Por baixo do camisolão

18/08/2016 às 21:25 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Veríssimo, impagável como sempre !


Por baixo do camisolão  verissimo

Santo Agostinho escreveu que, entre as tentações, uma das mais perigosas é a que ele chamou de “doença da curiosidade”.

A curiosidade leva o ser humano a tentar descobrir segredos que estão além da sua compreensão, e que em nada o beneficiarão.

Foi, com outras palavras, o conselho que Deus deu a Adão e Eva no Paraíso, advertindo-os a não comer o fruto da árvore do saber para não contrair a doença.

Mas Eva não se aguentou e comeu o fruto proibido.

Resultado: perdemos o paraíso da ignorância satisfeita e estamos, desde então, tentando descobrir que diabo de lugar é este em que nos meteram, esta bola girando entre outras bolas num espaço imensurável, sem manual de instruções.

Santo Agostinho e outros tentaram nos convencer a aceitar os limites da fé como os limites do conhecimento. Tentar compreender mais longe só nos traria perplexidade e angústia e nenhum benefício.

A doença da curiosidade levou os descendentes de Adão e Eva a tentar decifrar e recriar a origem de tudo.

É um processo em constante evolução — acabam de descobrir, por exemplo, que os buracos negros, que já ultrapassavam a nossa compreensão, não são exatamente como diziam.

A física quântica está constantemente driblando a especulação científica e abalando certezas, o que não diminui a curiosidade.

A rebeldia vai mais longe: agora pretendem espiar por baixo do camisolão de Deus.

Um rabino (um rabino!) chamado Mark Sameth escreveu um artigo para o “New York Times” com o instigante titulo “Deus é transgênico?”. Estudioso da Bíblia hebraica, Sameth escreve que o tetragrama YHWH, o nome secreto de Deus, se lido da direita para a esquerda, como provavelmente faziam os sacerdotes judaicos, seria HU-HI, ou ELE/ELA.

Se Sameth tem razão, as quatro religiões monoteístas do mundo, com origem na tradição judaica, adoram uma deidade bigenérica.

Santo Agostinho pregava uma interpretação rígida das escrituras, mas deixava uma porta aberta para fugir das suas incongruências.

O que fosse provável era a verdade de Deus, o que não fosse era alegoria. Talvez um Deus de dois gêneros da tese do rabino Sameth seja uma alegoria, significando um deus para todos.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: principais jornais do país, hoje !

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