Rio de janeiro e de Francisco

20/08/2016 às 16:23 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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E as Olimíadas chegam ao fim… Jânio Ferrreira, em sua crônica de hoje, mais poesia que prosa, nos faz lembrar outro Rio: Chico, velho e sábio como o papa homônimo. Morto um rio como o São Francisco, morre boa parte de uma grande nação. E não há ouro olímpico que limpe as caudalosas lágrimas do seu povo ribeirinho.

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Rio de janeiro e de Francisco

Estava pensando em escrever algo sobre as Olimpíadas do Rio, mas o rio que me interessa agora é esse margeando mansamente meu condado, que vai muito além de janeiro, de fevereiro, de março e do “olha o biscoito Globo e o mate gelado!” gritado por bocas cheias de ginga em praias lotadas de bundinhas e de caos.

O rio que me interessa agora não é o de Michael Phelps e suas orelhas de Dumbo voando nas águas da Guanabara, tampouco é o da judoca Rafaela e seu admirável cabelo de fuá, antítese perfeita do narcisismo dos nossos jogadores de futebol, especialmente Gabigol, cuja barba parece ter sido projetada com o firme objetivo de ele vir a ser o noivo de um casamento matuto numa festa de São João.

O rio que me interessa agora não é esse cheio de cores filtradas que passa na novela, nem é o das empulhações marqueteiras que desembocam em revitalizações de araque, que só servem para irrigar lavouras de euros em terras onde Cunha é rei.

O rio que me interessa agora não é o de Eike Batista e seus dólares furados, nem o do paparazzi combinando flagrante de alguma mulher fruta pagando peitinho nas esquinas do Leblon.

O rio que me interessa agora não é o do funk glorificando favelas e querendo me convencer de que morros e comunidades dominados por tráfico, porrada e bomba são lugares maneiros para se viver.

O rio que me interessa agora não é o de um prefeito boquirroto com sotaque de malandro da Cinelândia, que a qualquer momento parece que vai aplicar um wazari ou um ippon no coitado do desavisado eleitor que dá pipocas aos macacos.

O rio que me interessa agora não é esse que forasteiros insistem em chamar de Chico, como se fossem íntimos de suas barrancas, negos d’água e redemoinhos.

O rio que me interessa agora, meu caro Galvão e minha cara Glenda Buena, é este enclausurado por barragens de concreto que ora brilha em minha frente e que há anos e anos pena à espera de um milagre dos céus – ou dos homens – que o faça voltar a lamber as veredas desse velho e extraordinário sertão.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje


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