Maré reaça – o pensamento reacionário fora do armário

05/07/2016 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse bom artigo contém informações estarrecedoras. Percebemos nos útimos anos essa tendência mas não sabemos onde isso vai dar. Confiram !


MareReaça

Numa noite nublada de terça-feira, em junho, a movimentação num sobrado no bairro Jardim Baiano, no centro de Salvador, oscilava entre a algazarra e o murmúrio. A campainha incessante e o clap-clap do bater de palmas emolduravam uma reunião do Partido da Liberdade Nacional (PLN), que acabara de conseguir 101 assinaturas, em nove estados, pré-requisito para dar entrada no processo de registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“Não deve demorar para ganharmos as ruas”, disse João Faria, fundador do PLN. “O partido crescerá rápido. Tenho recebido muitas mensagens de apoio e carinho”.

Membro do Revoltados Online, grupo defensor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, Faria, 31, trabalha há dois anos na ideia de fundar um partido “que coloque um freio no equívoco que o Brasil se tornou na última década”. Que freio? “Corte nos gastos públicos e assistencialistas e ampliação da defesa da família tradicional”. Sem uma representação ainda efetiva nas urnas, Faria mira um apoio ao deputado ultraconservador Jair Bolsonaro (do Partido Social Cristão, do Rio de Janeiro) nas eleições presidenciais de 2018.

Se conseguir o aval do TSE, o PLN será o quinto partido situado à direita do campo
ideológico a surgir no Brasil nos últimos cinco anos. Uma guinada considerável para um país em que, até pouco tempo, escassos parlamentares se diziam abertamente conservadores, e ninguém no mainstream da política se arvorava a defender discursos que não envolvessem a
palavra desigualdade. Os capítulos recentes da história nacional parecem apontar para uma espécie de curto-circuito do acordo social que levou à Constituição de 1988, com o Estado e os direitos no centro do debate.

“A direita saiu do armário”, disse àMuitoa cientista social Flávia Babireski, que integra o Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira,da Universidade Federaldo Paraná (UFPR),enquanto passeava por umlevantamento de sua autoria – Pequenos partidos de direita no Brasil: uma análise dos seus posicionamentos políticos (2016). “Há muitas diferenças entre os partidos.Há aqueles de direita comviés mais econômicoe há aqueles com bandeiras de valores morais, como defesa da família tradicional, contra a descriminalização do aborto e a redução da maioridade penal.Mas,nos dois casos,a sustentação acontece por uma posição reacionária da sociedade”.

JOGO DE CARTAS

Se o conservadorismo,como corrente parlamentar,voltou a crescer no Brasil, revertendo uma tendência de mais de duas décadas, e a extrema direita, como corrente de opinião, começou a aparecer com uma veemência sem precedentes, o que hoje se coloca como desafio para o país é alcançar a razão e a dimensão de sua atual maré conservadora. Há quem veja no
fenômeno de saída do armário dos direitistas uma espécie de fim da ressaca do período da ditadura militar (1964-1985), associada a uma reação aos 13 anos de governo do Partido dos
Trabalhadores (uma sigla de centro-esquerda envolvida em grandes esquemas de corrupção) e à crise econômica.

Matinas Carvalho, um sujeito de cabeleira farta e grisalha, observa a articulação do pensamento reacionário brasileiro há uma década. Professor de ciência política na Universidade de Campinas, ele fala em “estrondo proporcionado pelas novas mídias” e uma “desconfortável aliança entre a direita clássica e setores ultraconservadores”.

“A direita parlamentar, hoje, se vê restaurada por uma nova legião de políticos dos partidos fisiológicos e pela figura emblemática do pastor-deputado”, disse, numa conversa que
transcorreu enquanto o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados aprovava o parecer que pedia a cassação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).“Temos,assim,umcenário emque
uma direita pretensamente moderna – menos estado – precisa se contentar em se ver representada politicamente pelo baixo clero e por tudo o que há de mais arcaico, reacionário e obscurantista em termos civilizacionais”.

