Ninguém, o vencedor, e seu silêncio ominoso

13/10/2016 às 21:10 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Veríssimo nos brinda hoje com uma excelente crônica onde o personagem principal não é ninguém menos que Ninguém (a junção dos votos nulos e brancos – para mim se somar as abstinências fica NINGUÉM com maiúsculas mesmo !).

Colher de chá para os menos cultos, como eu, que tive que ir ao dicionário para saber o que era “ominoso”:

ominoso

adj.Em que pode haver infelicidade; que pode expressar ou trazer mau agouro; funesto.[Por Extensão] Que incita o ódio; que tende a ser detestável; execrável.

ninguem


Ninguém ganhou   verissimo_sax_thumb1

O maior vencedor nas recentes eleições municipais, maior até do que o Suplicy, foi — como disse o Tarso Genro — ninguém. A soma dos votos nulos e brancos, portanto para ninguém, foi maior do que o total de votos válidos, e a tal mensagem das urnas foi a de desprezo pela classe política.

Algumas evidências afloraram em meio ao desencanto geral. O PT pagou pelos seus pecados e perdeu força em todo o país. Ganharam força os evangélicos e os bolsonaros.

Mas nada significou tanto quanto a votação do ninguém. Que não deve ser festejada: o que há no ar é mais do que uma revolta, é uma clara desesperança com o processo eleitoral e fastio com a democracia. Desmoralizada a política, nos sobra o quê? O silêncio das urnas foi um grito de alerta.

Trump x Hillary foi uma luta de um interminável round. Comentaristas americanos discutem quem foi melhor no counterpunch, em linguagem do boxe o contragolpe a um golpe recebido. No quesito, ganhou o Trump, que mais de uma vez atingiu Hillary com um comentário por baixo da sua guarda, mas o consenso geral é que Hillary ganhou por pontos.

Na Europa, fala-se no fim da austeridade, que sacrificou muita gente em nome da responsabilidade fiscal, um outro nome para irresponsabilidade social, durante anos.

Saiu uma matéria a respeito num recente “New York Times”. Tem gente achando que chegou a hora de relaxar e investir em remé- dios para o desemprego e a pobreza, em vez de seguir a receita do capital financeiro, que não funcionou. Quer dizer, na Europa está acabando o que no Brasil de Temer está começando.

O fim da austeridade não resolve o grande problema do que fazer com os imigrantes que invadem a Europa, fugindo da guerra e da fome. Uma reação à invasão tem sido o crescimento de partidos de direita e de candidatos que, como Trump nos Estados Unidos, pregam o fechamento de fronteiras e a discriminação de imigrantes, principalmente muçulmanos.

Trump pode vencer as eleições americanas, partidos de direita podem tomar o poder em muitos países da Europa e no Brasil não se sabe o que fará o ninguém quando vencer o seu silêncio ominoso.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

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  1. Dilma destrincha fala de Meirelles na TV: déficit foi inflado e Temer gasta mais e gasta mal

    POR FERNANDO BRITO · 07/10/2016

    No site de Dilma Rousseff, uma análise que vale a pena ser lida, sobre a fala do ministro da Fazenda, Henrique Meireles, ontem, na televisão, dentro da “Operação Arrocho” contida na PEC 241, que limita os gastos linearmente, ao máximo da inflação passada, e não mais fixando parcelas mínimas em áreas como saúde e educação:
    Na tevê, Meirelles esconde o jogo
    O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ocupou na noite de quinta-feira (6) cadeia de rádio e televisão para tratar do estado das contas públicas do país. Disse que assumiu o posto em meio à “pior recessão” da história do país, apontando que “os gastos públicos foram elevados muito além da arrecadação nos últimos anos”.
    Diante das câmeras de tevê, Meirelles fingiu ao dizer que o déficit de R$ 170 bilhões foi o prejuízo que o governo Temer recebeu ao assumir o poder. Escondeu o fato de que este déficit de R$ 170 bilhões foi inflado pela equipe econômica para permitir que o governo ilegítimo de Temer gastasse mais para viabilizar o golpe a partir do impeachment fraudulento.
    Na verdade, foi graças ao cheque em branco de R$ 170 bilhões aprovado pelo Congresso, baseado na troca de cargos e favores, que o governo golpista de Michel Temer pode conceder generosos reajustes salariais à elite do funcionalismo, que já recebe os mais altos salários do serviço público. Destinou recursos também para a renegociação de dívidas, sem quaisquer critérios ou contrapartidas.
    O ministro não explicou e até mesmo escondeu que o governo Temer, em meio às promessas de austeridade, ampliou as despesas públicas, elevando o déficit para R$170 bilhões, no momento em que o país atravessa uma severa crise econômica. O déficit deste ano foi inflado e é o que permite ao governo Temer gastar mais e gastar mal, por exemplo, ao não dar prioridade à educação e à saúde.
    Meirelles ainda ocultou que o aumento do déficit não se deu por aumento das despesas no governo Dilma. Pelo contrário, desde 2011, o Brasil teve o menor crescimento dos gastos, quando comparado tanto aos governos de FHC e Lula.
    O ministro da Fazenda escondeu o jogo. Não disse que o que ocorreu no Brasil foi uma queda da receita. E, por conta disso, mesmo o governo Dilma controlando os gastos, o país passou por uma piora no resultado fiscal.

