A volta da chibata

18/10/2016 às 3:35 | Publicado em Artigos e textos | 2 Comentários
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Ou seria a volta da Casa-Grande ? Muito bom esse artigo do Professor Carlos Zacarias de Sena Júnior.

Casa-grande-e-senzala-quadro


A volta da chibata

Há diferentes formas de ser derrotado. A aprovação da PEC 241 na Câmara sinaliza para uma derrota de dimensões históricas. O significado de se estabelecer um congelamento dos gastos públicos pelos próximos 20 anos vai atingir em cheio o coração da Constituição de 1988, encerrando a Nova República.

Há quem diga que nossas derrotas datam de 2002, quando na carta ao povo brasileiro Lula firmou um compromisso de subserviência ao andar de cima. Vencida a eleição, não foram os trabalhadores que subiram a rampa, e nos termos de uma irrefreável política de conciliação, o lulismo inaugurou uma expectativa de empoderamento que era a antessala das derrotas que se colheria, caso não se avançasse.

Passado o impeachment, a constatação que fica é a de que uma oportunidade histórica foi perdida. Inermes, estamos próximos da confirmação de que o destino pareceu nos reservar a perspectiva apontada por Freyre, que disse: “No íntimo, o que o grosso do que se pode chamar ‘povo brasileiro’ ainda goza é a pressão sobre ele de um governo másculo e corajosamente autocrático”.

Temer parece ter entendido o princípio freiriano, como ACM na eleição de 1990. Naquele ano, após o malogrado governo de Waldir/Nilo, a canção-tema da campanha carlista entoava o discurso de que a Bahia não funcionava porque faltava “homem Doutor”. Faltava quem governasse “com força e coragem”, e a canção terminava com o refrão “A-ACM meu amor!”. ACM venceu a eleição de forma acachapante, após uma significativa derrota em 1986, quando se supôs que o carlismo estivesse aniquilado. A canção-tema do carlismo dá a medida exata do significado das palavras do autor de Casa Grande & Senzala, que imaginava que um país que tinha vivenciado uma escravidão quase sem conflitos (sic) estava condenado a ter o mandonismo como forma principal de direção política, uma equivalente social do sadomasoquismo.

A máxima teve sua versão de esquerda com o lulismo, mas seus sonhos de conciliação soçobraram com o golpe. À direita, a perspectiva freiriana só pode ser concebida com o restabelecimento da hegemonia plena da Casa-Grande, pois os senhores de escravos querem nos fazer acreditar que, se nos dão chicotadas, é para o nosso bem.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: http://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/1808867-a-volta-da-chibata-premium

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