Ariano Suassuna, Jerry Adriani e Teté Zarôio

23/05/2017 às 3:33 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira Soares, novamente uma bela crônica. Confiram !


Ariano Suassuna, Jerry Adriani e Teté Zarôio janio_thumb

Quando alguém me pergunta se te­nho WhatsApp e digo: “Não, não tenho, , mas se você quiser me dizer algo é só ligar”, o espanto de quem indaga ne faz lembrar daquela história contada por Ariano Suassuna acontecida num jantar grã-fino no Rio de Janeiro, logo após sua posse na Academia Brasileira de Letras.

Dizia o velho bardo – com sua voz de quem fala de dentro de um pote sem água – que estava sentado numa enorme mesa com uma fome danada (até aquele instante só tinham lhe servido uns salgadinhos com gosto de coco-catolé) quando, a certa altura de um papo chatíssimo, a anfitriã lhe perguntou, quase afirmando: “Naturalmente o senhor já foi à Dísney, não?”.

Sua tímida confissão de que nunca saíra nem do Brasil foi o bastante para transformá-Io numa espécie de ET diante dos convidados, mais ou menos como alguns me acham por não fazer parte dos que vivem a receber correntes do bem e textos atribuídos a Clarice Líspector, coitada, que nessas horas deve gastar seu charmoso sotaque ucraniano lá do além só para xingar os que curtem pérolas  como: “Gosto dos venenos mais. lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das ideias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes. Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: – e daí? EU ADORO VOAR!”.

Mudando de assunto, no final da semana passada, no feriado de 21 de abril, aconteceu o Moto Paulo Afonso 2017, um dos maiores encontros de motociclistas do Nordeste.

Uns dias antes fiz contato com o empresário de Jerry Adriani e acertamos uma apresentação sua no evento, mas aí ele foi hospitalizado e, infelizmente, nos deixou. Vida que segue, em sua homenagem conto um fato ocorrido num Programa de calouros que havia aqui Paulo Afonso nos loucos anos 70, época onde o politicamente correto morava longe e o tal empoderamento feminino se resumia na malemolêncía de Gal com as pernas de fora cantando baby, te amo, nem sei se te amo.

Pois muito bem, no meio dos com rentes lá estava o nosso glorioso Teté de Bufa, fã de Jetry, cujo apelido vinha um forte estrabismo que se acentuava momentos de tensão, corno aquele.

Salão lotado.,o locutor pergunta: “Vai cantar o que, Teté?”. “Olhos feiticeiros, de Jerry”. Introdução dada e assim que ele manda a primeira frase, dizendo: “Tem feitiço teus olhos”, um gaiato no pé do palco, grita: “Tem é nos seus, zarôio da peste!”.

Apesar da raiva, Teté não perdeu o ritmo e, apontando para seu algoz, adaptou a frase seguinte, mandando um. “Eu te pego lá fora!”. Por conta disso, nosso quase astro ficou em segundo lugar, e em vez da panela de pressão levou pra casa uma caixa de sabonete Phebo. Bons tempos.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador/BA, em algum dia do mês de abril deste ano.

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