Réquiem para uma Democracia

12/05/2016 às 7:42 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos | 2 Comentários
Tags: ,

Constituição


Réquiem para uma Democracia

Estamos vivendo a concretização do golpe. O senado entrega a vítima à morte: “ecce homo”. Eis a democracia.

Em seguida, virão os 180 dias que abalarão o Brasil (veja aqui). Pelo visto, estamos a vislumbrar uma “pausa democrática”, a morte da soberania popular. Em verdade, espera-se que não se siga a um desastroso “repouso eterno” do Estado Democrático de Direito.

Na emblemática missa de Réquiem de Mozart, o Dies Irae surge na sequência inicial. Em outro artigo, “O trabalho e os dias de ira no golpe”, restou exequível que a ira popular deve ser o fiel da balança em momento posterior à morte e aos cerimoniais fúnebres da Democracia, não devendo haver uma capitulação definitiva.

Ademais, pelo que se mostra no patético programa “Ponte para o Futuro”, mais uma vez a cartilha de “responsabilidade” do FMI está se impondo diante do confrangimento das instituições democráticas. Recorde-se e se reviva. A recordação do período liberalizante será concretizada, infelizmente, na vivência traumática do povo trabalhador, por exemplo, ao se propor que “as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais”.

Seguindo a obra de Mozart, aqui, os condenados serão os desventurados trabalhadores, mais uma vez. Dias de lágrimas virão. Não para o mercado. Não para os bancos (como tem sido, aliás). Não para as bolsas de valores. Não para os maiores contribuintes da Receita Federal, por sinal, muitos deles, sonegadores. Não para a elite que vai voltar a viajar com o dólar a altura de sua fome de consumir produtos supérfluos. Os prantos não serão daqueles importadores de mercadorias estrangeiras que fomentarão a queda da inflação, mesmo que à custa do vilipêndio do potencial desenvolvimento da indústria nacional e da política de conteúdo nacional. Haverá sacrifícios sim! Mas para os trabalhadores brasileiros.

Em que pese as cerimônias funestas desses últimos tempos, soará a trombeta poderosa. E esse som será entoado nas urnas. Aqueles que têm a “marca de golpistas na testa” permanecerão inertes e inermes à direita (como sempre estiveram) do panteão soberano do poder popular. O signo do golpe estará estampado na fronte dos Aloysios, dos Serras, dos Aécios, dos Anastasias, dos Agripinos, dos Jereissatis, dos Jucás e dos Cunhas. E o capitão do rompimento institucional (eufemismo barato!), Michel Temer, terá o sinal reluzente.

Em suma, e em tom menor, a opção pelos mais pobres e a política de valorização do salário mínimo, além de outras políticas públicas com viés progressista, restam combalidos com os festejos fúnebres que selam o quadro democrático atual.

Que assim não seja! A ver!

(Daniel Fernandes)

FONTE: http://jornalggn.com.br/fora-pauta/requiem-para-uma-democracia


Tchau

Anúncios

2 Comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Sob o mando de um vilão, que ainda ficará muito menor do que já é
    Por Fernando Brito · 12/05/2016

    Quando Leonel Brizola perdeu, por uma manobra judicial tramada por Golbery do Couto e Silva, a sigla do PTB de Vargas, Carlos Drummond de Andrade escreveu, no velho JB de de 1980:
    Vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.
    A política, vi as impurezas da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário.. Se ela é jogo, como pode ser pura… Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes?
    A consumação do afastamento de Dilma Rousseff, às 6:34 de hoje, por truques jurídicos de um golpe parlamentar, virou história.
    Triste, mas história.
    Hoje não é dia de discutir como e porque chegamos a este desfecho, mas de abraçar a figura vencida e de abominar a do vencedor.
    Chegará, sim, a hora da reflexão – muito mais do que acusação – sobre os erros cometidos, mas certamente não é essa.
    Há algo mais grave, muito mais, do que qualquer erro que Dilma, ou Lula, ou o PT, ou mesmo toda a esquerda possam ter cometido.
    É que nosso país, de tantas vilanias e de tantos vilões, está sob o mando de um rematado vilão, porque só o vil assim hipertrofiado é que poderia urdir a degola daquela (e daquele, porque também a Lula) a quem deve o lugar de seu substituto.
    Não há, na história do país, exemplo igual de vilania. Nem Jango, nem Itamar Franco tramaram contra Jânio e contra Collor. E o que fez Café Filho com Vargas é asséptico perto da imundície de Michel Temer.
    Imundície que não se resume nele, mas em todas as instituições que assistiram e promoveram a consumação deste esbulho: um acanalhado sem vergonhas, o Legislativo, e o acanalhado pomposo, o Poder Judiciário.
    Bem se vê que ambos não coraram de se acumpliciar ao regicídio, mesmo a maioria deles tendo feito parte da Corte.
    Dilma não caiu por crimes, como os tantos da política, nem sequer os de responsabilidade. Basta um fato para demonstrá-lo: o sepulcral silêncio sobre o nome de Joaquim Levy, o ministro da Fazenda que planejou, redigiu e assinou os atos pelos quais Dilma é acusada.
    Pois se admitir-se que Dilma “pedalou”, Levy preparou a bicicleta “engatilhada”.
    A omissão do ex-ministro da Fazenda é, porém, uma nada perto do nanismo moral de Michel Temer.
    Nanismo, o que é pior, sem sequer um sistema de freios e contrapesos parlamentar ou judicial que o possam tracionar.
    O que vão faze-lo, por fraco, é comprimi-lo ainda mais ao rés do chão.
    E por pequeno, moral e politicamente, transferirá para o povo que ilegitimamente passa a governar, todas estas pressões e compressões.
    Passava pouco das seis e meia da manhã quando os últimos raios de luz despareceram do horizonte próximo.
    Vamos ter de caminhar muito, junto do povo do qual nunca podemos nos apartar com aventuras, até vermos de novo a luz.

