Wanderléa

15/05/2017 às 11:52 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Veríssimo, sempre genial !


Wanderléa  verissimo

Há dias li a notícia de uma investigação envolvendo o Paulo Maluf e fui tomado por uma emoção parecida com a que senti ao descobrir que a Wanderléa está viva, ainda cantando e bonitinha como nos tempos da Jovem Guarda, lembra? Uma sensação de surpresa seguida de nostalgia e, confesso, até um certo enternecimento.

O velho Maluf, que o mundo parecia ter esquecido, ainda vivo, ativo — e solto. Deu saudade do tempo em que ele era uma espécie de corrupto oficial do Brasil, o suspeito de sempre, que inocentava toda a classe política nacional pelo contraste.

Ninguém era tão corrupto quanto ele. E como sua corrupção mais do que provada nunca deu cadeia e tornou-se até folclórica, ele também representava a tolerância histórica, o deixapralaísmo e o roubamasfazismo do brasileiro com a corrupção, até virem os tempos de Moro.

E houve uma reversão: antes Maluf inocentava os outros políticos porque nenhum conseguiria concentrar tanta corrupção quanto ele, hoje é tanta a corrupção revelada e generalizada que Maluf, pelo contraste, parece um amador.

Não sei o que está sendo investigado do Maluf, agora. Fiquei tão tocado com a descoberta de que ele, como a Wanderléa, ainda existe que não prestei atenção no resto da notícia. Parece que a investigação atual nada tem a ver com a inquisição de Curitiba. Espantosamente, a operação Lava-Jato não se interessou pelo passado e pelas contas do Maluf, que deve estar se sentindo desprezado. E, decididamente, ultrapassado.

Cabelos

Planejando o assassinato de Júlio César, na peça de Shakespeare, os conspiradores discutem se devem ou não incluir Cícero no grupo. Um deles opina que os cabelos brancos de Cícero “nos trarão uma boa opinião, e comprarão a voz dos homens a nosso favor”.

Pensei no Lula, que deve a respeitabilidade que lhe permitiu ser eleito em 2002 em parte à sua barba branca, diferente da barba negra sindicalista que assustava tanta gente. Há quem diga que foi a carta apaziguadora aos brasileiros que elegeu Lula pela primeira vez, outros dizem que foi o fastio com o governo Fernando Henrique. Eu sustento que foi a barba branca.

Se deixarem o Lula ser candidato de novo em 2018, ele precisará, acima de qualquer outro requisito, de ainda mais cabelos brancos como os de Cícero.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, ontem.

A hora de a onça beber água

15/05/2017 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Uma excelente lembrança, em tempos de um povo desmemoriado. Obrigado mais uma vez ao Professor de História da UFBA Carlos Zacarias de Sena Júnior por seus artigos tão lúcidos.

OS TRÊS ESTÁGIOS DA DÚVIDA

 

…parece óbvio que o ódio ao PT não pode ser explicado apenas pela corrupção. Antes de condenarem Lula pelos eventuais malfeitos que tenha cometido, a imprensa, os juízes e toda a “gente de bem” que insiste em vestir a camisa da CBF/Nike para protestar contra o PT, antecipadamente já o condenaram por ser o Lula que fala para o povo, mobiliza os sem-terra, os sem-teto e uma parte importante da classe trabalhadora.


A hora de a onça beber água

Foi citando o ditado popular que dá título a este artigo que Lula foi investigado por uma auditoria militar no Acre em 1981. O assunto, que foi tema da matéria publicada no portal UOL da última quarta-feira, recuperou o inquérito aberto a partir das acusações feitas pelo presidente da Federação da Agricultura do Acre, Francisco de Araújo, que apontou o então sindicalista como promotor de “incitamento à luta armada”, “apologia à vingança” e à violência entre as classes sociais. A situação foi registrada na cidade de Basileia, para onde Lula havia ido após o assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da
cidade, também presidente municipal do PT, Wilson Pinheiro. O adágio citado por Lula na assembleia de trabalhadores rurais teria soado como uma ameaça e uma incitação à violência, haja vista que no dia seguinte, como ato de vingança, os trabalhadores executaram o suposto assassino, o capataz Nilo de Oliveira.

A lembrança do ocorrido há 36 anos é oportuna tendo em vista o circo armado em Curitiba para o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro. Mesmo sem haver uma relação direta entre um fato e outro, não há dúvidas de que o temor e o ódio que Lula e o PT despertam vem de longe e permanece inscrito em nosso imaginário político. Vem do tempo em que o sapo barbudo liderava greves que movimentavam milhares de trabalhadores e ameaçavam os pilares da ditadura. Entretanto, tanto ali como aqui, há uma evidente desproporção entre a realidade e a fantasia, algo causado por uma espécie de medo inscrito no íntimo de uma
mentalidade primitiva que desconhece a realidade. O recrudescimento do ódio ao PT nos últimos tempos ganha dimensões de irracionalidade só possível em períodos e em sociedades em que variadas espécies de macarthismo vicejaram.

Em verdade, longe de ser incendiário, Lula foi sempre um obsessivo conciliador dos inevitáveis atritos que a luta de classes promove e que, ocasionalmente, ganha dimensões explosivas num país com brutais níveis de desigualdades como o Brasil. Portanto parece óbvio que o ódio ao PT não pode ser explicado apenas pela corrupção. Antes de condenarem Lula pelos eventuais malfeitos que tenha cometido, a imprensa, os juízes e toda a “gente de bem” que insiste em vestir a camisa da CBF/Nike para protestar contra o PT, antecipadamente já o condenaram por ser o Lula que fala para o povo, mobiliza os sem-terra, os sem-teto e uma parte importante da classe trabalhadora.

Não estou entre aqueles que acreditam que Lula é uma ameaça ao status quo como pensam seus aparvalhados acusadores, nem acredito que Lula venha a cumprir qualquer papel de protagonismo nas transformações estruturais que o país precisa. Todavia, não é possível descrer da força das ideias na história, até porque, como diria Marx, a humanidade só se coloca problemas que é capaz de resolver.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 12.05.2017

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