Uma avaliação dos movimentos doCongresso Nacional mostra que ainda não há uma aliança clara e oficial entre os deputados antiestatistas (“menos estado”), antipetistas e antiminorias (representados, sobretudo, por deputados que encampam a bandeira dos evangélicos), mas oferece bons exemplos do vigor da articulação de forças partidárias conservadoras, que tem entregado à sociedade,desde 2014,quando o atual Congresso foi eleito, um espectro de projetos que passa pelo Estatuto da Família, definindo a entidade familiar como um “núcleo social formado a partir da uniãoentre umhomeme uma mulher”; redução da maioridade penal; alteração do Estatuto do Desarmamento, buscando estender odireitoaoportede armaadiversas categorias (incluindo parlamentares, fazendeiros, caminhoneiros e taxistas) e pela determinação de que as terras indígenas existentes não podem ser ampliadas.

“Algumas frentes do Congresso correm juntas. Se temos os mesmos valores, é natural que aconteça uma aproximação”,disse à Muitoo deputado Alceu Bezerra (PP-CE), vice-líder da Frente Parlamentar Evangélica, que reúne, oficialmente, 79 deputados, mas cujo raio de atuação é um dos maiores da Câmara, envolvendo em torno de 200 parlamentares. “Muitos não integram oficialmente nossa bancada, mas isso é uma formalidade. Quando precisamos, os deputados votam com a gente”. Sobre o conservadorismo das pautas defendidas pela Frente Parlamentar Evangélica, muitas delas em confronto comdireitos já estabelecidos, Bezerra, conhecido por extrair trechos da Bíblia para justificar a forma como vota, disse que não existe “pensamento reacionário quando o que se quer é defender a moral”. “Preservamos a questão da família, da ética, da integridade. Não temcomo ser relativo nesses valores – ou você possui ou não possui. Ou você é honesto, pessoa de bem, ou não”.

O atual Congresso possui a maior Frente Parlamentar Evangélica da história do país – há quatro anos, possuía a metade do tamanho. E, desde que teve início a crise política, que culminou no afastamento de Dilma Rousseff, a bancada começou a se posicionar como um bloco ainda mais coeso. Além de ter apoiado maciçamente o impeachment da presidente, votando “sim” (e emnome de Deus),temsido capaz de paralisar todos os projetos que não
tangenciam o espectro político que defendem, seja no campo dos costumes ou no de políticas sociais e econômicas.

A forma como o Congresso está, hoje, organizado (através de bancadas que se tornaram conhecidas por alcunhas como “bíblia”, “bala”, com parlamentares financiados por indústrias de armas e munições, “boi”, alinhada aos interesses agropecuários, “sindical”, “empresarial”, com parlamentares vinculados, sobretudo, ao setor imobiliário, e “direitos humanos”, que milita no combate à opressão às mulheres e à população LGBT), se aplicada às assembleias estaduais,exibe o semear do pensamento conservador. Um levantamento feito por Muito, nos cinco maiores estados do país (São Paulo, Minas, Rio, Bahia e Rio Grande do Sul), mostra que as agremiações formadas por deputados que se alinham à luta pelos direitos humanos não chegam a ocupar 25% das cadeiras.

A Assembleia Legislativa da Bahia, que, proporcionalmente, divide com a Assembleia Legislativa de São Paulo a posição de casa mais à direita entre os estados, tem, por exemplo, o pastor e sargento Isidório (PSC-BA) como o deputado mais votado (123 mil
votos). Autointitulado “ex-homossexual, ex-drogado e ex-bandido”, Isidório prega o discurso da recuperação por meio da moralidade e é popular, sobretudo, nos bairros periféricos de Salvador. Em uma de suas mais recentes participações na Assembleia, assinou uma emenda para retirar as palavras “gênero” e “diversidade sexual” do Plano Estadual da Educação, que institui metas para desenvolver a educação na Bahia desde o nível fundamental até o superior. O documento, com a emenda, foi aprovado em maio pelos demais deputados. “Deus é meu dono e o mais importante assistente social do mundo”, disse à reportagem, enquanto relembrava a votação e segurava um esboço de um novo projeto de lei de sua autoria, que estabelece a criação de novas escolas militares.

O HOMEM CORDIAL

A forma como a atual cena política brasileira se apresenta, em meio a propagação de discursos reacionários, parece colocar uma rasura nas ideias da gentileza e respeito às diferenças com as quais o brasileiro costuma ver o próprio país. Uma rasura que remete à
ideia de homem cordial, forjada no livro Raízes do Brasil(1936), onde o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) debruça-se sobre as origens da cordialidade nacional.

