Triste, triste

30/06/2016 às 14:35 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , ,

Ele havia feito uma crônica, domingo, sem saber qual era o resultado do plebiscito (“A escolher”). Hoje retorna ao tema com essa, igualmente boa. Confiram!

brit


Triste, triste  Verissimo_sax

Racismo, xenofobia, intolerância, burrice — só tem nome feio na lista de razões dos ingleses para abandonarem a União Europeia. “Populismo” só não entra na lista de bobagens porque populismo é uma palavra danada. A definição mais aceita de “populista” é aquilo que é feito para ser popular, apesar de não ser certo. Outra versão, mais condenável, de populismo é demagogia, ou o populismo como ciência política. Mas o diabo é que populismo também é uma forma inocente, mas direta, de democracia — o poder do povo pelo povo para o povo mesmo que o povo não saiba o que está fazendo. Na Inglaterra pós-plebiscito estão pensando em como desfazer o malfeito pelo populismo irracional sem, ao mesmo tempo, desmoralizar a democracia. Como disse aquela personagem do Oscar Wilde, escandalizada com o que os nativos tinham feito com catequizadores ingleses na China, era no que dava levarem o cristianismo longe demais.

Se a União Europeia foi uma das melhores invenções da humanidade depois da escada rolante e do pudim de laranja, é triste ver a Inglaterra liderando o que pode muito bem ser o começo do fim da comunidade. A velha Inglaterra de Cromwell e os primeiros suspiros republicanos, do parlamentarismo espalhado pelo mundo junto com as canhoneiras, da Revolução Industrial e científica, dos poetas, de Shakespeare, dos Beatles, meu Deus, da Kate Winslet! — dando um passo atrás e recolhendo-se ao seu isolamento. E pior, pelo medo de estrangeiros, logo ela, que levou o terror do imperialismo branco a todos os cantos da Terra.

Foi a intensa cobrança feita no Parlamento inglês que, finalmente, levou à Abolição da Escravatura, não por qualquer questão econômica, mas por uma imposição moral. A resistência inglesa aos ataques da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial inspirou o mundo. Talvez tenha sido uma nostalgia atávica do sentimento que manteve a ilha sem ajuda mas unida durante os ataques que inspirou o voto populista, agora. Seria melhor se a inspiração viesse da luta pelo fim da escravatura.

Foi na sala de leitura do British Museum em Londres que Karl Marx escreveu boa parte do “Das Kapital” e desfiou suas ideias sobre uma comunidade humana unida pela solidariedade e pela justiça, sem fronteiras nacionais ou de classes. O sonho utópico de Marx era uma união pelo comunismo, mas só a parte sobre a solidariedade sem fronteiras já serviria, se o populismo não tivesse ido longe demais. Triste, triste.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: principais jornais do país, hoje.

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: