A distância

29/09/2017 às 11:02 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Essa crônica do Veríssimo me lembrou o trabalho de Miguel Nicolelis. Bom descanso a um dos poucos grandes escritores que ainda restam neste país. E que volte com mais força ainda porque dele precisamos !


A distância  Verissimo_sax

Li que implantaram um troço no cérebro de um macaco, e ele conseguiu mexer outro troço com o pensamento. Um eletrodo acionado por neurônios, ou coisa parecida, permitiu ao macaco deslocar um objeto a alguns metros de distância só com a sua vontade. De certa maneira, isto é o fim de um ciclo que começou na primeira vez em que um hominídeo pensou na possibilidade de afetar algo distante dele sem sair do lugar. Pode-se resumir o desenvolvimento da humanidade e da sua ciência no cumprimento desta vontade de não precisar ir lá. A penúltima fase do processo foi o controle remoto. A última, lógica, fase será a da telepatia. Hoje o macaco; amanhã, nós todos.

Sempre defendi a tese de que foi a preguiça que trouxe a civilização. O que foi a invenção da roda se não o prenúncio da charrete e um triunfo do comodismo?

Fomos a primeira espécie a criar um jeito de não ir, mas ser levada. A razão do hominídeo para deflagrar o processo que resultou no controle remoto foi prática, a de atingir uma presa sem se arriscar a ser mordido, ou almoçar sem ser almoçado. O primeiro lance do longo processo que terminou com o implante no cérebro foi a pedra arremes sada.

Depois, vieram a lança, o estilingue, o arco e a flecha, a catapulta, as armas de fogo, o foguete intercontinental, o drone — todos engenhos para evitar chegar perto.

A distância sempre foi um inimigo natural do homem, ou pelo menos do homem preguiçoso. Vencê-la foi o nosso grande desafio intelectual, e agora se abre a possibilidade de subjugá-la só com o intelecto, desprezando os instrumentos que, da pedra à internet, nos ajudaram até aqui. Estamos simbolicamente de volta à savana primeva pensando em como empurrar aquele mamute para dentro do fosso sem precisar ir lá, mas agora o pensamento basta.

A vontade se realizará sozinha, sem as mãos, sem mais nada. A preguiça cumpriu sua missão histórica.

Agora, só precisamos encontrar um jeito de pedir ao macaco que mexa alguma coisa por nós.

Aos meus 17 leitores: vou sair de férias. Sem foguetes, por favor. Volto no dia 26/10. Tchau.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, ontem.

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