pobres mas engenhosos. Assim como a Amazônia era a reserva de oxigênio do planeta, o brasileiro era a sua reserva de candura.

Conseguiríamos o milagre de nos transformarmos em potência sem cometer nenhum pecado antibrasileiro, como o da violência ou da insolência imperial.

Nossos vilões nos roubaram este mito da amabilidade congênita. Certamente, nenhuma ilusão sobre a candura brasileira sobreviverá a estes últimos anos de ódio e intolerância.

Temos uma história cheia de canalhices esquecidas ou camufladas, mas está sendo demais para a nossa hipocrisia este período concentrado de violência entre brasileiros.

Os mesmos vilões nos arrancaram da confortável ficção de que poderíamos crescer sem deixar de ser inocentes, apenas como prêmio ao nosso tamanho e aos nossos bons sentimentos. Mas não parece haver dúvida de que será preciso pelo menos uma geração para deixarmos de nos enganar. E para voltar à hipocrisia.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: principais jornais do país, hoje.

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  1. Del Roio: Lava Jato quer apenas destruir a esquerda
    07 de maio de 2016 Leonardo Miazzo
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    Foto: Mídia NINJA

    Del Roio: luta anticorrupção na Itália atingiu todos os partidos, aqui é contra a esquerda

    Na Rede Brasil Atual

    A comparação entre as operações Mãos Limpas, na Itália, e a brasileira Lava Jato não é adequada, de acordo com a análise do ativista, historiador e ex-senador na Itália José Luiz Del Roio, 74 anos completados em março. “O grupo de juízes que lutou contra a corrupção na Itália foi contra todos os aspectos da corrupção, de todos os partidos. Logo, não existia essa coisa que era fixada em alguns aspectos, em alguns políticos. Lava Jato é para destruir a esquerda, nasceu com isso”, afirmou Del Roio, em entrevista ontem (6) ao Programa da Sexta, da Agência Sindical, transmitido pela internet.

    Ainda assim, os juízes da operação italiana, que Del Roio conheceu, cometeram um erro, segundo ele. “Eles se deixaram levar por um grande acordo justicialista das massas”, observou, acrescentando que ultrapassaram limites por influência das ruas, ou da praça, como ele diz. “Não era bem a praça, eram os jornais.” “O combate à corrupção é uma coisa muito mais complexa, que só um certo tipo de política pode superar. O neoliberalismo traz facilidades maiores para a corrupção, é um sistema de corrupção.”

    Em entrevista ao portal Vermelho, em março, Del Roio já havia criticado a Lava Jato. “Lá (na Itália), os ritos foram cumpridos. Aqui, um juiz de primeira instância age e prende no país inteiro. Nunca vi isso!”

    Militante político desde o início dos anos 1960, na conversa com a Agência Sindical ele lembrou da mobilização para garantir a posse de João Goulart, em 1961, e as perspectivas do país naquele período, com as reformas de base. “O Brasil tinha tudo para virar um país desenvolvido e menos infeliz. A casa-grande, os malditos escravocratas, se uniram para impedir isso”, afirmou, acrescentando que por trás de “golpe” atual estão, provavelmente, “os mesmos de sempre”.

    “Todo governo que rasga à Constituição e é ilegítimo tende à violência, porque é o único jeito de se manter”, criticou Del Roio, mesmo assim dizendo-se “esperançoso” em relação à resistência. “Está (o golpe) isolado internacionalmente. E quando as forças operárias, os trabalhadores, perceberem que é contra eles, contra a CLT, os salários, contra a nação, a reação será muito forte.”

    Para ele, não só no Brasil se fala que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofre perseguição. “É uma opinião mundial. Até o sistema jurídico internacional, democrático, nunca vimos isso. Não existe país onde a ditadura da imprensa é tão feroz. Estamos combatendo numa trincheira…” O historiador diz não saber se Lula terá “força física” para voltar à Presidência da República, “mas é um homem que será absolutamente indispensável para a gente achar uma solução política para essa situação vexatória”.

    Del Roio espera que o movimento sindical consiga se rearticular em torno de propostas discutidas e aprovadas em 2010, durante conferência no estádio do Pacaembu, em São Paulo. E também pediu que as centrais resgatem o “verdadeiro sentido” do 1º de Maio. “Não se constrói nação, e classe operária não é classe em si se não constrói sua história, se não tem memória. Mas isso é um jogo muito hábil, martelante, feroz, da classe dominante brasileira. Nos fazem esquecer que 52% da população é negra e tivemos 350 anos de escravidão. A batalha pela memória é revolucionária.”


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