É normal ?

13/04/2017 às 11:01 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente artigo ! NÃO, não é normal o que estamos presenciando neste país nos últimos tempos !

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Está tudo normal. Né?

O mais desesperador não é assistir a isso tudo: é o fato de que a vida segue em frente, como se só pudesse ser assim mesmo

 

O mais desesperador não é assistir a isso tudo: é o fato de que a vida segue em frente, como se só pudesse ser assim mesmo Era para ser o ponto culminante do drama que conflagrou o Brasil inteiro ao longo dos últimos dois anos, rompendo famílias, exterminando relações, espalhando ódio, depressão e ansiedade por toda a nação. Finalmente, esta semana, chegou a hora do Tribunal Superior Eleitoral julgar se a chapa Dilma-Temer conquistou o poder de maneira criminosa, e portanto merece ter a eleição anulada.

Mas não saiu como se esperava. O anticlímax dos últimos dias foi aterrador.

De um lado, o PSDB, que se posicionou ao longo da crise toda como inimigo da corrupção e defensor de princípios, autor da ação que estava sendo julgada, perdeu totalmente o interesse no assunto. Seu líder histórico, FHC, defendeu o deixa-disso numa declaração na qual afirmou que a cassação seria muita “confusão”.

Já o PT, que há quase um ano vem gritando “golpe”, está nitidamente trabalhando para salvar Michel “Fora” Temer da cassação (de maneira a salvar Dilma também). Seus advogados estão enrolando, ao pedir prazo com a intenção óbvia de ganhar tempo, de maneira a permitir que o presidente, seu inimigo declarado, indique juízes mais simpáticos à sua causa.

Ok, é assim a vida real. Os partidos estão fazendo cálculos políticos e nenhum deles parece muito interessado em derrubar Temer agora – preferem deixá-lo arcando sozinho com sua impopularidade abismal, enquanto se preparam para lançar candidatos à sua sucessão, em 2018. Não importa que Temer tenha se revelado corrupto e incompetente – melhor assim, até, não terão que disputar contra um candidato popular tentando reeleição.

Não importa que agir dessa maneira destrua as narrativas que os dois lados vêm construindo há meses: então o PT apoia o golpe e o PSDB nem liga tanto assim para a corrupção? Não importa que 90% do Brasil ache que o país esteja no rumo errado, que a aprovação de Temer se aproxime do nível mais baixo da história desta nação, que a maior parte da população ache que ele é pior que Dilma. Não importa que Temer, enquanto não cai, siga tomando decisões cujas consequências impactarão nossas vidas por décadas. Não importa sequer que as provas para cassá-lo sejam abundantes e muito difíceis de contestar. É assim que é porque é assim que é porque é assim que é.

Para mim, o mais desesperador não é assistir a isso tudo: é perceber como a vida segue impávida seu rumo, como se não fosse nada demais. Perceber como tanta gente que se envolveu em brigas apaixonadas por causa de política, apontando dedos acusatórios contra os adversários, está disposta a tolerar a incoerência de seu próprio grupo político, como se nada de estranho estivesse acontecendo. O pior não é a loucura desvairada que estamos vivendo: é a sensação de normalidade que a acompanha. O rei está completamente nu e seguimos elogiando o bom gosto de seu alfaiate.

Aí eu me lembro que, nesta mesma semana, uma menina de 13 anos, cheia de potencial, morreu atravessada por três balas, na quadra esportiva de sua escola, num subúrbio do Rio, e que os tiros foram disparados por policiais, que se “defenderam” dizendo que só estavam executando uns traficantes. E que, ainda assim, a vida seguiu, normal. E me ocorre que algo muito mais sério e profundo e difundido e doentio está acontecendo com todos nós.

No final do ano passado, dois pesquisadores do departamento de psicologia da Universidade Yale publicaram um estudo que ajuda a entender o fenômeno. Os cientistas estudaram como ocorre o processo de “normalização” de algo. O que eles descobriram é ao mesmo tempo surpreendente e assustador: eles perceberam que nosso cérebro tem uma espécie de bug. Tendemos a confundir o que é “normal” com o que é “certo”, ou mesmo “ideal”. Se vemos algo acontecer com muita frequência, acabamos acreditando que esse comportamento é aceitável.

