Brinkmanship

17/09/2017 às 18:29 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Encerrando mais um domingo, publico a crônica de Veríssimo de hoje. Brinkmanship: o apocalipse é logo ali… e como diz o grande escritor: “Coreia do Norte e Estados Unidos podem se destruir mutuamente. Mas nesse abismo caímos todos.

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Na beira    Verissimo_sax

Na fase mais quente da Guerra Fria, com os Estados Unidos e a União Soviética se enfrentando como dois pistoleiros do Velho Oeste esperando para ver quem sacava primeiro, o então secretário de Estado americano, John Foster Dulles, adotou o que foi chamado de brinkmanship, ou a tática de levar o impasse entre as duas potências até o brink, ou a beira, da catástrofe nuclear, sem dar o passo adiante que mergulharia o mundo no abismo. Não foram poucas as vezes em que se chegou ao brink, mas o bom senso, ou o senso de que a iminência de destruição recíproca era uma loucura, acabou prevalecendo, e o passo fatal não foi dado.

Agora, temos outro exemplo de brinkmanship nos levando para a beira, o que opõe, que Deus nos ajude, Kim Jong-un de um lado, e Donald Trump no outro, duas figuras cujo traço principal é a imprevisibilidade. A última vez que a personalidade de um líder foi tão diretamente responsável pelo dessossego do mundo, o nome dele era Adolf Hitler. Até hoje se especula qual teria sido o desfecho da Segunda Guerra Mundial se, além dos foguetes que ele já tinha, Hitler tivesse bombas atômicas. Especula-se também sobre a razão de não tê-las.

Hoje se sabe que o que atrasou o programa nuclear alemão não foi nem incapacidade nem consciência, mas preconceito burro: os nazistas achavam que física teórica era “coisa de judeu” e custaram a entender todas as implicações do átomo partido. Da mesma forma, foram as novas leis raciais italianas, inspiradas pelas nazistas, que forçaram a ida de Enrico Fermi, cuja mulher era judia, para os Estados Unidos e a emigração da maioria da sua equipe, que foi trabalhar no Projeto Manhattan. Assim, foi a antiga tradição do antissemitismo, exacerbada e burocratizada pelo fascismo, que deu a vantagem aos americanos. Também havia antissemitismo nos Estados Unidos, mas na hora de desenvolver a arma que, era o que se esperava, acabaria com todas as armas, quem estava contando?

Kim Jong-un tem foguetes e ogivas nucleares para brincar, Donald Trump tem o maior arsenal nuclear do mundo ao alcance do seu dedo. Coreia do Norte e Estados Unidos podem se destruir mutuamente. Mas nesse abismo caímos todos.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, hoje.

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