Gregório Mendes

09/03/2017 às 3:28 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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De todos os contos que aqui publiquei do amigo Davi Romboli, esse não só é o maior mas o melhor, para mim o mais criativo de todos. Seria o embrião de um romance ? Acredito que sim. Coincidentemente acabei de reler o MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS onde o Machadinho coloca no meio e depois até o final o filósofo Quincas Borba, excelente. Nesse conto o autor também cita o Borba várias vezes. Parabéns Davi !

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Gregório Mendes

Gregório Mendes perdeu em definitivo a razão no dia 20 de abril de 2010 após ver um porco voador bater em um tanque de guerra em plena Rua da Consolação. Entretanto Gregório ganhou uma amiga muito mais extravagante e fraterna que o acompanharia por toda a vida: a Sandice. E de fato ele pensava ter consigo uma mulher com esse nome; apaixonou-se e até pleiteou no tribunal um casamento. E tudo isto em apenas poucos segundos, por fim conformou-se com a irrealidade da amada, do juiz e da petição e a deixou de amar.
Gregório Mendes recuperou a razão temporariamente no dia 20 de abril de 2010 após ficar dez minutos em um congestionamento e adormecer de olhos abertos, perdeu pois o ponto de descida e teve que correr ao trabalho, deixando suas fantasias e sonhos dormindo no banco pronta para pegar o próximo notívago sonolento. Já a Sandice ficou a conversar na Praça Ramos com um mendigo que jurava descender ora de Sócrates ora de Villa-Lobos ora de Paulinho do bar da esquina que tinha metade de sua idade. O papo tava bom que ela não percebeu que o amigo se distanciava rapidamente ou, mais provável, percebeu e ficou com preguiça de ir atrás, pois sabia que eles não tardariam a se encontrar – ou então não sabia nada e só tava com preguiça mesmo.
Sandice impressionou-se mesmo com a maestria lógica do mendigo. E o elogiou:
– Mas mendigo como sua lógica é mestra! Como você é inteligente. Como você é sábio. Como você é esperto. Como você fede. Já pensou em sair andando pra dissipar o fedor?
E assim teve início a famosa jornada do filósofo Borbas Quinca, esta jornada e seu retorno impactante sobre a sociedade é retratado na obra Assim Falou Borbas Quinca, e o autor por ser ignorante ignorou as relações do grande filósofo com nosso querido protagonista e sua ex-amada. Expôs um falso motivo para a inspiração que levou o homem de mendigo, que apesar das misérias já apresentava a notável genialidade, ao homem mais sábio senão da história ao menos do século, senão do século ao menos daquela esquina.
Atrasado, Gregório ouviu um monólogo do Chefe. Mais calmo, já na mesa vendo pilhas de papéis acumulados, resolveu descansar e lembrar-se dos efeitos curiosos da manhã. Mas logo Sandice chegou, foi até a mesa de trabalho e sentou-se nela dizendo enquanto cruzava as pernas:
– Pensou que poderia escapar?
Ou talvez tenha dito:
– Caramba moço, você anda depressa.
Ou quem sabe reclamando:
– Nem pra me esperar! Você deveria ter conhecido o Borbas. Que sujeito!
O caso é que Gregório não prestou atenção, pois tentava ver se conseguia ver alguma coisa sob as penas cruzadas da mulher. Conseguiu e não conseguiu. No meio delas havia um aparelho televisor que transmitia o jogo do Curíntia e do Parmera, este estava muito parado, o juiz marcava faltas em qualquer lance de trombada. Cansou então e concluiu que ela estava menstruada ou com diarréia.
Nisso o Chefe lembrou-se de manter sua imagem, inspecionou o nariz com o dedo, inspecionou a bunda da secretária, inspecionou o decote da estagiária, inspecionou o furúnculo entre as costas e a bunda, inspecionou o telefone, ficou dez minutinhos num interurbano, inspecionou a mesa, limpou uns papéis dela, inspecionou a mesa de Gregório e jogou-os nela.
– Vagabundo! Tome e vá fazer alguma coisa.
Gregório não se levantou e não foi à mesa do Chefe não gritando com ele e não o mandou comer favas. Ao contrário comeu ele mesmo as favas, e deu sorte de encontrá-las ali mesmo com Sandice, ela as havia comprado do Cavalo Branco de Napoleão por um preço bem em conta porque ele as temia envenenadas enquanto estávamos distraídos com a bronca em Gregório. Agradeceu o cavalo e mandou lembranças ao baixinho, reclamou que há muito ele não fazia um telefonema, aquele ingrato.
E não é que Sandice continua aprontando das delas. Enquanto eu relia todo o texto, ela saltou dele, me chamou de lado pra ninguém ouvir e disse: “Sabe, até que você me agrada. E tem o poder, gosto disso. Tudo que você diz eu faço, tudo o que você disser eu farei. É só um mover de lápis e eu ganho na loteria. Então poderíamos fugir e esquecer o Gregório. Só você, Davi, e eu, Sandice, felizes num paraíso tropical, ou nas montanhas geladas como você preferir…”. Eu vislumbrei o pouco de minha razão no dia 17 de agosto de 2010, após me ver tentado por uma mulher manipuladora que apesar de não existir intentou me tirar a determinação de escrever. Mas isso não importa. E ela conseguiu o que queria, me distraiu para que eu não visse a saída furtiva de Gregório do trabalho, talvez por medo que o Chefe descobrisse, ou para atrapalhar a narração das desventuras do casal, ou ainda – embora não creia – quisesse o dinheiro, e quem sabe, a fuga… Ó doce Sandice não me tome por cruel, não me culpe. Mas não tente se interpor entre a Literatura e eu, não vou abandoná-la por novas ilusões. Sim, pois muito do que há em si há na sua prima Literatura. Basta! Continua a me distrair para que esqueça a estória. Pois eu me vingo.
Sandice tropeçou e caiu de boca na quina do parapeito do Viaduto do Chá, enquanto tentava alcançar Gregório que cansada de esperá-la resolveu almoçar sozinho. Levantou-se e me mandou à merda, mas eu não fui porque quem manda aqui sou eu! Entendeu? Sou Eu! Gregório já mordia o segundo pastel quando ela o encontrou. Não havia dito, mas saibam que Sandice é uma dessas jovens madames francesas – não essas velhas com toxinas na testa; mas ao estilo antigo, dos romances de Flaubert – meio enjoadas, meio modernas, meio nada. Ela então enjoada com o cheiro do óleo não quis um pastel, depois não quis nenhum salgado, e não tinha fome para comida, queria e queria um éclair au chocolat. Resignado foram subindo e subindo a Consolação, mas ninguém conhecia, ninguém tinha, e não me refiro ao grande Ninguém – ele não tem nada a ver com esta estória. Subindo e subindo. Pararam no Cemitério, a Morte que estava sentada cortando as unhas do pé sobre um túmulo recém-fechado, batendo um papo com o Morto ou talvez com os Vermes que começavam a disputar a licitação para o novo terreno arrendado, a interpelou:
– Minha amiga Sandice! Traz um novo amigo para mim e para os Vermes?
O Morto protestou:
– Mal chego e já quer me trocar por outro! Ingrata, se soubesse não teria vindo.
Irritada, nossa amiga demonstrou que apesar de malandra, safada, corrupta, descarada, insolente tem caráter e num pulo encaixou a bola nos braços, sem tomar frango, sem espalmar pra escanteio:
– Este você não toca, este você não me tira.
Sensibilizado com a defesa de Sandice, Gregório prometeu não descansar enquanto não encontrasse o éclair au chocolat. E seguiram rumo aos Jardins. Mas Sandice não quis, sabia que lá haveria abundantes cocôs de cachorros que madames (essas sim velhas de toxina na testa!) não recolheram dos seus cuti-cutis filhotinhos da mamãe. Desse modo mantiveram distância do outro lado da Avenida Paulista, e nesta encontraram o tal do éclair que era apenas uma bomba de chocolate, e não a atendente ruiva chamada Claire.
