Aniversários e Preferências

26/02/2018 às 3:19 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Iniciando essa semana com duas crônicas de Veríssimo. A dos “Aniversários” é minha homenagem a todos os aniversariantes deste ano. Sobre aniversários eu sou daqueles que não gosta, justo porque ‘já não tenho mais idade’, com ou sem “stripper”, o que Veríssimo de certa maneira contesta na primeira crônica. Sobre as minhas preferências: Papa Chico (seguidor de João XXIII e de João Paulo I) e Marta Rocha (primeira e única Miss Universo, sem nunca ter sido !), por outro lado…

LFVerissimo


“Happy”

A gente não faz aniversários. Os aniversários é que vão fazendo a gente. E, depois, pouco a pouco, nos desfazendo.

Pode-se medir a passagem do tempo pelos diferentes significados da frase “Feliz aniversário!”.

Do “Feliz aniversário!” que quer dizer “hoje é seu dia, que alegria, mais um ano da sua vida, comemore porque você merece etc”. Ao “Feliz aniversário” que quer dizer “que chato, mais um ano da sua vida que se vai, mas não ligue e comemore – mas vá com moderação porque você não tem mais idade.

Do “Feliz aniversário!” como exaltação ao “Feliz aniversário” como ironia. Até uma certa idade se faz festa por um ano a mais, depois de uma certa idade se faz festa por um ano a menos. Mas aí a festa é para disfarçar.

O valor simbólico do aniversário é que ele marca a nossa integração no Universo – ou pelo menos no Sistema Solar. Assim como a Terra nós também completamos uma volta em redor do Sol, e comemoramos o feito.

Não falta quem preferiria acompanhar cada volta de Saturno em torno do Sol,que levaria muito mais tempo, e economizar em cremes faciais e plásticas. Mas estamos presos à Terra e aos seus ritmos. E condenados a envelhecer junto com ela.

Antigamente (eu sou do tempo do antigamente) cantava-se só o “happy irthday”, em inglês, para o aniversariante. Depois surgiu o “parabéns a você”, não sei se por um prurido nacionalista ou porque ninguém acertava como fazer com a língua no “th” do “birthday”.

Dependendo da idade, o trecho do Parabéns que diz “muitos anos de vida” pode ser mudado para algo como “e que folha corrida!”, para rimar com “data querida” sem constrangimento.

Fora o Parabéns em vez do Happy Birzdei, as festas de aniversário não mudaram muito através dos anos. Novidade em matéria de velinhas, só a vela que depois de apagada acende de novo, e de novo, e de novo, até o aniversariante impaciente enterrá-la no bolo com um tapa.

Festas de aniversário para crianças modernas são organizadas por empresas especializadas que cuidam de tudo, desde a decoração do ambiente até os doces e os shows de palhaços e mágicos, que as crianças ignoram, preferindo fazer guerra de brigadeiros.

Mas os rituais continuam basicamente os mesmos, seja para crianças ou para adolescentes: o bolo com as velas, o Parabéns desafinado acompanhado com palmas, as meninas que vão em grupo para o banheiro e não saem mais, o menino chato que dá pontapé em todo o mundo etc etc.

O que realmente mudou com o tempo foi festa de aniversário para adultos. Hoje é comum convidarem uma “stripper” (nome que nenhum prurido nacionalista ainda aportuguesou) para o entretenimento quando o aniversariante é homem. O show geralmente termina com ala nua no colo do aniversariante ou o aniversariante no colo dela nua e alguém dizendo “Se não servir pode trocar!” – ou coisa parecida.

Mas novidade mesmo é “stripper” masculino tirando a roupa em aniversário de mulher. A extensão da nudez depende de certos fatores, como a presença ou não na festa da tia Isoldina, que desmaiou na frente do Davi de Michelangelo, ou de não ter havido um mal-entendido – como na vez em que o “stripper” se recusou a tirar a cueca e, finalmente, conseguiu que ouvissem o que ele estava tentando dizer desde que batera na porta, que só estava ali para entregar uma pizza.

Confessemos: quem não gosta de ter o aniversário lembrado? Os que dizem não querer festejar por não ligar para essas coisas, e “não desperdicem tempo e dinheiro comigo”,e“que bobagem”,e“eu nem vou estar aqui” são os que mais gostam da festa, mais riem com a velinha que não apaga, regem Parabéns e palmas, e, se for o caso, saem dançando com a, ou o, “stripper”.

E, além de adorar todos os presentes, adoram comemorar este fato fantástico: deram outra volta no Sol e continuam vivos.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do Brasil, fevereiro/2018


Preferências

Não me lembro quem era. Faz tempo. Numa roda discutia-se as preferências de cada um e alguém declarou “Pra mim, é Pio XII e Marta Rocha”. Podia ter dúvidas em outras categorias, menos nas de melhor papa e melhor Miss Brasil.

A frase fez sucesso, apesar da incongruência assumida, pois havia uma clara incompatibilidade entre as duas escolhas. Como alguém podia gostar ao mesmo tempo do ascético papa PioXII e da bela baiana que só não fora Miss Universo porque suas formas eram generosas demais? (Ver “Padrões e Medidas do Brasil Antigo”, capitulo “Formas e Folclore”, verbete “Violão, Mulher tipo”). Mas o importante era o tom definitivo da declaração. É preciso ter algumas definições prontas para o caso de você ser cobrado de surpresa. Melhor papa. Melhor miss Brasil. Melhor Tarzan. Melhor música do Tom…

Não é fácil estar com as suas preferências sempre em dia. Quem tem uma coluna regular na imprensa e dá palpite sobre tudo muitas vezes só descobre o que pensa sobre um assunto quando o comenta, e não é raro começar com uma opinião e terminar com outra.

Tenho posições firmes sobre o aleitamento materno (a favor) e o câncer (contra), mas e a clonagem humana? E dois volantes de contenção, sim ou não? E Israel e os palestinos? Alguém já disse que não existe frase pior,para um profissional do palpite, do que “por outro lado”. Sempre tem o maldito outro lado! Não é uma questão de ser objetivo e imparcial.

Com um espaço assinado no jornal você é pago para ser subjetivo. Todos os imparciais são iguais mas cada um é parcial à sua maneira, e se for um preconceituoso é ainda mais divertido. O problema é como ser subjetivo sem ser injusto e saber por quê você é parcial. Ou o que, para você, é pão e é queijo. Ou Pio XII e Marta Rocha.

(Ninguém me perguntou, mas lá vai: João XXIII, Ieda Maria Vargas, Johnny Weismuller e “Inútil paisagem”).

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do Brasil, fevereiro/2018

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