Algemas

30/10/2016 às 18:01 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Veríssimo disse hoje em sua coluna dominical que vai tirar férias. Só volta em 1/12. Vamos sentir sua falta. Que descanse e volte com a mesma verve, o país que lê precisa dele !


Algemas carinha_colunista_Verissimo

O Mario Quintana disse que as guerras eram um modo prático de se aprender geografia. No noticiário de batalhas e territórios conquistados e perdidos, se descobria o nome de lugares até então desconhecidos, e alguns se tornavam não apenas conhecidos, como históricos, identificados para sempre com o que ali se passara — fosse um morro, um riacho ou uma aldeia de um cachorro só.

No atual noticiário sobre escândalos financeiros, delação premiada, prisão cautelar e prisão domiciliar, instâncias, recursos etc — enfim, essa novela que não acaba — estamos tendo aulas diárias de Direito e jurisprudência.

Mas, como os locais insignificantes que ficaram famosos por serem cenários de fatos históricos, os debates judiciais não merecem a imponência que lhes empresta sua retórica esotérica, já que o que se está discutindo são diferentes interpretações do que é legal, constitucional e justo — tudo que a gente imaginava já decidido e gravado em pedra. Discute-se o que juízes e polícia podem ou não podem fazer e até o que um ministro do Supremo Tribunal Federal pode ou não pode fazer. E a gente aqui pensando que isso estava combinado há anos.

A questão das algemas, por exemplo. Procurei um ladrão de galinha para ouvir sua opinião a respeito. Como se sabe, na era pré-Lava-Jato, só ladrão de galinha ia preso no Brasil. Consegui encontrar um representante da categoria e tivemos o seguinte diálogo fictício:

— Você é considerado um protótipo do ladrão de galinha brasileiro.

— Isso.

— Como devo chamá-lo?

— Pode ser Protó.

— Você é a favor ou contra as algemas?

— A favor.

— O quê? Você não acha que as algemas são uma indignidade, que humilha desnecessariamente o preso?

— Acho não.

— Logo você, Protó, que estava sempre sendo preso? Que surpresa. Mas obrigado, viu? Eu…

— Espera. Você não vai me perguntar o que eu acho de jogarem a gente no porta-malas da viatura como um saco e depois nos prenderem numa cela com 20 onde só cabem dois? Sou contra.

E completou:

— Gosto das algemas em comparação com o resto.

TCHAU

Vou sair de férias. Sem foguetes, por favor. Volto no dia 1º/12.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

A LUCIDEZ DOS CRAQUES

30/10/2016 às 11:10 | Publicado em Artigos e textos | 2 Comentários
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Tostão, o craque da bola e da pena, volta aqui hoje neste domingo sem futebol por causa do segundo turno das eleições para prefeito em algumas cidades. O futebol é apenas um mote para ele escrever o que pensa da vida.

“… deveríamos ter duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver.”

(Vittorio Gassman)


A LUCIDEZ DOS CRAQUES  tostão-craque-de-70

Como o futebol é um jogo de incertezas, de mil possibilidades, umas das qualidades mais
importantes de um jogador é a lucidez para tomar as decisões certas. Isso não se mede nas
estatísticas. A lucidez é parte importante do talento. Ela não pode ser ensinada, mas pode ser aprimorada com a ajuda dos treinadores.

Existem atletas que executam muito bem os fundamentos técnicos da posição, mas são
confusos, esquizofrênicos em campo, por não serem capazes de unir as partes, as virtudes,
para formar um todo. Pato e outros não se tornaram craques, como a maioria esperava, porque não se dedicaram à profissão, como tanto falam, e sim porque não tiveram a lucidez
para tomar as decisões corretas. Driblam, quando deveriam passar a bola. Finalizam, quando
deveriam driblar.

Pelé foi o maior de todos os tempos, porque, além de possuir, no mais alto nível, todas as
qualidades técnicas, atingiu o máximo da lucidez, da eficiência, da simplicidade. Tornava
simples o que era complexo.

Armando Nogueira suspeitava que essa sabedoria fosse um reflexo medular, sem passar pela consciência. Os psicanalistas falam que é um saber inconsciente, que antecede ao raciocínio lógico. Ele sabe, mas não sabe que sabe. A ciência esportiva chama isso de inteligência
cinestésica, a capacidade de, rapidamente, sem pensar, mapear tudo o que está em volta e
calcular a velocidade e a posição dos companheiros, dos adversários e da bola.

Os melhores meio-campistas não são excepcionais somente porque, algumas vezes, dão
passes brilhantes e decisivos. São também porque têm a lucidez de escolher o momento
certo de dar o passe incisivo, mais à frente. Raramente, perdem a bola, uma estratégia cada dia mais importante.

Romário, em uma fração de segundos, dominava, ajeitava o corpo, olhava para o goleiro e
colocava a bola no canto do gol. Precisava de poucos gestos. Parecia tudo fácil.

Os grandes goleiros e defensores são os que anteveem o passe e se antecipam ao atacante, sem confronto físico. Nilton Santos nunca deve ter sujado o calção. Os melhores goleiros
não são os que dão belos saltos para segurar a bola. São os que se colocam muito bem. Todas as defesas parecem fáceis.

A lucidez é muito importante na vida e em todas as atividades profissionais. Como diz o chavão, a vida é feita de escolhas. O problema é que, muitas vezes, só saberemos se a escolha foi certa mais à frente. Como disse o grande ator italiano Vittorio Gassman, deveríamos ter duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver.

Dúvidas históricas

Juca Kfouri contou, em sua coluna, que o técnico Aymoré Moreira, campeão do mundo em
1962, desenhou em um guardanapo, na véspera da final da Copa de 1970, quando Aymoré
trabalhava para a Revista Placar, toda a jogada do gol de Carlos Alberto Torres, o quarto contra a Itália.

Aymoré previu o lance ou soube, por ter companheiros na comissão técnica, dar eunião entre
Zagallo e os jogadores, quando foi combinado que, quando o ponta Jairzinho entrasse pelo
meio, em diagonal, e fosse acompanhado pelo lateral esquerdo Facchetti, que fazia marcação individual, Carlos Alberto avançaria e entraria livre neste espaço, para finalizar? Aymoré tinha sido treinador de Zagallo no Mundial de 1962.

A história tem sempre, no mínimo, duas versões. Às vezes, as
duas são verdadeiras ou falsas.

(Tostão)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

Essencialismo

30/10/2016 às 3:30 | Publicado em Baú de livros, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Muito interessante esse vídeo do Mairo Vergara. A gente fica com vontade de ler o livro sugerido.


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