– Eita, uma bomba de chocolate. Me fez andar tudo por uma bomba de chocolate!
Mais uma vez irritada, tanto pela reprimenda quando pela atenção de Gregório em Claire, fez a bomba de chocolate explodir dentro da calça da moça que saiu correndo ao banheiro envergonhada. Os dois saíram reclamando:
– Ciumenta.
– Corno. (E piscou para mim lembrando-se da loteria.)
Um cheiro impregnou toda a atmosfera, um cheiro que só Sandice podia sentir. Um misto de titica de pombo com o tártaro da boca de Borbas e um parfum de folhas de capim processadas no estômago dos bovinos, tecnologia de Paris. E esse cheiro vinha do Ibirapuera. Sandice logo percebeu que ele era produto da queima de idéias em uma discussão entre Borbas Quinca e seu ex-namorado, Eurico Madalena. Perdão Sandice, mas eu devo contar sobre o Eurico.
Nos idos da Segunda Guerra Mundial, Eurico, um jovem soldado do Terceiro Reich, conheceu uma jovem francesa de nome Sandice e perdidos no caos se apaixonaram. Porém Eurico era um homem convicto, nunca negaria ao Führer, nem por dinheiro, nem por amor; vislumbrava um futuro inda maior: Seu Líder governaria pelos séculos e pelas galáxias, pois conhecia a verdade oculta. Os alienígenas o haviam mandado para preparar o caminho para a nova humanidade. Sandice entretanto ainda não tinha calos no coração, e com grande pesar traiu sua pátria. E traição sucedeu traição, e através do incorruptível Eurico, que passou a freqüentar um psiquiatra e notou que a guerra acabara há mais de cinqüenta anos – mas que Hitler está vivo está; e em breve seu exército irromperá pela Terra. Sandice foi banida e conseguiu asilo no Brasil, e eis o porquê do ceticismo dos franceses.
O Grande Embate, como ficou conhecido o diálogo entre Eurico e Borbas, deu-se na Praça da Paz reunindo em torno das duas magnânimas figuras três mendigos, dois ladrões, seis distraídos, dois transeuntes e quatro curiosos. Este o primeiro grande feito do filósofo após seu chamado e último antes de sua viagem pela América. O conteúdo do diálogo ainda permanece como um dos maiores mistérios a respeito da vida e obra do filósofo brasileiro, apesar de recentes estudos e descobertas que podem iluminar o caso.
Logo na entrada do Parque, Gregório se distraiu com os complementos de uma corredora, e não viu o poodle que se aproximava e aproximava até pisar no seu dedão encravado. Assim mancou o resto no caminho, e só chegaram a tempo da última frase de Borbas Quinca:
– Uma palavrinha por uma cachacinha!
– Aeeeeeê! – todos gritaram aclamando-o vencedor.
Gregório roncava em um dos bancos enquanto Sandice se despedia de Borbas:
– Vá logo e vá para a Argentina que você está fedendo a merda!
E rever Eurico:
– Você… Como tem passado?… Ouvi dizer que se casou com a Razão?
– Pois é. Quanto tempo… Que tal sairmos um dia desses? Pra lembrar os velhos tempos…
– Num vem que não tem! Esse não tem jeito mesmo. – pensou.
Eurico tomou umas cápsulas e saiu pela tangente, rumo a um lugar onde nem senos nem cossenos jamais pisarão. Sandice acordou o amigo, satisfeita por ele não ter ouvido a conversa. Aproximaram-se da uma árvore, Sandice bateu no tronco, não havendo resposta, abriu a casca e ambos entraram na árvore, saindo da mesma forma pelo outro lado, e – incrível – estavam de volta à Avenida Paulista em meio ao Parque Trianon. É tão incrível que eu não creio. Talvez tenham entrado no banheiro puxado a descarga e saído no banheiro do Trianon. Ou subiram de ônibus mesmo já que Sandice é uma mentirosa. O mais curioso: já caminhando na calçada, depararam-se com um jovem que após cruzar a rua jogou uma bituca de cigarro no chão e pisando-a a apagou. Gregório pisou-a novamente a reascendendo. Sandice então pegou o cigarro e o levou a boca fumando como madame francesa que é.
Dois passantes exclamaram:
– Esse sol hoje tá de matar!
– Bem que podia chover hoje.
