Preciosidades de Pessoa

09/10/2017 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Pessoa nos ensinando por intermédio do Professor Pasquale Cipro Neto.

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Preciosidades de Pessoa

O texto de Pessoa é mais uma demonstração de que é possível inverter o velho ditado (“A arte imita a vida”)

EM SEU RECÉM-CONCLUÍDO vestibular, a Unesp incluiu a profunda e intemporal “Crônica da Vida que Passa” (de Fernando Pessoa), que assim começa:
“Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo.
Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações -ridiculamente humanas às vezes- que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade”.
Pessoa escreveu isso num tempo em que não havia a grande “média”, como dizem os portugueses (nós dizemos “mídia”, forma baseada na pronúncia inglesa -é bom lembrar que a palavra vem do latim). Quando fala das “criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças”, Pessoa parece antever o que hoje ocorre com os pobres de espírito que falam alto ao celular em qualquer canto (“tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica”, diz o grande Pessoa). Imagine se ele vivesse sob os zurros dos “big brothers” da vida…
O texto de Pessoa é mais uma demonstração de que é possível inverter o ditado (“A arte imita a vida”). Às vezes é a vida que imita a arte.
Posto isso, assentemo-nos ao rés-do-chão, ou seja, falemos de alguns dos interessantes tópicos lingüísticos presentes no excerto de Pessoa. Um deles diz respeito à palavra “pequenezes” (“espetaculosas pequenezes”). “Pequenezes” é o plural de… De “pequenez” (“qualidade de pequeno”). Se nos valermos do próprio Pessoa (“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”), poderemos, numa livre adaptação, dizer que tudo vale a pena, quando a pequenez da alma não prevalece. É claro que não se pode confundir “pequenez” com “pequinês”, que se refere à cidade de Pequim (os cães pequineses são pequineses porque vêm de Pequim).
Pois o plural de “pequenez” remete-nos ao de “gravidez”, que os leitores sempre perguntam. O plural de “gravidez” é como o de qualquer palavra terminada em “z”, como “luz”, “raiz”, “juiz”, “meretriz”, “giz” etc., isto é, é feito com o acréscimo de “es” (luzes, raízes, juízes, meretrizes, gizes). Moral da história: “Suas três gravidezes foram bem difíceis”.
Outra passagem que merece destaque é “quereria” (“que ele quereria invisíveis”). Trata-se da terceira do singular do futuro do pretérito de “querer”. Na linguagem oral, essa forma apresenta baixa incidência (costuma ser substituída por “queria”, do pretérito imperfeito -esse processo é mais do que legítimo nas variedades não-formais da língua).
Na escrita formal e na literária, o uso de “quereria” não é raro (“Assim eu quereria o meu último poema / Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais…”, escreveu Bandeira). É isso.

(Pasquale Cipro Neto)

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2012200704.htm

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1 Comentário »

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  1. […] boa essa entrevista. O Professor Pasquale já esteve aqui antes, muito bom […]


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