Então, não surpreende que num país como o nosso, onde histórias de corrupção política e violência policial são corriqueiras, a população acabe acreditando que essas coisas são ok, positivas até. E que veja com desconfiança pessoas que escapam dessa narrativa. Políticos que defendem mudanças profundas no sistema político ou que denunciam os ataques aos direitos humanos acabam sofrendo enorme rejeição, porque são vistos como “anormais”. Marcelo Freixo, um dos únicos capazes de enfrentar a máfia que dominou o Estado brasileiro, arriscando sua vida por isso, acaba ganhando fama de proteger bandidos: o exato oposto do que ele faz. Tampouco surpreende que esta nossa época turbulenta, dominada pelo ritmo de escândalos diários imposto pelas redes sociais, acabe deturpando a democracia a favor de políticos capazes de atos ultrajantes. Beócios como Trump ou Bolsonaro, obviamente incapazes de assumir qualquer responsabilidade séria, acabam se viabilizando pela “normalização” da ideia de que um político é um canalha truculento.

Aliás, vale a pena assistir ao terrível (e longo) documentário “HyperNormalisation”, produzido pela BBC, que conta a história de como, ao longo das últimas quatro décadas, a humanidade normalizou a ideia de que a política é incapaz de mudar o mundo, acostumando todos nós a todo tipo de atrocidade. O filme define assim a hipernormalização: “você é tão parte do sistema que se torna impossível enxergar além dele”. Todos sabemos que os políticos estão mentindo, mas aceitamos acreditar neles porque não conseguimos ver nenhuma alternativa.

Fácil ficar pessimista diante desse quadro. Mas há também sinais que trazem algum alento. Veja por exemplo o desfecho da outra história que dominou as conversas desta semana: o abuso sexual cometido pelo ator José Mayer contra a figurinista Susllen Tonani, durante a gravação de uma novela da Globo. Após uma tentativa inicial de Mayer e da Globo de normalizar o fato, o galã sofreu tanta pressão que acabou se confessando culpado. Escreveu uma carta na qual assumia que “brincadeiras” ofensivas de cunho sexual não são normais: “espero que este meu reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar”.

Muita gente se incomodou com a tentativa de Mayer de compartilhar a culpa da violência que cometia rotineiramente com sua geração inteira. É injusto, claro: muita gente da idade dele, provavelmente a maioria, jamais abusou de ninguém. Mas é verdade sim que Mayer cresceu num mundo que se acostumou a achar normal que um galã global rico e poderoso imponha sua vontade a uma moça jovem e desconhecida. Aliás, não é só a geração dele: isso era normal até anteontem. Eu, que sou um quarto de século mais novo que ele, ouvi muitas histórias de violência sexual – às vezes contadas às gargalhadas em rodinhas em festas corporativas (ambientes de poder são especialmente propícios a abusos). Era tão normal que eu ria amarelo e mudava de rodinha, em vez de fazer o que eu deveria ter feito, que é chamar a polícia.

Mas, para a desgraça de Mayer, isso mudou de repente – nos últimos três ou quatro anos. As mesmas redes sociais usadas para normalizar canalhices e violências têm sido veículo para vítimas contarem histórias que até então eram silenciadas. Os pesquisadores de Yale falam sobre isso em sua pesquisa: não é tão difícil assim desnormalizar o que antes era normal. Às vezes basta ouvir uma história para que algo que nos parecia perfeitamente aceitável revele-se uma atrocidade.

Por isso, é importante sempre se lembrar que essas coisas não são normais. Não é normal que um figurão rico abuse sexualmente de jovens iniciantes. Não é normal que políticos moldem seus discursos ao sabor das conveniências. Não é normal que policiais executem sumariamente pessoas – sejam elas adolescentes talentosas ou traficantes do morro. Não é normal que um tribunal pago para fazer cumprir as regras eleitorais feche os olhos para trapaceiros. Não é normal que um desses trapaceiros se aproveite da podridão dos partidos e da omissão da Justiça para impor sua vontade a gerações de brasileiros. Não podemos parar de repetir: não é normal. Porque, se pararmos, corremos o risco de acordar de manhã achando tudo isso não apenas normal, mas inevitável.

(Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010. Escreve semanalmente, às sextas-feiras, sobre a vida e suas complexidades.)

FONTE: https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2017/Est%C3%A1-tudo-normal.-N%C3%A9

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