A LUCIDEZ DOS CRAQUES

30/10/2016 às 11:10 | Publicado em Artigos e textos | 2 Comentários
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Tostão, o craque da bola e da pena, volta aqui hoje neste domingo sem futebol por causa do segundo turno das eleições para prefeito em algumas cidades. O futebol é apenas um mote para ele escrever o que pensa da vida.

“… deveríamos ter duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver.”

(Vittorio Gassman)


A LUCIDEZ DOS CRAQUES  tostão-craque-de-70

Como o futebol é um jogo de incertezas, de mil possibilidades, umas das qualidades mais
importantes de um jogador é a lucidez para tomar as decisões certas. Isso não se mede nas
estatísticas. A lucidez é parte importante do talento. Ela não pode ser ensinada, mas pode ser aprimorada com a ajuda dos treinadores.

Existem atletas que executam muito bem os fundamentos técnicos da posição, mas são
confusos, esquizofrênicos em campo, por não serem capazes de unir as partes, as virtudes,
para formar um todo. Pato e outros não se tornaram craques, como a maioria esperava, porque não se dedicaram à profissão, como tanto falam, e sim porque não tiveram a lucidez
para tomar as decisões corretas. Driblam, quando deveriam passar a bola. Finalizam, quando
deveriam driblar.

Pelé foi o maior de todos os tempos, porque, além de possuir, no mais alto nível, todas as
qualidades técnicas, atingiu o máximo da lucidez, da eficiência, da simplicidade. Tornava
simples o que era complexo.

Armando Nogueira suspeitava que essa sabedoria fosse um reflexo medular, sem passar pela consciência. Os psicanalistas falam que é um saber inconsciente, que antecede ao raciocínio lógico. Ele sabe, mas não sabe que sabe. A ciência esportiva chama isso de inteligência
cinestésica, a capacidade de, rapidamente, sem pensar, mapear tudo o que está em volta e
calcular a velocidade e a posição dos companheiros, dos adversários e da bola.

Os melhores meio-campistas não são excepcionais somente porque, algumas vezes, dão
passes brilhantes e decisivos. São também porque têm a lucidez de escolher o momento
certo de dar o passe incisivo, mais à frente. Raramente, perdem a bola, uma estratégia cada dia mais importante.

Romário, em uma fração de segundos, dominava, ajeitava o corpo, olhava para o goleiro e
colocava a bola no canto do gol. Precisava de poucos gestos. Parecia tudo fácil.

Os grandes goleiros e defensores são os que anteveem o passe e se antecipam ao atacante, sem confronto físico. Nilton Santos nunca deve ter sujado o calção. Os melhores goleiros
não são os que dão belos saltos para segurar a bola. São os que se colocam muito bem. Todas as defesas parecem fáceis.

A lucidez é muito importante na vida e em todas as atividades profissionais. Como diz o chavão, a vida é feita de escolhas. O problema é que, muitas vezes, só saberemos se a escolha foi certa mais à frente. Como disse o grande ator italiano Vittorio Gassman, deveríamos ter duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver.

Dúvidas históricas

Juca Kfouri contou, em sua coluna, que o técnico Aymoré Moreira, campeão do mundo em
1962, desenhou em um guardanapo, na véspera da final da Copa de 1970, quando Aymoré
trabalhava para a Revista Placar, toda a jogada do gol de Carlos Alberto Torres, o quarto contra a Itália.

Aymoré previu o lance ou soube, por ter companheiros na comissão técnica, dar eunião entre
Zagallo e os jogadores, quando foi combinado que, quando o ponta Jairzinho entrasse pelo
meio, em diagonal, e fosse acompanhado pelo lateral esquerdo Facchetti, que fazia marcação individual, Carlos Alberto avançaria e entraria livre neste espaço, para finalizar? Aymoré tinha sido treinador de Zagallo no Mundial de 1962.

A história tem sempre, no mínimo, duas versões. Às vezes, as
duas são verdadeiras ou falsas.

(Tostão)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

2 Comentários »

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  1. Tostão, além de ter sido um dos maiores craques que já vi no futebol, é uma das pessoas mais lúcidas que já ouvi, Até hoje tenho uma admiração muito grande pelo gesto dele no episódio da gratificação dos craques da seleção de 70, contrariando a quase todos, foi contra essa “generosidade” com dinheiro público.

  2. Seiji Sato, muito bem lembrado ! Abs


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