  2. Mino sobre Temer: vai ser uma tragédia
    “Loteamento dos bens brasileiros, o distanciamento dos BRICS, Alca em lugar de Mercosul”
    jornalistas livres_phixr.jpg

    Brasil? Lilliput
    O afastamento de Eduardo Cunha já estava escrito no script do golpe, que não se esgota com o impeachment

    O afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara estava escrito no script da conspirata. Ele paga o pato (obviamente, não o da Fiesp) para que Michel Temer e outros não paguem por coisa alguma. Aos leitores de CartaCapital recomendo que não se regozijem, e não se iludam quanto às próximas etapas deste trágico enredo.

    Concluída a operação-impeachment com a decisão do Senado marcada para a próxima semana, caberia ainda recurso ao Supremo Tribunal Federal, o qual já deu demonstrações inequívocas de sua conivência com o andante geral da orquestração.

    De sorte que fica previsível imaginar o passo seguinte: a devolução das investigações a respeito de Luiz Inácio Lula da Silva à sanha de Sergio Moro. Ousada demais a previsão da condenação final do ex-presidente da República, último e principal objetivo de caudalosa manobra?

    Como disse Massimo D’Alema na entrevista publicada por CartaCapital na edição da semana passada, a prisão de Lula acentuaria o sabor do golpe e abriria a perspectiva de “um confronto lacerante”. Mas não seria a detenção de Lula a última passagem do script? O impeachment de Dilma Rousseff não passa de uma etapa do golpe, outras hão de vir.

    Há quem exclame, a começar pelo arguto professor Michel Temer: não é golpe. Como há de ser chamado então todo esse entrecho que agora sacramenta o impeachment tirado da cartola, ao longo de um complô, a unir juízes, promotores, polícia, empresariado e mídia para rasgar a Constituição ao derrubar a presidenta legitimamente eleita sem prova do crime de responsabilidade. Do alto da sua hipocrisia, a casa-grande recorre a tecnicalidades para justificar suas mentiras.

    Nunca aos meus olhos foi tão evidente a prepotência dos eternos donos do poder, prontos a aproveitar o momento de fragilidade de um país, por eles mesmos condenado a não passar de exportador de commodities, para desferir um golpe de feitio inédito.

    Os conspiradores vitoriosos não hesitam em se apresentar como patriotas quando nada fizeram por sua terra ao satisfazer apenas e tão somente a sua ganância.

    Elite da pior qualidade, incapaz até de entender as vantagens que o capitalismo tem condições de oferecer à nação em peso pelos caminhos que em outros tempos Antonio Gramsci definiu como fordismo.

    Referia-se a Henry Ford, promotor da revolução do Modelo T, o carro que os seus operários, dignamente pagos, poderiam comprar. À época, uma anedota contava da visita ao papa de emissários do magnata norte-americano, que pediam que, ao fim da missa, o oficiante, em vez de dizer fiat voluntas tuas, dissesse ford voluntas tua.

    Devemos à dita elite nativa a permanência da senzala, a educação precária do povo, a saúde mais ainda. Mas os próprios autores da desgraça não primam pela sabedoria, pela cultura, pela visão profunda das coisas da vida e do mundo. Em geral, toscos até a medula, embora arrogantes.

    De certa forma criaram o país que lhes convém, e tragaram na esteira dos seus comportamentos quem haveria de resistir e apontar a direção certa. Aludo inclusive ao PT. Imaginou ter atingido o estágio senhorial e se portou no poder como os demais pretensos partidos.

    Figura exemplar do entrecho nefasto, Henrique Meirelles. Dispenso outras, muito além de dúbias, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e companhia, heróis da reação. Fico com Meirelles. Trata-se do inesgotável avalista das intenções neoliberais, melhor, neoliberistas, das satisfações devidas ao maldito mercado, em qualquer governo. Figura para todas as estações, imprescindível.

    Na tentativa de imaginar o que virá, é fácil antever o futuro. O loteamento dos bens brasileiros, o distanciamento dos BRICS para a alegria de Tio Sam, Alca em lugar de Mercosul. Etc. etc. Antes ainda, a punição do trabalho, e aqui a alegria será da Fiesp e quejandos. Antes de tudo, a punição do Brasil e da maioria abandonada ao seu destino, em boa parte incapaz de perceber e avaliar a imponência da tragédia.

    O que espanta é a profusão de bandeiras desfraldadas, a enfeitarem fachadas e carros, ou envolverem cidadãos ignaros. Celebra-se, igual à conquista de uma Taça do Mundo, o enterro do Estado de Direito. O espetáculo é assustador sem deixar de ser patético, reação parva, para não dizer demente, à fatal prepotência cometida contra qualquer propósito democrático. Se quiserem, contra quem se embandeira.

    Suponho que, se Gulliver decidisse hoje partir na rota de Lilliput, não teria maiores dificuldades ao aportar no Brasil.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: