POR UMA HISTÓRIA LIVRE

07/09/2017 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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7 DE SETENBRO: Desconhecemos nossos talentos. E como os temos. E como os temos…

Parabéns Professor João José Reis !

Em quase todas as suas falas públicas, João elenca osfatos que sustentam sua visão de que a escravidão é o processo maisimportante e profundo da história de nosso país: a)durou perto de 400anos, contra apenas 129 anos de liberdade; b) o tráfico transatlântico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milhões de vítimas em todo o mundo; c) o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.

 

“João não fala de um púlpito, mas do chão. Seus personagens têm subjetividade, biografia, vida”, diz Chalhoub. “E seus livros, além de sólidos na pesquisa e no argumento, têm estilo. A ABL escolheu um momento importante para reverenciar essa obra. Olhemos para o que está acontecendo com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pioneira na adoção de políticas agudas de inclusão social e racial. Está sendo sucateada impiedosamente. É um exemplo típico de racismo à brasileira: ceifam-se as oportunidades abertas aos negros sem que se use uma linguagem abertamente racista”.

 


A HISTÓRIA LIVRE

Um dos intelectuais mais respeitados do Brasil, o baiano João José Reis prepara novo livro, a ser lançado em 2018 pela Cia. das Letras, sobre o trabalho africano em Salvador e as dificuldades impostas aos negros libertos

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Acostumada a cerimônias sem solavancos, a Academia Brasileira de Letras (ABL), ao final do dia 20 de julho, experimentou um burburinho que lembrava uma república universitária. Naquela noite chuvosa, o incendiário era também o homenageado e atendia pelo nome de João. “A escravidão é sempre o crime da raça branca”, disse ele para uma plateia de homens brancos. Posicionado no centro do Salão Nobre do palácio Petit Trianon, sede da academia, João bradou sobre chibatadas e cotasraciais;sobre pobreza e educação.Ao fim, o presidente da casa, Domício Proença Filho, resumiu o que acabara de ouvir: “Uma aula dessa encruzilhada chamada Brasil”.

João José Reis, 65, é um homem baixo, muito magro, de fala curta. Ao ouvinte incauto, ele pode soar ríspido.Um pouco fruto de sua criação – “um menino que aprendeu lições nas bandas ásperas da Cidade Baixa”, como ele diz – e muito pelo teor daquilo que fala. Referência mundial no estudo da história da escravidão, João versa há três décadas em livros, artigos e palestras sobre a chaga racial no Brasil. Uma tarefa já reconhecida comoprêmio literário Jabuti, em 1992, e agora com o prêmio Machado de Assis, dado pela ABL ao conjunto da sua obra. O conteúdo sobre o qual João se debruça põe, quase sempre, rudeza e veemência em sua voz.

“O Brasil pratica uma postura de eufemismos”, diz ele à Muito,sentado próximo à varanda de seu apartamento no bairro da Federação, de onde é possível ver boa parte de Salvador– os bairros nobres da Graça e Canela, a oeste, as construções populares em Alto das Pombas e Engenho Velho, ao sul, e, ao centro, parte da Universidade Federal da Bahia, onde ele leciona história desde a década de 1980. “Nós apregoamos a ideia de democracia racial, como se isso fosse o nosso país. Não é. Nós precisamos quebrar essa política de negação”, diz.

Em quase todas as suas falas públicas, João elenca osfatos que sustentam sua visão de que a escravidão é o processo maisimportante e profundo da história de nosso país: a)durou perto de 400anos, contra apenas 129 anos de liberdade; b) o tráfico transatlântico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milhões de vítimas em todo o mundo; c) o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.

Em seus sete livros publicados, relatos históricos de pessoas e acontecimentos, João povoa as páginas comescravos que fogem de toda parte para toda parte. Um lembrete de que a resistência e a rebelião foram marcas de todo o processo escravagista. Mas também há escravos que negociam com seussenhores uma servidão menostirânica e escravos que compram sua alforria para se tornar, eles próprios, senhores de escravos. A maioria dos retratados tem nomes: Rufino José Maria, o liberto malê que virou cozinheiro de navio negreiro e pequeno traficante transatlântico de gente; Domingos Sodré, adivinhador e curandeiro nagô que fornecia beberagens a escravos para domesticarseussenhores. E tantos outros: Bilal Licutan, Luiz Sanin, Manoel Calafate, João Malomi, Francisco e Francisca Cidade, Zeferina.

“Muito da nossa desigualdade, da crueldade do nosso sistema, da crueldade com que o estado e as classes privilegiadas tratam as classes subordinadas, está ligada à escravidão”, diz João. “São atitudes e comportamentos que se reproduzem, colando nas pessoas de pele preta o estigma da subalternidade. É como se a escravidão, de fato, não tivesse sido abolida. Por isso a importância de escreversobre aqueles que não foram peças passivas da máquina escravista”.

Papéis espalhados pela sala do seu apartamento e documentos escaneados no computador dão conta de que a importância se mantém. Em ponto de ser finalizado, o novo livro de João será sobre o trabalho africano em Salvador e as dificuldades que foram impostas aos negros libertos. Prometido à editora Companhia das Letras, a obra deve sair, muito provavelmente, no final de 2018.Oponto central da narrativa é uma greve promovida por carregadores em busca de melhores condições de trabalho.

“Cada vez mais falamos sobre a escravidão. Mas não basta, porque a escravidão pode virar um ponto de fuga para não se discutir a atualidade. A nossa transição da escravidão foi uma transição que instituiu um padrãode desigualdade. Demos a libertação sem nenhuma referência de inserção social e produtiva.Não teve reforma agrária, não teve acesso à educação nem ao crédito.Dissemos: ‘Virem-se’. E do que adianta falarmos do passado sem refletir sobre questões como a desigualdade que nos cerca hoje?”.

AQUELE BRANCO

A cor branca da pele e o fato de vir de uma família remediada – ”sem fartura, mas tampouco fome” – são pontos que, volta e meia,surgem para tencionar o lugar de fala de João. Um branco que expõe o racismo, um representante da elite que pesquisa a desigualdade. Desde que tais questionamentos chegaramaté ele, ainda como estudante de história na Universidade Católica, a resposta é a mesma. “Não é sobre mim, mas sobre todos nós. Ninguém ganha numa sociedade desigual”.

Com o tempo, a resposta adquiriu certa elabora- ção. Como nordestino, João diz sentir o preconceito emsuas viagens ao Sul do Brasil. Como brasileiro, durante o mestrado na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, em1975, moveu um processo contra um vizinho que disparou contra ele a supremacia branca – João, ali, era o latino que deveria ser extraditado. E, como garoto suburbano, nunca lhe passou indiferente o tratamento que recebia quando estava em plagas sofisticadas da cidade. “Eu não cresci com uma identidade branca. Eu entendia que existia o branco, mas aquele branco não era eu”.

Durante a entregado Prêmio Machado de Assis, na ABL, muitos dos pares acadêmicos de João se reuniram para prestar homenagens. Um indício da força com que sua obra ecoa nas universidades do país, mas, também, como classifica Sidney Chalhoub, docente do Departamento de História da Unicamp e da Universidade de Harvard, “uma amostra da sinceridade com que a questão racial é tratada em seus livros”.

“João não fala de um púlpito, mas do chão. Seus personagens têm subjetividade, biografia, vida”, diz Chalhoub. “E seus livros, além de sólidos na pesquisa e no argumento, têm estilo. A ABL escolheu um momento importante para reverenciar essa obra. Olhemos para o que está acontecendo com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pioneira na adoção de políticas agudas de inclusão social e racial. Está sendo sucateada impiedosamente. É um exemplo típico de racismo à brasileira: ceifam-se as oportunidades abertas aos negros sem que se use uma linguagem abertamente racista”.

O tom político com que a entrega do Prêmio Machado de Assis soou nas mãos de João Reis não é dissonante com a biografia do historiador. Ao contrário, colhe raiz no ativismo de esquerda que marcou sua vida escolar. Interessado no MR8, a luta armada contra a ditadura militar, João chegou a ingressar na Organização Pará-Partidária, espécie de preparação para pegar em armas.

“Mas logo comecei a desacreditar da luta armada como uma solução. Na verdade, o meu interesse na militância de esquerda era movido por uma mistura de outros interesses: na contracultura, nos hippies, nos Panteras Negras”, ele diz. Antes que pudesse se desvincular da militância, no entanto, foi preso. Passou dez dias no quartel do Barbalho. Não foi torturado, mas viu gente ser. “Dormíamos no chão e à noite éramos visitados por ratazanas”. Semanas depois de sair da prisão,começou a cursar história.

“Já na minha adolescência eu percebi o apartheid social. E, logo depois, uma questão fez minhaca beça: qual é a relaçãoda raça coma desigualdade? Deixei a militância política para protestar de outra forma. Muito cedo aprendi que tinha uma miríade de coisas que precisavam sercombatidas antes de se pensar numa sociedade completamente igualitária”.

