Galeano, um velho conga e um mestre

21/10/2016 às 3:14 | Publicado em Artigos e textos | 2 Comentários
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Excelente essa crônica. Quem da idade por volta da minha e do autor nunca usou um conga ou um kichute ? Quem não leu “As veias abertas da América Latina” e o Analfabeto Político ? E Olga ? Muito interessante esse depoimento dele. Galeano, Brecht e outros faziam as nossas cabeças. Quem faz a cabeça dos jovens de hoje ?


Galeano, um velho conga e um mestre carlos-zacarias

“Jamais alguém se torna marxista (apenas) lendo Marx”. As palavras do historiador ierre Vilar me vieram à mente depois de encontrar o meu grande mestre na cerimônia de despedida de D. Josélia Fraga. No saguão do crematório, reconheci imediatamente o sorriso inconfundível do meu professor de geografia dos tempos do ensino médio. Zilton Rocha me puxou pelo braço e me deu um longo e apertado abraço, como sempre fazia quando nos encontrávamos nas lutas. Fui aluno de Zilton muito antes de ele ser vereador de Salvador e depois deputado estadual pelo PT nas décadas de 1990 e 2000. Corria o ano de 1985 e, em função de uma bolsa de estudos concedida ao meu pai, deixei o Colégio Luiz Vianna Filho, da rede pública estadual, para estudar no Colégio Nobel do Corredor da Vitória. Todos os dias pegava um ônibus no Matatu e seguia para a Lapa. De lá ia caminhando até o famoso colégio particular em um dos bairros mais burgueses da capital.

Recordo das aulas de Zilton que me marcaram a história de vida, da mesma forma em que lembro a maneira desdenhosa com que os adolescentes tratavam aquele professor de sotaque interiorano e jeito simples, que falava de educação, Paulo Freire e esperança. Logo me identifiquei com o seu humanismo e suas maravilhosas aulas. Lembro que anotei no verso da contracapa do caderno algumas indicações de livros feitas pelo professor. Foi de lá que retirei o pedido para que minha mãe comprasse As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Li o livro com avidez ainda antes de ingressar para o Exército em 1987. Como soldado do 19 BC, as marcas dos dois anos em que havia sido aluno de Zilton ganharam ainda mais significado na transição democrática. No quartel, li Brasil nunca mais e
ainda Olga, desafiando a atmosfera anticomunista reinante. Passando em revista as minhas recordações, pego um velho caderno de 1987, quase em branco, e vejo na última folha, escrita a lápis, O analfabeto político, de Brecht. Hoje, mais do que nunca, compreendo que as lições do mestre foram tão importantes quanto descobrir a diferença entre o meu Conga e os tênis de marca dos outros adolescentes.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 30.09.2016

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  1. […] bom esse artigo do Professor Carlos Zacarias de Sena Junior. Serve para a gente refletir sobre o tal do marqueting […]

  2. […] manifestações por todo o país, compartilho esse artigo de hoje do Professor de História da UFBA Carlos Zacarias de Sena Júnior para nunca esquecer a “Gloriosa de 64” e refletir sobre o momento político atual que passamos […]


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