Marcelino Freire

21/09/2016 às 3:15 | Publicado em Canto da poesia, Midiateca | 1 Comentário
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Uma grande amiga me indicou, nesses poemas e no vídeo, esse poeta que compartilho agora com vocês.


DA PAZ

por Marcelino Freire *
publicado em 20/6/2006.

Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.

Sobre o Autor

Marcelino Freire: Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000) e BaléRalé (Contos, 2003), todos publicados pela Ateliê Editorial. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo Editorial. Visitem www.eraodito.blogspot.com e conheçam melhor o escritor e sua obra.

FONTE: http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=990


POEMINHA DO EMPODERAMENTO

08/08/2016 por MARCELINO FREIRE

*

Quem disse que eu sou branco?
Bicho? Santo?
Quem disse que eu sou Deus?
Que eu sou crente?
Gente?
Quem disse que eu sou
ateu?

Quem disse que eu sou
do Nordeste?
Cabra?
Da AIDS?
Da peste?
Quem disse que eu sou belo?
Másculo? Magro?
Gordo? Hétero?
Gay?

Quem disse que eu posso?
Que eu sou rico? Rápido?
Quem disse que eu tenho algo?
Rim? Pulmão?
Régua? Esquadro?
Quem disse que eu sou bom?
Rei? Rato?
Dos males o melhor?
O pior dos condenados?

Quem disse que eu não sou
negro?
E se eu pinto o cabelo?
Se estou novo? Velho?
Emo? Zen? Moderno?
Quem disse que sou o filho
preferido?
E se mudei de sexo?
E se eu não levo em conta
entre as coxas bambas
o que carrego?

Quem disse que sou o Diabo?
O dono do mundo?
O certo? Ereto? O mais errado
entre os espertos?
Quem disse que eu sei?
Que li?
Que voarei além?
Quem disse que eu estou
ao seu lado?
Meu coração
quem disse que bate
bem?

Quem disse que eu sou todo
amor?
Quando planto o terror
quem eu sou?
Quando apoio o regime?
A morte? O crime?
Preso a um ideal?
Entrarei no céu?
Sem graça?
Cadê o meu humor?

Quem disse que eu sorrio?
Que confio na vida?
Perdeu quem apostou
que eu sou patriota.
O que darei em troca?
Quem disse que eu não trairei
a quem tudo me confiou?

Quem disse que eu não tenho
medo?
Diante deste espelho nu.
Nua
a minha alma
é cega.
Sábia. Suja.
Do palacete à rua.
Da lua ao sol.
Minha solidão
filha da puta.
É feliz? Infeliz?

Quem disse de mim
não sabe o que
diz.

*


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