DA PARTE PARA O TODO

As obras assinadas por João seguem um roteiro. Partem de um elemento específico para contextualizarotodo.AssimelemantémaescritadesdeRebelião escrava no Brasil (1986), seu primeiro livro e aquele que ele considera seu trabalho de maior fôlego.

Escrito no frio de Minnesota, como uma peça de conclusão do mestrado, a obra vai até a noite de 24 para 25 de janeiro de 1835. Em Salvador, enquanto os católicos comemoravam, na Igreja do Bonfim, a festa de Nossa Senhora da Guia, negros africanos celebravam o Ramadã em suas senzalas. A celebração evoluiu para uma revolta, da qual não participaram exclusivamente muçulmanos, mas que foi por eles arquitetada e conduzida. O levante envolveu cerca de 600 pessoas, o equivalente a 20 mil pessoas na Salvador de hoje.

“Rebelião escrava no Brasil é o livro mais importante que se escreveu sobre a escravidão no país desde Casa-Grande e Senzala (1933)”, diz Marcus Joaquim de Carvalho, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coautor, ao lado de Joãoede Flávio dos Santos Gomes, de O Alufá Rufino – Tráfico, escravidão e liberdade no Atlântico Negro (2010). “Ao pinçar um evento histórico, o livro expõe as estruturas sociais e econômicas da época, a série de revoltas escravas acontecidas na Bahia desde o início do século 19 e a natureza particular da servidão urbana”.

O ponto que foge ao padrão dentro da bibliografia de João é A morte é uma festa (1991), vencedor do prêmio Jabuti de melhor ensaio e biografia e do prê- mio Haring, da Associação Histórica Americana, de melhor obra historiográfica latino-americana. No livro, o autor distancia-se de seu tema caro, a escravidão, para abordar as atitudes de nossos antepassados em relação à morte e aos mortos. Como pano de fundo, um fato ocorrido em Salvador, em 1836: uma multidão em protesto destruiu o cemitério do Campo Santo, inaugurado três dias antes por uma empresa que obtivera do governo o monopólio dos enterros na cidade.

Para Eduardo Silva, historiador da Casa Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, que dividiu com João a autoria do livro Negociação e conflito – a resistência negra no Brasil escravista (1989), o trabalho do historiador baiano é um “esforço hercúleo em compreender nossas raízes” e “seus livros primam por uma incansável pesquisa em documentos”. “Historiadores são quebradores de silêncios; jogam luz em histórias não contadas. Nesse aspecto, João é exemplar”.

BERRO

Desde o impeachment, João José Reis tem usado sua fala em universidades e eventos de todo o país para denunciar o que chama de “ataque dos grupos privilegiados sobre os grupos subalternos”. No final de julho, durante a sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro, o escritor externou seu espanto “com as forças reacionárias  que ganharam terreno em pouquíssimo tempo”.

Há um retrocesso em diversas frentes, como no caso do desmonte da Consolidação das Leis Trabalhistas, através de uma discussão que não incluiu a classe trabalhadora. O contratado, agora, vale mais do que o legislado. Entraremos num regime de escravidão voluntária”, diz ele à Muito. “O impressionante é que os direitos estão sendo tirados e asruas estão vazias. Quem vai para a rua são os mesmos, e os mesmos vão cada vez menos”.

Defensor da construção de um museu da escravidão no Pelourinho, João diz perceber o avanço das políticas de ações afirmativas,como ascotas, adotadas na  última década, mas fala que o racismo precisa ser atacado também na mentalidade das pessoas. “Não lembro de ter visto nenhuma campanha recente de combate ao racismo, mostrando que não existe uma raça inferior a outra, provocando o país a enxergar as distâncias entre brancos e negros que se mantêm. Trata-se de mais informação, mais educação atrelada a ações afirmativas. É uma sequência de políticas”.

Em sua casa, imagens, esculturas e escritos remetem a divindades do candomblé, a tribos livres e a artistas e ativistas, como Angela Davis. Num canto, há uma pequena escultura de uma mulher negra que parece berrar. Talvez, por liberdade. E por que berra João José Reis? “Por uma história livre”.

(Texto ERON REZENDE eronrezende@gmail.com Fotos ADILTON VENEGEROLES asvvas@gmail.com )

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 27.08.2017

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  1. […] Uma história interessante posto aqui hoje. A luta dos atuais motoboys e entregadores de tudo em tempos de pandemia é muito antiga… João José Reis, grande historiador baiano o autor do livro mencionado no artigo, já esteve aqui neste espaço no post “POR UMA HISTÓRIA LIVRE”. […]


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