“NÃO FOI CONTRA JANGO; O GOLPE FOI CONTRA UM PROJETO DE NAÇÃO”

12/01/2018 às 11:56 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Hoje e amanhã. Evento imperdível para quem mora em Salvador-BA e cidades vizinhas. Lançamento do livro “Jango e Eu – Memórias de Um Exílio Sem Volta” de João Vicente Goulart e a apresentação do espetáculo “Jango: Uma Tragédya”. Abaixo uma bela entrevista com o autor.


“NÃO FOI CONTRA JANGO; O GOLPE FOI CONTRA UM PROJETO DE NAÇÃO”

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João Vicente é filósofo, escritor e presidente do Instituto João Goulart. Sua biografia sobre Jango foi finalista do Prêmio Jabuti

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JANGO E EU – MEMÓRIAS DE UM EXÍLIO SEM VOLTA / JOÃO VICENTE GOULART Civilização Brasileira / 378 p. / R$ 64,90

João Vicente Goulart, escritor e filho do ex-presidente João Goulart, mais conhecido como Jango, está em Salvador para lançar a biografia Jango e Eu – Memórias de Um Exílio Sem Volta. A sessão de autógrafos seguida de bate-pao acontece nos dias 12 e 13 de janeiro, no Teatro Vila Velha, logo após a apresentação do espetáculo Jango: Uma Tragédya, que começa às 20h. O livro narra o exílio do ex-presidente após o golpe militar no Brasil em 1964. Mais de 50 anos depois, e apartir de suas memórias de infância, adolescência e início da fase adulta, João Vicente tenta recuperar um período turbulento da vida da família, fazendo um verdadeiro inventário afetivo e histórico desse período. Confira abaixo algumas impressões do escritor que conviveu de perto com um dos mais emblemáticos políticos brasileiros.

A ideia do livro é resgatar a memória de Jango?

Essa biografia, antes demais nada, é um tributo ao pai, ao amigo e ao homem que se foi, mas continua presente. Ele traz uma visão diferente dos livros da Academia pois tem uma perspectiva visual, de dentro da família para fora, para mostrar esse viés político do que é a dura realidade de quem luta pela pátria e é condenado ao desterro por esta luta desigual, desproporcional e desequilibrada dos covardes armados contra os sonhos da Democracia e da legalidade.

Quais as lembranças que você tem do seu pai?

Inúmeras. Imagens de saudade, respeito, admiração e, principalmente, da altivez e da conduta que o guiou no difícil exílio que a ditadura brasileira lhe impôs. Somente os fortes podem, com o exemplo de luta,traçar os alicerces da história e deixar rastros de exemplos de dignidade. Meu pai foi uma dessas pessoas que passaram pela vida sem deixar vácuos. Sua passagem iluminou caminhos, alternativas de luta para um povo digno e merecedor de seus filhos, que haverá de ocupar os espa- ços de sua cultura soberana e brasileira.

Como foi o período em que vocês ficaram exilados no Uruguai?

O exílio foi longo…Uruguai, Paraguai, Argentina, Inglaterra. Um tempo que nos ensinou a sermos aves peregrinas, pois os sucessivos golpes de Estado que se produziram em efeito dominó, após a queda do Brasil, nos fizeram voar, voar e voar, procurando novos ares onde pudéssemos não ser perseguidos.

Você acredita que se Jango tivesse governado até o fim, e fosse reeleito, hoje o Brasil seria outro?

Sem dúvidas. O golpe não foi dado contra Jango, mas contra um projeto de nação em andamento através das “reformas de base”. Essa pergunta é muito oportuna e pode, sem dúvidas, ser respondida pela última pesquisa do Ibope, escondida por anos nos escaninhos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e não divulgada durante a ditadura. Se houvesse reeleição em 1965, Jango seria imbatível, só perderia para JK (Juscelino Kubitschek) em São Paulo e em Belo Horizonte.

O Brasil reconhece a importância de Jango para a política brasileira?

Uma das grandes covardias do processo do Estado, de fato, é a alienação das mentes geracionais. A ditadura brasileira, além de perseguir, matar, torturar e sequestrar pessoas que se insubordinaram contra a ruptura constitucional, produziu uma apatia no raciocínio político de milhões de jovens brasileiros, que se alienaram com fragmentos de culturas estrangeiras, produzindo uma aculturação de valores estranhos à nossanacionalidade e ao nosso pensamento de soberania. Jango foi, propositalmente, banido da história nacional para que os jovens do ensino brasileiro não conhecessem a verdadeira história do golpe de 1964 que, servilmente, ficou ao lado dos interesses estrangeiros, principalmente fazendo do governo um instrumento servil dos Estados Unidos. Mas não foram felizes, pois a verdade é perversa com os traidores do povo. Hoje, 54 anos depois do golpe, entramos em 2018 com uma eleição à vista. E o que vamos discutir são os direitos trabalhistas deste povo, outorgados aos trabalhadores por Getúlio e Jango.

O Brasil corre o risco de vir a ser uma ditadura totalitária de direita com o rumo que a política está tomando ?

Riscos sempre existem, mas não creio em ditadura totalitária. Atualmente, já vivemos em uma ditadura modificada. Trocamos sorrateiramente, via um golpe midiático-parlamentar, os militares pelos juízes, os quepes pelastogas. Depois da “teoria do domínio dos fatos” e a aplicação da validade do “acordado sobre olegislado”,estamosinvertendo a lógica platônica sobre a República, estamos aceitando os homens governando leis e não mais sendo governados por elas.

Você acredita na tese do assassinato de Jango?

Hoje não é mais tese. Existem vários indícios, provas de monitoramento, agente “B” do SNI dentro de nossa casa no exílio, fotos clandestinas de nossa vida familiar, depoimentos de agentes que participaram na “operação” de trocar os remédios de meu pai. Existe uma investigação em curso, conduzida pelo Ministério Público Federal, que pediu a oitiva dos agentes da CIA que moram, ainda, em território americano. O que não existe é vontade política de exigir do departamento de estado americano essas providências. Ou temos alguma dúvida que nosso Estado ainda é submisso à política americana?

Você é pré-candidato à presidência da República em 2018 pelo PPL?

O PPL é um partido de resistência, de lutas, de nacionalistas convictos de que temos que mudar o Brasil através do nacional-desenvolvimentismo. A legislação eleitoral penalizou os pequenos partidos não lhes dando acesso à televisão nem ao fundo partidário. Obrigou-os a ter um desempenho de fazer 1,5 % dos votos nacionais para continuar como agremiação política. Um abuso dos poderosos, dos grandes partidos que vão dividir R$1,7 bi para suas respectivas campanhas. Foi o PPL que lançou, em reunião do diretório nacional, meu nome, junto a outros companheiros para, possivelmente, entrar nesta missão de ajudar a construir esta opção política. Ser candidato por um partido que não tem máculas com o povo brasileiro seria uma grande honra. E missão partidária não se discute, se cumpre.

Que lições você herdou de Jango?

A mais bela e importante lição de nossas vidas. Ninguém morre de graça quando se luta por um ideal. Tínhamos uma relação de parceria e aqueles que pensam que derrotaram Jango, o tornaram o único presidente constitucional de nosso país a morrer no exílio. Lutando pela liberdade, lutando pela pátria.

(EUGÊNIO AFONSO)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 11.01.2018

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