O ESTADO BRASILEIRO PARECE DESINTEGRAR-SE

16/11/2016 às 3:41 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Finalmente o livro A DESORDEM MUNDIAL, de Moniz Bandeira, chega ao Brasil. Confiram nessa entrevista as ideias deste grande intelectual, reconhecido mundialmente.

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O ESTADO BRASILEIRO PARECE DESINTEGRAR-SE  MonizBandeira

O historiador e cientista político baiano Luiz Alberto Moniz Bandeira tem seu livro mais recente lançado no Brasil: A Desordem Mundial, um amplo estudo do cenário internacional. Aos 80 anos, também tem sido homenageado pela sua vasta obra e história de vida de intelectual engajado. Em junho, foi homenageado pela União Brasileira de Escritores. No dia 4, a homenagem é na Usp. Da Alemanha, onde vive, ele concedeu esta entrevista.

Em seu livro A Desordem Mundial, o senhor aborda pontos de tensão pelo mundo. Como o Brasil do golpe/impeachment se encaixa no cenário?

Desde o governo do presidente Lula da Silva, o Brasil, conquanto mantivesse boas relações com os Estados Unidos, inflectiu em sua política exterior no sentido de maior entendimento com China e Rússia e empenhou-se na conquista dos mercados da América do Sul e África, a favorecer as empresas nacionais, como todos os governos o fazem. Ao mesmo tempo, reativou a indústria bélica, com a construção do submarino atômico e outros convencionais,
em conexão com a França, a compra de helicópteros da Rússia e jatos da Suécia, países que aceitaram transferir a tecnologia, como determinou a Estratégia Nacional de Defesa, aprovada pelo Decreto Nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008. E essa transferência de tecnologia, que os Estados Unidos não aceitam realizar, é necessária, indispensável ao desenvolvimento econômico e à defesa do Brasil, pois la souveraineté est la grande muraille de la patrie, conforme o grande Rui Barbosa proclamou, ao defender, na Conferência de Haia(1907), a igualdade dos Estados soberanos. Outrossim, ele advertiu, citando Eduardo Prado, autor da obra A Ilusão Americana, que não se toma a sério a lei das nações, senão entre as potências cujas forças se equilibram. Esta lição devia pautar a estratégia de segurança e defesa nacional. O Brasil é e sempre foi um pivot country no hemisfério sul devido à sua dimensão geográfica, demográfica e econômica, a maior do hemisfério, abaixo dos Estados Unidos. E constituiu com a Rússia, Índia e China o bloco denominado Bric, contraposto, virtualmente, à hegemonia dos EUA, e abrir uma alternativa à preponderância do dólar nas finanças e no comércio internacional. Tais fatores, inter alia, como a exploração do petróleo pré-sal sob o controle da Petrobras, dentro de um contexto em que os Estados Unidos deflagraram outra guerra fria contra a Rússia e, também, contra a China, concorreram para que interesses estrangeiros, aliados a poderoso segmento do empresariado brasileiro, sobretudo do Sul do país, encorajassem e financiassem o golpe parlamentar, conjugando mídia e judiciário, com o apoio de vastas camadas das classes médias.

Como o senhor viu o impeachment e a ascensão de Michel Temer? Como em 1964, há quem diga que o golpe/impeachment atende a interesses norte-americanos.

O Estado brasileiro parece desintegrar-se. Nem durante a ditadura militar a Polícia Federal invadiu o Congresso. Ela ganhou uma autonomia que não podia ter, não respeita governo nem a Constituição, e muitos de seus agentes são treinados e conectados com o FBI, DEA, Cia etc. Os promotores-públicos e juízes, por sua vez, passam por cima das leis, extrapolam, como senhores de poder absoluto e incontestável. Estão incólumes. Quase nunca são penalizados. E, quando o são, afastados das funções, continuam a receber suas elevadas remunerações, dez vezes ou mais superiores aos dos juízes da Alemanha, França, Inglaterra, Estados Unidos e outros países desenvolvidos, segundo a European Commission for the
Efficiency of Justice (CEPEJ) e outras fontes. Certos magistrados do STF comportam-se como políticos partidários. Outros, que se deviam resguardar, fazem declarações públicas, antecipando julgamentos, e afiguram como se estivessem intimidados pela grande mídia, um oligopólio, uníssono na condenação, aprovação ou omissão de fatos. O Congresso está pervertido, muito dinheiro correu para a efetivação do impeachment de Dilma Rousseff, canalizado pela Cia e Ongs, financiadas e sustentadas pelas fundações de George Soros,
USAID e National Endowment for Democracy (NED), dos Estados Unidos. E esse golpe de Estado, que começou com as demonstrações em São Paulo, no estilo recomendado pelo
professor Gene Sharp, no seu manual Da Ditadura à Democracia, traduzido para 24 idiomas, atendeu a interesses estrangeiros, entre os quais, mas não apenas, não o único, a exploração das camadas de pré-sal, que, de acordo com a Lei 12.351, estaria a cargo da Petrobras, como operadora de todos os blocos contratados sob o regime de partilha de produção, condição esta anulada pelo projeto 4.567, em tramitação na Câmara dos Deputados. Todo o alicerce da República, proclamada com o golpe de Estado de 1889, está podre. É um lodaçal.

