O poeta e o mar

29/10/2016 às 3:22 | Publicado em Canto da poesia | 1 Comentário
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Esse é para uma pessoa muito especial que faz aniversário hoje. Os escritos de Saulo Dourado são verdadeiras poesias em prosa. Já postei algumas aqui neste espaço. Quantos de nós, mesmo morando perto do mar não olhamos para ele. Quantos tipos outros de mares existem em nossas vidas que nem sequer damos uma olhadela ?

Salve Miminha, irmã querida, aquela que sempre olhou e enxergou esses mares nossos da vida, beijos !

PoetaMar


O poeta e o mar

Conta-se que, antigamente, rodou o boato de que uma onda gigantesca destruiria a cidade. As autoridades chamaram os soldados. Eles usariam a sua coragem para evitar a catástrofe. Em três dias, viram que as balas de canhão não afetavam os mares e desistiram. Foram chamados os engenheiros, cheios de eficiência. Em dois dias, o muro de cinquenta metros que eles construíam em cima da praia desabou com a areia fofa.

As autoridades então convocaram os encanadores, que teriam a esperteza de canalizar as águas. Em um dia, os milhões canos que eles fizeram para retirar toda a água do oceano arrebentaram com tanto volume.

As autoridades desistiram das tentativas e mandaram que as pessoas saíssem da cidade.
Mas, antes de todos terminarem as malas, um só poeta, em um só instante, se pôs em pé na praia e declamou:

Mar onde cantam os pescadores
quando lançam a rede
Água não para a boca, mas aos
olhos que têm sede
Se não tocamos o céu, tudo o
que é seu podemos ver
Oh, mar, não venha sozinho a
nós, já vamos juntos até você.

Dizem que o mar agitado se acalmou. O poeta chegou perto e molhou o rosto, sorrindo. As
autoridades e a multidão vibraram. Aí se deram conta: mesmo antes da ameaça da onda, há muito tempo não olhavam para o mar.

(Saulo Dourado)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 08.10.2016

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  1. […] Saulo Dourado, para mim uma das gratas novidades do mundo da literatura nacional, de vez em quando vem aqui, via A TARDINHA, do Jornal A TARDE (Salvador-BA). Posto hoje mais esse conto que nos faz pensar. Poesia em prosa. […]


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