Teresa Santana, historiadora que assinou o artigoO nosso fundamentalismo(2013), confeccionado nas barbas das manifestações de junho de 2013, as maiores desde a redemocratização nacional, fala em “momento apropriado para repensar o caráter do
brasileiro”. “Afirmar que somos naturalmente tolerantes é desconhecer o machismo, a homofobia e o racismo que vigoram nos trens,ônibus e vagões lotados.No fundo,se não repensarmos nosso caráter, estaremos condenados a ser uma sociedade autista”.

O PESO DAS BANCADAS

A maioria dos parlamentares é guiada por interesses empresariais, conservadores
ou ambos. É comum deputados se revezarem em duas ou mais frentes.

DEP1

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Santana ilustra o autismo brasileiro com uma pesquisa,realizada há cinco anos pelo Grupo Brasileiro da Associação Internacional de Direito Penal, em que 96% da população nacional disse que não se considerava racista,mas 99%disseramque conhecia alguém preconceituoso. Os brasileiros, assim,se sentiriamnuma ilha de democracia racial cercada de racistas (homofóbicos, machistas) por todos os lados. “A sociedade brasileira não é simpática, é uma sociedade que se agride. Esse é o Brasil que vemos hoje, por exemplo, na internet”.

O surgimento e o crescimento de expressões políticas conservadoras, no entanto, não é um fenômeno apenas do Brasil. Manifestações xenófobas e homofóbicas têm aumentado em países com experiência democrática bem mais longa e estável, como Estados Unidos e França. Em março deste ano, a empresa de tecnologia Microsoft lançou o robô Tay, que interagia com usuários do Twitter para poder aprender com eles. Em menos de 24 horas,
aprendeu que a vida é feita de fúria,raiva e ironia. E, após frases como “o feminismo é
um câncer” e “o Holocausto realmente aconteceu?” serem proferidas por Tay, a Microsoft cancelou o projeto.

“Ao contrário de um robô,os racistas, xenófobos e machistas da vida real têm um defeito de fabricação: desconhecem o botão de desligar”,disse o sociólogo João Pereira, professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Há dois anos, quando o atual Congresso Nacional foi eleito e começaram a chegar as notícias de uma configuração tão conservadora quanto a de 1964, Pereira apressou-se em organizar um seminário para discutir o pensamento
reacionário.

“Quem nos disse que a intolerância, o dogmatismo, o ódio baseado em preconceitos ou até mesmo a maldade não fa zem parte daquilo que o ser humano significa? O pensamento
ultraconservador e suas respectivas expressões políticas existem em quase todos os países democráticos. A questão é que, na maioria,isso acontece através de umembate acirrado comlinhas mais progressistas. No Brasil, a novidade é que ainda não sabemos como drenar essa força reacionária que se organizou, ascendeu e tem colocado em xeque conquistas sociais das últimas três décadas”

DESCRENTES

fOTOS

A precariedade da educação e uma experiência democrática ainda imatura talvez ajudem a explicar a dificuldade em “drenar” o conservadorismo ascendente. Que alguns parlamentares tenham doutorado e outros sejam pregadores religiosos em pequenas igrejas, eles soam como a instrumentalização política de doses de ignorância e preconceito.

O analista político Carlos Barcelar,ex-professor da Fundação Getúlio Vargas que,nos anos 1990,prestou serviços para o Partido da Social Democracia Brasileira,o PSDB,“uma sigla que deixou o centro, abraçou a direita e hoje se vê acuada pelo ultraconservadorismo”, acredita que a face do Congresso brasileiro é “mais suja e feia do que a face dos brasileiros”. A diferença entre “eles” e “nós”, disse Barcelar àMuito, estaria no desprezo do eleitor pela política, no suposto protesto do “voto-Bolsonaro”.

“O voto nos ‘Bolsonaros’ é a expressão mais elevada do desprezo pela política. O eleitor manda suas mensagens de menosprezo. É como se dissessem: melhor um palhaço, melhor um rebelde imaturo do que os hipócritas bons-moços. A descrença na política, no entanto, tem nos conduzido a um cenário bestial”.

Na reunião em que celebrou a abertura do processo de registro do PLN,João Faria sacou o notebook para exibir uma carta de apresentação do seu partido. Ao acessar o computador, no entanto, encontrou sua página numa rede social ainda aberta. Pelos ditames de um algoritmo, pululou na tela uma charge compartilhada pelo ilustrador André Dahmer: ali, um personagem indagava sobre o destino de um Brasil tomado por lobos.

FONTE: Suplemento MUITO, jornal A TARDE, Salvador-BA, domingo 03.07.2016

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