Dois em um neste domingo

08/01/2017 às 6:04 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Difícil encontrar hoje quem escreva bem, em jornal inclusive. Nesse começo de ano seguem dois bons artigos, um de Walter Queiroz e outro de Jânio Ferreira, ambos visitam esse espaço de vez em quando. Confiram.


Fábula civil  walter-queiroz_thumb

DEspontando de um antiquíssimo sono, o gigante das Américas espreguiça-se no seu berço esplêndido. Acariciado pela ainda adorável brisa vinda do seu mar e chupando uma deliciosa manga rosa, por sinal a última daquele pé, aos poucos foi dando-se conta da formidável predação secular que sofrera.

Considerava natural a transmutação do rural em urbano, das selvas em cidades, mas nunca com a devastação que dolorosamente, estava a constatar: o universo verde acuado pelo cimento empreendedor, fenecendo com seus passarinhos e borboletas, as fontes urbanas de água doce virando esgotos a céu aberto e no ar, outrora de lindas e variadas espécies, agora somente urubus!

Em lugar das alegres tribos indígenas com seus colares e flechas, seus cantos e danças, uma multidão de seres apressados, carro pra tudo quanto é lado e nos antigos terreiros onde irmãos de variadas cores, uma etnia fundada pela comunhão existencial e telúrica, riam, pescavam, sambavam e amavam, mesa farta para todos deu lugar a uma comunidade
tensa e medrosa, com suas graves diferenças sociais e adoradores de um aparelhinho que todos têm nas mãos, tido como imprescindível para o penoso trabalho de cada dia, mas também com uma enorme contribuição para a alienação e futilidade.
Atônito, Brasil, levanta o seu olhar para as suas serras, chapadas, ilhas, mares, cerrados, particularmente a região amazônica, e chora! Não acredita no que vê, o tamanho do desmatamento, a crescente desolação! Dentre seus sítios prediletos sempre distinguira a Bahia e deplora saber que não há mais serenatas n Abaeté, o glorioso E. C. Ypiranga (Alô, Galdino Leite!) luta para sobreviver. Não há mais sorvete de catimplora, o abará correndo risco de ser vendido fora da folha de bananeira, o carnaval subjugado pelo vil metal.

Os grandes médicos como Manoel Nogueira, Estácio Gonzaga, Jorge Novis, Wenceslau Pires da Veiga, Ozanah de Oliveira deram lugar a máquinas que vasculham, proficientemente, todo o corpo mas não conseguem desvendar segredos da alma dos pacientes e curá-los pela
confiança terapêutica.

O gigante verde-amarelo, então, à beira de um de um ataque de nervos, não entende porque tanta buzina e tem saudades do bonde, mais ainda quando ele “tocava pra Lapinha”, e da cachaça “Adeus meu pai”, do bar Acapulco. Toma um chá de erva cidreira, deita numa rede e tem um sonho encantador! Glauber Rocha, Jorge Amado, Anísio Teixeira, Mãe Menininha, João Ubaldo, Castro Alves, Maria Quitéria, Antonio Conselheiro, entre centenas de baianos ilustres, chegam cantando, abraçados, o hino do Senhor do Bonfim! Adeus, Waldir Pinho Figueredo. Que bela vida, vá com Deus!

(Walter Queiroz Jr. -Advogado, poeta, compositor, membro da Confraria dos Saberes)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 07.01.2019


Querido 2017   janio_thumb

Como este é o meu primeiro texto sob sua jurisdição, gostaria de me apresentar. Eu sou um ribeirinho que há 58 ancestrais seus chegou por essas bandas pesando menos de 2 quilos e com uma previsão nada favorável de um dia subir nas goiabeiras do meu quintal e depois cair de flecha no rio que corria perto.

Mirrado que nem um grilo, só quando já gafanhoto me contaram que alguns parentes me olhavam com um misto de pena e conformismo e faziam um bilu-bilu no meu queixo mais como um “vai com Deus!”, do que com a intenção de obter um sorriso de quem não tinha
nenhum ânimo para dá-lo. Mas aí, talvez pelos unguentos no peito e pactos entre Cecília e seu Santo Antônio de tantas cumplicidades, fui dormir anjinho e hoje estou este velho bandoleiro que a cada 15 luas sai campeando madrugadas atrás de palavras que, com jeitinho e paciência, primeiro viram ideias; em seguida, linhas; e, por fim, recebem um ponto parágrafo decretando que chegou a hora de soltar o laço e seguir em frente.

Caso pedras não rolem em meu caminho e não haja nenhuma tentativa de golpe para antecipar 2018 – como se a solução dos nossos problemas fosse uma questão de par ou ímpar, azul ou encarnado ou de petralha ou coxinha –, quinzenalmente estarei por essas quebradas falando de brotos e coisas assim, de banhos de Lua, de ti e de mim, um cara por demais sentimental que gosta de citar letras de músicas sem identificar suas procedências não para roubá-las de seus autores, que filho do tenente Zé da Silva não se presta a esse serviço. Geralmente não as nomeio porque gosto de atiçar a memória de quem as lê a ir buscá-las lá no sleeping bag onde repousam o espinho da rosa que feriu Zé e o sorvete que
gelou seu coração.

Não sei se antes de assumir você teve algum tipo de orientação sobre as peculiaridades do nosso país, principalmente do idiotismo geral que anda imperando por essas paragens, cada vez mais amplificado por poderosas redes sociais criando ídolos a granel.

A propósito, quando você tiver um tempinho leia o texto que João Pereira Coutinho escreveu sobre o assunto na Folha de São Paulo. Ele nos lembra que podemos imaginar o mundo com mil possibilidades tecnológicas, mas não devemos esquecer de que quem vai alimentá-las somos nós e nosso velho primitivismo, formado, entre outras coisas, por sentimentos como a inveja, o medo, o ciúme e a vergonha, e que isso prevalecerá em qualquer cenário. Afinal, conclui ele, macacos com melhores Smartphones nunca deixarão de ser macacos. Apenas ficarão mais patéticos ou perigosos.

Agora me dê licença que eu vou ver um vídeo de Thammy Gretchen e Luciano Huck completamente nus, dançando lambada. Claro que é montagem. Mas tem gente que jura que estava no baile. Boa sorte e oremos.

Janio Ferreira Soares (Secretário de Cultura e Esportes de Paulo Afonso)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 07.01.2019

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