Riscos

17/10/2016 às 11:02 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Veríssimo ontem, ciando Guimarães Rosa e Churchill para nos lembrar dos riscos da democracia.


Riscos  Verissimo_sax

Viver é muito perigoso, disse o Guimarães Rosa. A democracia, como a vida, também é ótima, mas tem seus riscos. Nela, todo o poder emana do povo, mas o povo pode errar, ou pode apenas se lixar para as formalidades democráticas e não votar.

A maioria do povo inglês votou por deixar a Comunidade Europeia, e foi um voto burro. Donald Trump não teria chegado aonde chegou como candidato à Presidência dos Estados Unidos se tanta gente não concordasse com seus conceitos e preconceitos. Nas recentes eleições municipais, o povo brasileiro votou, majoritariamente, em ninguém.

Demagogos se aproveitam da desinformação e do desinteresse do povo para vender suas soluções simplistas. Há uma clara tendência para a direita no futuro político da Europa, onde xenofobia e ideias fascistas prosperam, em reação à invasão de refugiados e à impotência da esquerda.

Claro que quem é de esquerda acha que qualquer progressão da direita é prova dos perigos da democracia, e vice-versa. Quem é de esquerda tem alguma dificuldade em aceitar que todo o mundo não seja, já que sua mensagem é de liberdade, igualdade e fraternidade, e quem pode ser contra isto?

A direita chama a mensagem da esquerda de um grande engodo, como prova o fracasso do socialismo em boa parte do mundo. O inegável avanço da direita se dá, na Europa, dentro das regras democráticas.

Marine Le Pen chegará ao governo da França pelo voto. Nos Estados Unidos, se Trump vencer, o que parece cada vez mais improvável, mas pode acontecer, será pelo voto. O grande risco de estar vivo, segundo Guimarães Rosa, é morrer. O grande risco de cultivar a democracia é que ela pode explodir na nossa cara.

Qual é a alternativa para quem desespera da sabedoria do povo? Os tempos antigos, como o tempo da Grécia de Platão e o da República romana de Cícero, não nos servem de exemplo. Neles, a política era exercida por uma aristocracia, supostamente iluminada, que sabia o que era melhor para o povo e, como um beneficio colateral, o que era melhor para mantê-los no poder.

No Brasil, desde que uma oligarquia de fato, um arremedo de Roma, foi substituída por uma oligarquia disfarçada, esta usa as regras da democracia — e, de vez em quando, um golpezinho — para seu proveito.

Mas não desesperemos. A solução é a politização do povo, que demora, mas virá. Para parafrasear a já batida frase do Churchill, democracia é um péssimo sistema, com exceção de todos os outros. Mesmo com seus riscos.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, ontem.

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