Um ardil para o status continuar quo

22/09/2016 às 21:00 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Muito boa essa crônica de Veríssimo, como sempre.

boneco-pensar


A passagem Verissimo_sax

Li que o programa de interiorização de médicos, inclusive médicos de outros países – a maioria de Cuba –, tem sido um sucesso, depois de veementemente combatido na sua implantação. Um dos resultados desta e de outras iniciativas na mesma área é que diminuiu o índice de mortalidade infantil no país, talvez o principal parâmetro para se julgar um governo. O programa da casa própria não alcançou todas as suas metas, mas alcançou o bastante para dar moradia decente a milhares de famílias.

O acesso à educação superior democratizou-se como nunca antes.

A Bolsa Família tirou muita gente da miséria.

O que estas e outras medidas de inclusão social têm em comum é que representam o que os neoliberais mais odeiam, que é a intervenção de um estado centralizador no que, segundo
eles, deveria ser tarefa do mercado. O Temer já disse que não vai mexer em nenhum dos programas sociais deixados pelo PT , mas cedo ou tarde, mesmo contra a sua vontade, a lógica de uma opção pela austeridade e pelo estado mínimo o levará a trair sua vontade, se é que ela existe mesmo.

Você não vai para a cama com a Fiesp esperando manter sua virtude.

Se o que o PT deixou na sua longa passagem pelo governo foi fruto de contabilidade criativa, corrupção e tudo mais que lhe atribuem, às vezes com gráficos e “power point” , também foi fruto de uma clara priorização de carências sociais inédita na nossa história.

Isto não é uma defesa do rouba mas faz, é uma lembrança de que a passagem do PT não deixou só lixo, deixou pelo menos uma tentativa de diminuir a desigualdade e a injustiça social que nos assolam.

Ardil

É difícil encontrar entre os analistas econômicos do país um defensor do estado keynesiano. Para ter algum tipo de respaldo na crítica ao nosso conservadorismo reacionário deve-se recorrer a estrangeiros, gente como o Paul Krugman, o Joseph Styglitz e agora oThomas
Piketty , que chama a austeridade pregada pelo capital financeiro pelo seu nome verdadeiro, um ardil para o status continuar quo, num mundo dominado pelo neoliberalismo.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

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