O nome das coisas

17/06/2017 às 3:04 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Veríssimo e a origem dos nomes das coisas…

Colombo


O NOME DAS COISAS  Verissimo

‘Everest’ vem de “Evresta”, palavra em nepali que quer dizer “Deusa do céu” e é, claro, o nome da montanha mais alta do mundo.

Não é não. A história parece plausível, mas acabei de inventá-la. “Deusa do céu” é mesmo o nome dos nepaleses para a sua montanha sagrada, mas só eles sabem como se pronuncia.

“Everest”, o nome oficial, vem de sir George Everest, líder da excursão inglesa que mapeou a região no século XIX. Todo mundo se lembra, ou ouviu falar, de sir Edmund Hillary, o primeiro homem a chegar ao topo do Everest.

Quantos se lembram, ou se importam, que seu acompanhante era um xerpa chamado Tenzing Norgay?

O primeiro homem a enxergar o novo mundo foi Rodrigo de Triana, vigia na “Pinta”, e ele teria direito ao prêmio prometido por Cristóvão Colombo a quem visse terra primeiro. Mas o comandante alegou que ele, Colombo, vira antes uma luminosidade que emanava da terra e, assim, pressentira a presença da América antes que ela aparecesse.

Colombo ficou com o prêmio e a glória porque, afinal, a ideia de chegar ao Oriente pelo Ocidente era dele, e porque a História era dos homens predestinados como ele, dos que davam nome às coisas, não dos Rodrigos e outros xerpas da vida.

Quando Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas, fizeram como Colombo: se apossaram de terras antes de vê-las.

Já começaram colonizando uma hipótese.

Colombo pelo menos descobriu qual era o nome dos nativos para as coisas, o que não o impediu de dar nomes novos, e de trazer tudo da história dos insignificantes para a sua. E isso que ele pensava que estava nas terras do Grande Khan; portanto, estava se apossando de duas terras ao mesmo tempo.

Cabral e a sua turma, que se saiba, nem se interessaram em descobrir se as coisas aqui já tinham nome. Nomearam o Everest, no caso o Monte Pascoal, antes de pisarem na praia.

Dar nome às coisas é possuí-las, a colonização começa pela linguagem.

Depois se destroem nações inteiras e se vira a história dos outros de cabeça para baixo, como escreveu Montaigne num dos seus ensaios sobre a nossa conquista, “só pelo tráfico de pérolas e pimenta!” O ponto de exclamação é dele.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, 15.06.2017

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