Dora Dora

05/06/2016 às 18:51 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Uma simples crônica ? Um conto curto ? Poesia certamente é. Basta ler até o final. Veríssimo, um dos nossos “últimos moicanos”. Caymmi é tão genial que peço licença para me manifestar: a minha frase musical preferida é a de João Valentão:

“e assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar”


Dora Dora   verissimo_sax_thumb1

Lembrança remotíssima: Dorival Caymmi na nossacasa. Naquela época, pré-televisão, pré-cadeias de rádio, os artistas viajavam e faziam programas nas rádios locais. O apresentador
do programa normalmente prefaciava cada música com um pequeno texto poético, insuportável depois de um desses programas numa rádio de Porto Alegre, Caymmi foi visitar meupai,que tinha reunido um grupo de amigos para recebê-lo. Caymmi levou o violão e cantou.

Lembro de alguém que o tinha ouvido no rádio comentar: ele tem a cara da voz. Aquela cara não podia ter outra voz, aquela voz não podia ter outra cara. Nunca ouvi voz parecida – até conhecer outro baiano, o João Ubaldo Ribeiro. Diziam que a voz do João Ubaldo era plágio da voz do Caymmi. E o João Ubaldo também cantava muito bem. Segundo ele, só não cantava profissionalmente para não humilhar o conterrâneo.

Lembrança não tão remota (só 52 anos): Lucia e eu num sítio em Araras, emprestado ao jovem casal para sua lua de mel pelo escritor Vianna Moog. Durante toda a nossa estada no sítio, a eletrola só tocou um long-play. do Caymmi. Faixa mais repetida: Dora a rainha do frevo e do maracatu.

Todos nós temos algumas frases musicais guardadas no peito. Um arquivo de frases musicais perfeitas, que se carrega até com um certo ciúmes de proprietários. Qual é a frase musical definitiva do Caymmi? Para muitos é o “ah insensato coração, por que me fizeste sofrer”, de “Só louco”. Para outros é o “e assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar”, de “João Valentão”. Eu escolho a frase musical declaratória sem igual do Caymmi: “os clarins da banda militar, tocam para anunciar, que a dona Dora agora vai passar…”

Cinquenta e dois anos. Além da eletrola e do long-play, aquele também era tempo de golpe (o militar, lembra?) iminente e de incertezas mudas. Mas nos nossos poucos dias no sítio
de Araras os clarins não pararam de tocar.

FONTE: principais jornais do país, hoje.

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