    DESIGUALDADE
    Meirelles omitiu que os gastos foram elevados principalmente pela opção dos governos Lula e Dilma de dar especial atenção à área social, em especial as transferências de rendas às famílias, e para investimentos. Foi isso que permitiu ao país ter uma redução acelerada do índice de Gini, fruto de uma rede de “promoção social” com diversos mecanismos de transferência de renda.
    Em educação, por exemplo, o país teve aumento real de investimentos, que garantiu a expansão do ensino superior e técnico. E, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Programa de Investimento em Logística (PIL), recuperou-se a capacidade de investimento do Estado.
    O ministro da Fazenda declarou que os déficits públicos já vinham ocorrendo em anos anteriores: “O governo vinha se endividando e pagando juros muito altos para poder financiar essa conta. A inflação saiu do controle e está acima dos limites aceitáveis”.
    O fato é que, mesmo com o crescimento real das despesas nos anos anteriores, entre 2003 e 2015, a dívida líquida caiu em quase todos os anos. O país saiu de 60% da dívida em relação ao PIB no governo FHC para 35% ao final de 2015. A dívida bruta também caiu. A Sua elevação ocorreu, não por aumento de gastos, mas pelo aumento de juros, que vinham caindo, desde 2003, e dobraram de 2014 para 2015.

    PEC 241
    Ao tratar da proposta de mudança da Constituição, enviada ao Congresso e que congela os gastos públicos por 20 anos, Meirelles desconversou. “O governo Temer enviou uma proposta para mudar a Constituição e equilibrar o orçamento nos próximos anos. É necessário um prazo para ajustar as contas de forma gradual, sem retirar direitos, sem cortar o dinheiro dos projetos mais importantes, aqueles essenciais. Saúde e educação, por exemplo, serão preservados”, disse.
    Tal afirmação é uma falácia. As áreas de saúde e educação vão perder – e muito –, caso a PEC 241, a chamada PEC do Teto dos Gastos Públicos, seja aprovada pelo Congresso Nacional. Os investimentos nas duas áreas vão cair progressivamente, ano a ano, em relação à regra atual – PIB e per capita – pelos próximos vinte anos. Nas demais áreas, como cultura, segurança, esportes, direitos humanos e agricultura, os recursos vão simplesmente minguar.
     
    CONFIANÇA
    Meirelles disse ainda na TV e no rádio, que o governo Temer está criando mecanismos para garantir que áreas prioritárias como saúde e educação não terão perdas. Ele jura que, com o controle dos gastos, o Brasil vai recuperar a credibilidade. “A confiança de consumidores, investidores e empresários já está retornando. Já notamos os primeiros sinais dessa mudança”, assinalou.
    O ministro não disse que a PEC 241 está toda baseada em um diagnóstico errado sobre a situação fiscal do Brasil. Não será agradando o mercado que o país terá a recuperação da sua economia ou que seus problemas estarão resolvidos. Essa ideia é falsa. Está baseada num conceito antigo, na cartilha neoliberal já tentada no Brasil, que só elevou o desemprego ano a ano.
    A PEC do Teto dos Gastos Públicos é antidemocrática. Ela retira da sociedade brasileira, do Congresso Nacional e dos próximos governos eleitos, o direito de definir o modelo de desenvolvimento que se quer para o país.
    O governo golpista faz propaganda enganosa. Vende austeridade fiscal, mas já usou boa parte dos recursos autorizados pelo Congresso para fazer generosos ajustes salariais ao topo do funcionalismo público.
    Isso não é governar com responsabilidade. É governar para poucos, promovendo o caos nas contas públicas para impor uma agenda de retrocesso nas políticas sociais.


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