O Sol fitava com ódio todos aqueles que gratuitamente tiravam sua energia sem nem ao menos agradecer. Raiva pela adoração há muito finda. Sandice olhou feio para ele que envergonhado se escondeu entre nuvens. Chamou então pela Chuva, mas ela se negou a aparecer, a muito custo falou:
– Hoje não saio. Cansei desses ingratos loucos. Se venho querem que eu vá, se vou querem que volte. Tão é de sacanagem!
Quando perceberam estavam diante de Macunaíma e seus dois irmãos que acampavam em frente a uma mansão na rua Maranhão. E a mansão era de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de gente. Logo que o imperador do mato viu Sandice adiantou-se:
– Mani! Mani! filhinha da mandioca…! Vamos brincar? – já a agarrando pelo braço.
– Saí, praga! Pra lá ô coisa ruim! Vá pro Cafundó do Judas procurar suas amigas.
E ele disse que não ia não porque tinha que recuperar a pedra muiraquitã do gigante Piaimã comedor de gente, e ficou matutando um jeito de se vingar dela. Mas não conseguiu já que o gigante surgiu com seu canto:
– Ogoró! Ogoró! Ogoró! Comer índio Macunaíma é melhor que comer jiló!
Os irmãos então se esconderam e não sei mais o que ocorreu. Os dois fugiram dali que ficar pra macarronada do gigante não é bom não.
E cansado da andança Gregório enfim sai do torpor que o emuderecera.
– San. Vamos embora, preciso descansar.
– Não, é muito cedo ainda. Que tal um cinema? Ou mais uma caminhada por aí, de repente me deu vontade de outro eclair, mas de outro lugar.
– Você está louca, Sandice?
– Para que tanta pressa?
– Esse meu dedo está me matando, já andamos demais. Vamos meu bem…
E no meio da discussão um garotinho meio retardado com uma câmera fotográfica captou a imagem de outro retardado que gesticulava ao nada. E quando revelada se surpreendeu com a imagem de uma mulher elegante a qual ele tinha certeza que não estava lá. O caso foi de amor à primeira vista. E o pequeno besta – como era carinhosamente apelidado pela mãe – passou a tirar fotos e mais fotos na esperança de rever Sandice. Tornou-se um artista famoso, admirado por todos os entendedores de adulações. Cinqüenta anos mais tarde em uma exposição das fotos de infância que já continham o chamado do grande gênio, algo inesperado ocorreu. Daquela foto dos nossos amigos um rasgo surgiu, rompendo também o tempo e espaço do momento onde a foto foi batida. E em meio ao limbo eterno sem forma nem compasso, interrompendo a discussão o gigante Tempo bradou:
– Então tem pressa, meu caro Gregório?
E com sua voz retumbante tossia e escarrava.
– Pressa de tudo na vida, Gregório? Quer que o amanhã chegue logo?
E tambores retumbavam, e pandeiros pagodeavam. É o Netinho, gente! Um pagodinho com cerveja pra cata a mulherada na serra de Copacabana…
– Pois então concedo seu desejo, Gregório! – risos e escarros.
Uma sala branca muito iluminada. Decrépito, Gregório repousava no leito. Surdo de nariz, cego de cabelos, corcunda nos testículos, ele ouvia os tímidos prantos de Sandice. A enfermeira disse que não passaria de hoje.
– Ó meu querido Gregório.
– Quem Sandice? Conheço o Tenório não.
– Eu disse Gregório. Gregório.
– Simplório? É bem simples, mas gosto daqui.
– Você gosta é da enfermeira velho surdo!
– Quê? Uma brotoeja no fundo? Chame a Enfermeira então.
Na serra de Copacabana, na serra de Copacabana, sim! Reboladinha, ai! Uma sambadinha, ui! Na serra de Copacabana. Na serra de Copacabana.
– Ah eu te mato! Idiota! Safado! Gregório? Senhor? Senhor? Moço?


.. .
. ..
. . .
. .. .. . . …

– Ei, moço! Este é o ponto final.
E Gregório ainda atordoado desceu do ônibus. Sandice do lado de fora o esperava, não imaginou que tudo acabaria assim tão fácil.

E o autor inda mais atordoado desceu do ônibus com uma estória, um sonho na cabeça e a vida quotidiana a chamá-lo.

(Davi Romboli)

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