Como o senhor vê o juiz Sergio Moro? A filósofa Marilena Chauí disse que ele passou por um estágio no FBI.

O que Marilena Chauí disse é, virtualmente, certo. O fato é que o juiz Sérgio Moro, condutor do processo contra a Petrobras e contra as grandes construtoras nacionais, realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007. No ano seguinte, em 2008, passou um mês num programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, com sua colega Gisele Lemke. E, em outubro de 2009, participou da conferência regional sobre Illicit Financial Crimes, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos. A Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, passou informação sobre o doleiro Alberto Yousseff, ao delegado da Polícia e ao juiz Sérgio Moro, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com
demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros). Não sem motivo, foi eleito como um dos dez homens mais influentes do mundo pela revista Time. Seu parceiro, o procurador-geral Rodrigo Janot,acompanhadoporinvestigadores da força-tarefa
responsável pela Lava Jato, em fevereiro de 2015, foi a Washington buscar dados  contra a Petrobras e lá se reuniu com o Departamento de Justiça, o diretor-geral do FBI, James Comey, e funcionários da Securities and Exchange Commission (SEC). Sérgio Moro e o procurador-geral da República Rodrigo Janot atuaram e atuam com órgãos dos Estados Unidos, sem qualquer discrição, contra as companhias brasileiras, atacando a indústria bélica nacional, inclusive a Eletronuclear, levando à prisão seu presidente, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. E ainda mais, eles e agentes da Polícia Federal vazam, seletivamente, informações para a mídia, com base em delações obtidas sob ameaças e coerção, com o objetivo de envolver, sobretudo, o ex-presidente Lula. Os danos que causaram e estão a
causar à economia brasileira, interna e externamente, superam, em uma escala muito maior, imensurável, todos os prejuízos da corrupção que dizem combater. E continua a campanha para desestruturar as empresas brasileiras, estatais e privadas, como a Odebrecht, que competem no mercado internacional.

A onda conservadora tem dado força a candidatos controversos, como Donald Trump, Marine Le Pen e, no Brasil, Jair Bolsonaro. Acredita que eles possam chegar ao poder?

Jair Bolsonaro é caricatura, comparado com Donald Trump e Marine Le Pen. Não creio que esse coronel, uma reminiscência grotesca do que houve de pior na ditadura militar, pudesse ser eleito presidente no Brasil. Os fatores que alimentam as candidaturas de Donald Trump (Hillary Clinton é uma excrescência neoconservadora, responsável também pela sangueira na
Líbia) e Marine le Pen são outros e diversos. Nos Estados Unidos, o presidente Barak  Obama, do Partido Democrata, é igual ou pior que seu antecessor George W. Bush, neoconservador do Partido Republicano. Na França, François Hollande, do Partido Socialista, é da mesma laia que seu adversário conservador e colonialista, Nicolás Sarkozy. Entre les deux mon cœur balance. Je ne sais pas laquell aupis-aller. E daí é que Marine le Pen desponta.

O senhor será homenageado na Usp. Como se sente?

Confortado. É um reconhecimento de minha obra. Fiz meu doutoramento na Universidade de São Paulo, onde sempre tive e tenho muitos amigos desde os 20 anos. Sinto muitas audades e, infelizmente, meu coração, enfermo, não mais me permite voar 11/12 horas para o Brasil. Morei muitos anos em São Paulo e lá vivi, clandestinamente, na ditadura militar. E profundamente grato sou às homenagens que os queridos amigos e colegas da União Brasileira de Escritores e a Usp estão a prestar-me. Vejo que meu trabalho, ao longo de tantas décadas, não foi em vão. Frutificou.

(CHICO CASTRO JR)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 29.10.2016

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