A LINGUAGEM DE DEUS

20/12/2016 às 3:21 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Espaço ecumênico, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: , ,

LNGUAGEM_DE_DEUS


Terminei de ler este A LINGUAGEM DE DEUS, de Francis Collins, que um grande amigo de Fortaleza/CE gentilmente me ofertou. Excelente livro, faço nesta oportunidade alguns comentários.

O livro é uma mistura de religião e ciência, procura mostrar que não há dicotomia entre os dois. Tanto numa quanto noutra abordagem há passagens para mim muito profundas, algumas que mesmo eu lendo duas vezes ainda fiquei com dúvidas.

Logo de pronto, e durante todo o livro, até a sua conclusão e seu apêndice, ele cita a Lei Moral. Não consigo ler mais nada sem fazer conexões com o que eu já li e vi. A Lei Moral remonta, para mim, não a Emmanuel Kant apenas como o autor diz. Ela remonta a Zoroastro, o persa autor primeiro do famoso maniqueísmo, o bem e o mal, o certo e o errado, que foi a base para todas as religiões ocidentais.

Ai já começou a ficar um pouco difícil para mim, quem anda por esse espaço já me conhece bem. Mesmo um cientista do quilate dele, o líder do projeto Genoma Humano, ainda pode ser criticado, pelo menos em algumas questões como essa. Dizem, não me aprofundei nisso, que no mundo oriental a coisa é diferente, tem lá o tal de Yin e Yang (princípio da dualidade de energias da filosofia chinesa) que não é bem assim. Considerando que a maioria de nós (7 bilhões) é de lá, nesse caso eu tenho que considerar isso também. Por que o povo de cá seria o escolhido para compreender a verdade ? Por que o princípio da Lei Moral é a base de tudo para esse brilhante cientista ? Na página 31 ele diz isso: “o conceito do certo e do errado aparenta ser universal entre todos os membros da espécie humana…”. Ai danou… o que está por trás é a filosofia do maniqueísmo. E os outros ? E os índios ? O citado, por ele, Lewis combate isso, esse meu raciocínio, mas confesso que não me convenceu.

As pesquisas que ele mostra nas páginas 153 e 154, realizadas nos EUA eu , se não me engano, já até publiquei aqui neste Zeducando. Para mim não são nenhuma surpresa. Apensa um terço dos americanos do Norte acreditam na Teoria de Darwing. E a maioria acredita que Deus criou o homem há 10 mil anos apenas, mais ou menos igual ao que se tem hoje. Mas aí o bacana, a meu ver, é o autor tentar além de criticar isso explicar, ou tentar explicar, que não há nenhum problema entre a Teoria Darwiniana e a existência de Deus.

Ele cita em seguida a perseguição a Copérnico, Galileu e outros. E lá na frente coloca que vários, inclusive Newton, eram crentes em Deus. Não com relação a Newton, mas com relação a Galileu e outros, achei ingenuidade isso. Por quê ? Ora, se você está ameaçado por um Tribunal da Inquisição, se os teus patrões (com um sentido muito diferente do que temos hoje !) são crentes, se sua teoria é contra séculos do que constam na cabeça e no  códex das leis da igreja, você não iria fazer o mesmo ? Tanto é que , diz a lenda, Galileu negou tudo no tribunal (para salvar a pele, claro), mas no canto da boca disse: – Epur si muove ! (ou seja, apesar de tudo isso, a Terra se move !… em torno do Sol). Isso o autor não diz !

Achei uma passagem muito bacana quando ele cita Santo Agostinho, esse para mim um gênio (um mala também ? Sei não…). Ele diz (páginas 162 e 163) simplesmente o óbvio: que a igreja, que os crentes, não deveriam negar as evidências da ciência, porque são obras também de Deus, e não faz sentido algum isso, e nem é positivo de forma alguma para a fé. Agostinho era o cara, isso há vários séculos atrás.

Também muito bacana a posição do autor contra o chamado Criacionismo da Terra Jovem (YEC), para mim simplesmente uma aberração, como tantas que surgem a cada dia ao se interpretar a Bíblia ao pé da letra (mas ai, qual a interpretação certa ?).

Mais na frente ele cita Maimonides, Agostinho novamente e João Paulo II quando o papa reconhece ser inevitável a aceitação das evidências científicas da evolução. (página 206). Uma das frases mais marcantes, na página 207, que se eu seguisse um raciocínio um pouco simplista e reducionista de minha mãe (tudo é uma questão de “féDE menos ou de féDE mais”) largaria o livro naquele momento é : ”A crença em Deus sempre exigirá um salto de fé.”

Na página 230 ele cita a Parábola do Bom Samaritano, em outras palavras tenho dito essa parábola faz anos aos que me conhecem. Ai sim, não há como discordar e entender sim que se trata de uma “Lei Moral Universal”, e simples, como deve ser algo dessa natureza. JC deu muito mais valor a um samaritano (odiado pelos judeus porque rejeitava os ensinamentos dos profetas sionistas) que a um sacerdote e a um doutor da lei. Por quê ? Pela AÇÃO ! O samaritano socorreu o necessitado, os outros não. Ai não tem teoria certa… de fé ou de ciência ! Afinal, JC não escreveu uma linha sequer, foi tudo na base da ação, da prática. Ai, depois os que vieram (ou alguns como dois dos escritores do Novo Testamento que vivenciaram JC) teorizaram. Ai danou, principalmente porque a linguagem da época era parabólica. E de uma parábola se tiram várias lições, desmembram-se religiões inteiras… Qual a certa ? De novo JC e o seu samaritano: a que faz !

Uma outra parte que me impressionou muito (e que eu nunca havia parado para pensar) foi quando ele discute a questão do início da vida. Para os religiosos sempre é no momento da concepção. Ai acho que o “espírito científico” do autor entra em cena e nos coloca a questão dos gêmeos idênticos (que eu aprendi na escola se chamarem de gêmeos univitelinos), aqueles que nascem de um só espermatozoide e de um só óvulo que, por alguma causa até hoje não identificada (milagre ?) se dividem em dois e dessas duas células iniciais cada um vai para seu lado dando origem a duas vidas, dois embriões distintos, com sequências de DNA idênticas. (A vida humana começa com a concepção ? , página 252). Ai ele mesmo dá um nó nos teólogos e lança essa intrigante questão: de fato no caso desses gêmeos a natureza espiritual de uma pessoa não é definida exclusivamente no exato momento da concepção ! (palavras dele, com as quais qualquer um concorda).

No Apêndice do livro ele lança questões polêmicas sobre a ética e biologia, a Bioética. Aborda inclusive a clonagem e outros mecanismos de manipulação genética, sempre observando aspectos da ciência e da fé.

Recomendo fortemente esse livro, a crentes e a ateus indistintamente !

Anúncios

2 Comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Boa essa sua recomendação do livro, caro Zé Rosa. Melhor ainda a sua rica análise. Parabéns!

  2. Valeu amigo Dattoli. Tem várias outras passagens que mereceriam comentários, mas vou deixar para quem for ler o livro. Uma em que o autor narra sua experiência como médico na África e outra em que ele se refere ao seu encontro com Deus, numa cachoeira de um estado sulino norte-americano são também dignas de nota. O difícil é encontrar esse livro para comprar. Ele me foi presenteado por um grande amigo do cearazim: Suderland ! Abs.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: