Ensino: autonomia, ontonomia, alterdidata, antroposofia e doutorado informal

09/06/2017 às 3:24 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Muito bom esse artigo. Em especial para os que lidam com Educação. Há alguns temos para mim novos, mas são explicados de forma simples, como deve ser.

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O princípio da autonomia na aprendizagem

(Retirado do livro Doutorado informal)

Autonomia é a arte de decidir por si, isto é, a capacidade de compreendermos o que é melhor para nós mesmos e, então, implementar nossas decisões. Autonomia também significa poder rever nossos caminhos e decidir por outra coisa que não a que nos é oferecida ou a que todo mundo faz.

Se por um lado as forças externas — a cultura, a influência das pessoas próximas, os espaços que frequentamos, as referências e admirações que cultivamos — são capazes de nos condicionar, elas não podem determinar como vamos agir. Ainda que os condicionantes extrínsecos sejam difíceis de ignorar, a determinação de como agir é um atributo intrínseco e intransferível de cada um.

Humberto Maturana, em suas reflexões sobre o que condiciona o fazer humano, afirma que existem dois tipos de emoções, entendidas por ele especificamente como “disposições corporais dinâmicas”, que condicionam diferentes domínios de ação possíveis: o amor e a rejeição. O amor, para Maturana, é a aceitação incondicional do outro como legítimo outro (como na poesia do psicodramatista Jacob Levy Moreno: “Então ver-te-ei com os teus olhos; e tu ver-me-ás com os meus”).

A partir disso, é possível inferir que o amor, conforme delimitado por Maturana, é um verdadeiro promotor de autonomia nas relações. Talvez por isso o autor tenha afirmado que é o amor a emoção central do convívio social. Só por meio do amor é que acolhemos as escolhas, sentimentos e dizeres do outro sem retrucar. Sem querer impor as nossas verdades. É somente por meio do amor que percebemos a habilidade de todos em assumir uma vida autônoma.

Assim, abrimos espaço para o desenvolvimento da autonomia do outro. Isso não significa que não possamos interagir com ele, mas a forma com que as interações ocorrem a partir do amor é diferente. É horizontal e dialógica. Tal postura aponta para uma disposição genuína em entender profundamente e ajudar, sem achar que podemos resolver os problemas das pessoas.

A outra emoção que Humberto Maturana distingue é a rejeição. Ao rejeitarmos algo ou alguém, estamos negando internamente a possibilidade de convívio com aquela realidade. Nos fechamos ao outro e, assim, desabilitamos completamente nossa curiosidade em relação a ele. Ao deixarmos de reconhecer nas pessoas a sua legitimidade em agir diferente de nós, dificultamos muito o avanço de sua autonomia.

Na verdade, se considerarmos a autonomia como a capacidade de decidir o mais livremente possível, a rejeição ao outro causa em nós a mesma prisão que causamos a ele. Ficamos condicionados a rejeitar, e assim encolhemos nossa própria liberdade em proceder de outra maneira.

Ao agir de forma recorrente sob a emoção da rejeição, um sentimento de não poder voltar atrás começa a nos rodear, uma vez que é penoso admitir que não somos mais os únicos donos da verdade. Nesse sentido, a pesquisadora Maria da Conceição de Almeida traz algumas provocações interessantes:

O primeiro (rejeição) opera pela recusa prévia frente a um fenômeno, a um valor, a uma circunstância. Poderíamos chamar a isso de um estado cognitivo covarde, medroso, frágil. Rejeitar e negar a priori uma situação, um enunciado, ou um “outro” qualquer, não denota a resistência como fragilidade?
A recusa como medo de autodestruição? A negação apriorística como inconsistência interna que não pode se pôr à prova?

Infelizmente sinto que a rejeição tem sido a emoção predominante na educação formal: negamos sucessivamente as curiosidades, o poder de escolha e a manifestação dos talentos únicos de cada pessoa.

Maturana, no entanto, não afirma que o amor e a rejeição sejam contrários. O oposto de ambos é a indiferença. Estar indiferente ao outro é não o enxergar, é estar apático, inerte. Assim como a rejeição, penso que a indiferença exerce uma destacada influência nos espaços educativos tradicionais, na medida em que se percebe nos estudantes — e em muitos professores — um estado de torpor bastante peculiar.

Por sentirem que suas singularidades não estão sendo notadas, deixam também de enxergar. Assim, é possível concluir que quando somos indiferentes em relação ao outro, tudo o que conseguimos é suscitar nele mais indiferença ou até mesmo rejeição. Quando o rejeitamos em seu direito de ser alguém diferente de nós, causamos nele rejeição ou, às vezes, indiferença.

O amor não entra nessa conta.

Logo, a autonomia também não.

Vejamos o que Rubem Alves nos diz sobre o olhar em um trecho que se conecta intimamente com o que estamos falando a respeito das emoções como condicionantes das nossas ações:

Há tantos olhares diferentes! Há olhar de desprezo, de admiração, de ternura, de ódio, de vergonha, de alegria… A mãe encosta o filhinho na parede e, a um metro de distância, lhe estende os braços e diz sorrindo: “Vem”. Encorajada pelo olhar, a criança, que ainda não sabe andar, dá seus primeiros passos.
Há olhares que dão coragem. E há olhares que destroem. Por exemplo, aquele olhar terrível da professora que encara a criança de um certo jeito, sem nada dizer. Mas a criança entende o que o seu olhar está dizendo: “Como você é burra…”.

Ao considerar uma ideia de autonomia que conversa com a perspectiva de Humberto Maturana, o conceito deixa de exprimir um significado voltado para o primado incondicional do indivíduo para dar lugar à noção de autonomia com corresponsabilidade. Traduzindo: não estamos tratando do mesmo conceito de autonomia que surgiu lá atrás, com a burguesia e o Iluminismo europeu. É como se vinculássemos à demanda por liberdade individual — epicentro do significado inicial de autonomia — um cuidado amoroso com o outro, legítimo ainda que muito diferente de mim.

Se seguirmos o raciocínio adicionando ao significado de autonomia um cuidado atento em relação aos processos do meio que nos cerca, chegaremos à noção de “ontonomia”. De acordo com Vitória Mendonça de Barros, do Centro de Educação Transdisciplinar (CETRANS), se a heteronomia ocorre a partir de imposições externas e a autonomia, em seu sentido puro, se dá por meio de decisões absolutamente baseadas no sujeito, o lugar da ontonomia é o da interação entre o eu, o outro e o mundo.

Através do diálogo, nossa capacidade de reflexão é maximizada e, portanto, decisões mais conscientes podem ser tomadas. Assim, onde há ontonomia a liberdade também é potencializada, uma vez que as pessoas não se veem presas nem a um sistema tradicional de regras, nem ao seu próprio ego.

Ao encaixar no significado de autonomia as ideias de responsabilidade para com o outro e a natureza, fica claro que não estamos defendendo um ideal ingênuo, solitário e libertário a qualquer custo. A autonomia que enxergamos no doutorado informal vai sendo construída ativamente por meio da interação. Ela ocorre a partir dos encontros “de igual para igual” do indivíduo com as realidades circundantes, e aí sim a pessoa pode decidir com liberdade.

Precisamos romper com o estereótipo do cientista autodidata que se isola em seu laboratório durante longos períodos para só sair de lá com um prêmio Nobel. A autonomia educacional que propomos é aquela que se permite ser não só autodidata, como alterdidata. Assim, auto e alter — o eu e o outro — são capazes de se transformar a partir do que trocam entre si.

Mas, se essa ideia de autonomia é tão próxima da ontonomia, porque então escolhemos não utilizar este último termo? Em toda a trajetória do grupo que se dedicou a sistematizar as bases do doutorado informal, houve uma preocupação a respeito de como iríamos apresentá-lo e comunicá-lo. Ontonomia não é um termo usual, ao passo que a palavra autonomia, além de ser mais palatável, já se disseminou no Brasil principalmente por conta do pensamento de Paulo Freire. Aliado a isso, vejo tantos discursos a favor da autonomia na educação que comecei a enxergar o doutorado informal como uma maneira concreta de tirá-la do papel e trazê-la para a esfera do indivíduo. Se queremos ser autônomos em relação ao que aprendemos, nada mais coerente do que começar a mudança que queremos ver a partir de nós mesmos.

A autonomia também pode ser entendida com base no arquétipo da trimembração do ser humano proposto pela antroposofia — pensar, sentir e querer/agir. Segundo essa perspectiva, dispomos dessas três faculdades para atuar no mundo. Justamente por se tratar de um arquétipo, o conhecimento do ser humano trimembrado tem raízes ancestrais. Satish Kumar, fundador da Schumacher College na Inglaterra, propõe como lema da faculdade algo muito semelhante: cabeça, coração e mãos.

Partindo dessa visão, distingo três possibilidades de vivência da autonomia: na dimensão do pensar ela se refere à capacidade de lidar com a liberdade do que aprender (temas, assuntos, áreas de interesse); na dimensão do sentir, é a habilidade de interagir livremente com qualquer pessoa ou realidade, confiando na destreza de nossas intuições; e na dimensão do querer/agir, trata-se da coragem necessária para criar ou escolher os procedimentos e formatos mais ajustados às ações que cada um quer realizar.

Há ainda uma quarta possibilidade, que se apresenta ao se pensar a dimensão do querer/agir em um sentido mais próximo aos nossos desejos e vontades (querer). É a autonomia do porquê: a capacidade de escolhermos nossas próprias motivações em um caminho de aprendizagem. Mesmo em ambientes educativos que já permitem às pessoas construírem as autonomias do que (pensar), do quem (sentir) e do como (querer/agir mais próximo do agir), ainda assim a autonomia do porquê pode não ter sido conquistada.

Não é trivial: para que isso aconteça é preciso que abdiquemos de qualquer pretensão de restringir ou controlar os desejos, intenções e sonhos do outro. A autonomia do porquê é a motivação intrínseca sendo capaz de se expressar de forma livre. Se considerarmos que toda ação parte de um motivo, fazer valer a autonomia do porquê requer que desde o início não haja tentativas de redirecionar (ou anular) a vontade de alguém. Nem sempre nossas motivações são claras, mas é preciso que haja liberdade suficiente para que possamos aprender a escutá-las.

Infelizmente, as autonomias do quê, do quem, do como e do porquê são cotidianamente banidas em boa parte dos espaços formais de ensino. Vejo alguns projetos que já têm conseguido alcançar as duas primeiras, mas é especialmente difícil criar espaços que propiciem as duas últimas. O doutorado informal pode ser um poderoso aliado para vivenciarmos essas autonomias. Por meio de um percurso de aprendizagem livre é possível sentir na pele o que significa uma pedagogia da autonomia. As dores e as delícias.

Obs.: este artigo foi originalmente publicado no Medium do autor.

(Alex Bretas, Morador de São Paulo, mas mineiro de coração. Fundador da Educação Fora da Caixa, doutorando informal, autor de dois livros e sócio do UnCollege. Pode ser encontrado aqui.)

FONTE: https://www.papodehomem.com.br/o-principio-da-autonomia-na-aprendizagem

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1 Comentário »

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  1. Excelente texto!!!


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