Ecos do 2 de julho

07/07/2016 às 3:30 | Publicado em Artigos e textos | 3 Comentários
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O melhor da Bahia ainda são os baianos. Salve Jorge, salve Jorge Portugal !

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Dois de Julho e a Bahia profunda  jorge-portugal

Sou apaixonado por 2 de Julho. Não tem carnaval que se lhe compare. O “2” é a festa de nossa identidade profunda, com todos os ingredientes simbólicos que fazem o tempero de nossa alma. Alma barrocamacumbatupi. Cena de rua: um sujeito de meia-idade, todo talhado no branco, fervor cívico no olhar, canta emocionado o Hino do 2 de Julho ao lado da Banda da Polícia Militar, à saída do cortejo. Olho a cena tocado por tanta fé patriótica, e sigo o préstito. Mais adiante, uns vinte minutos depois, na descida da Soledade, vejo o mesmo sujeito no meio de uma batucada de sopros cantando a plenos pulmões refrões cabeludíssimos de marchinhas e sambas da Bahia. Letras de alto teor de lubricidade, que fariam de Chupa Toda um hino pentecostal. Perguntei-me: seriam, na verdade duas pessoas? O da Banda Militar e o da banda de sopros? Gêmeos univitelinos, indistinguíveis, tipo Cláudio e Carlos Melo? Não, leitor(a). Era a mesma pessoa, encarnando a Bahia em suas muitas faces. Não eram assim Gregório de Mattos, Gláuber Rocha e tantos que carregamos essa multiplicidade cultural dentro de nós? É isso que vira Poesia, Fantasia, Tropicália, Cinema Novo e Bossa Nova. É isso que permite um outro sujeito aparecer no Boqueirão segurando duas cartolinas. Em uma, “Rui, eu te amo”; na outra, “Neto, você é o cara”. Tudo isso deve dar um nó violento em cabeças cartesianas e desavisadas que teimam em fracionar nossa subjetividade.

Continuo minha marcha cantarolando um maravilhoso reggae de Jorge Alfredo e Chico Evangelista: “Menino, é Dois de Julho/ cadê a família do barulho pra festejar…?”. E vou pensando: será que esses historiadores bocós acreditaram e acreditam mesmo que a independência do Brasil se faria apenas com um gesto teatral à beira de um riacho, e não com o suor e sangue de negros, mestiços e caboclos no mesmíssimo lugar que inventou o samba, criou a capoeira e formatou nossa cultura? E ainda protagonizado por um elenco de mulheres!

(Jorge Portugal)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 05.07.2016

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  1. […] de Fortaleza-CE) onde se vivenciava Artes, Filosofia e Sociologia, como foi o caso do Professor Jorge Portugal. Muito oportuna essa sua crônica-depoimento em tempos de MP241, confiram […]

  2. […] primeiro artigo do ano do Professor Jorge Portugal, “com um gosto de manifesto na boca”. E a seguir minha homenagem ao movimento Tropicalista: […]

  3. […] esse posicionamento de Laurentino Gomes. Esse aspecto que envolve as datas 7 de setembro e 2 de julho poucos […]


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