Dez dias que abalaram o Brasil

04/06/2018 às 3:13 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 3 Comentários
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Um dos melhores artigos que li sobre o recente “auto-tsunami” ocorrido no país.

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Dez dias que abalaram o Brasil  foto-paulo-ormindo_thumb_thumb_thumb

A greve dos caminhoneiros demonstrou a enorme fragilidade do nosso sistema logístico, urbano e político, cativo do pneu, do petróleo e do dólar. Os caminhoneiros deram algumas lições.

A primeira, econômica. Não se botam todos os ovos num só cesto. A greve parou tudo: caminhões, ônibus, BRT, aviões, ambulâncias, táxis e lanchas, e em consequência a indústria, a exportação, o abastecimento alimentar, a saúde e o turismo. Os prejuízos são incalculáveis e as metas econômicas furadas. Embora a crise seja estrutural, foi deflagrada por Parente ao alinhar o diesel ao aumento diário e cumulativo do petróleo e do dólar. Como o combustível entra no preço de tudo, com essa lógica todos os preços e salários deveriam ser indexados pelo dólar. Atitude burra, porque um menor preço do diesel, que serve ao transporte público e de cargas, poderia ser compensado por uns centavos a mais na gasolina do carro individual, sem necessidade de voltar a tabelar preços, cortar os programas sociais, provocar a queda das ações da Petrobras e renunciar.

A segunda lição é política. O governo arrogante não ouviu, nem dialogou. Ignorou as advertências e a força das redes sociais. O movimento foi liderado por caminhoneiros autônomos terceirizados. A terceirização tirou dos sindicatos a representatividade e o governo não teve com quem negociar. Passou-se da guerra tradicional para a guerrilha. A solidariedade da população aos caminhoneiros revela a revolta da sociedade contra um estado corrupto, incompetente e sem políticas públicas. O governo se ajoelhou diante dos caminhoneiros, dando os anéis para não perder os dedos ou a cabeça.

A última lição é social. O patrão não pode mais viver tranquilo no condomínio fechado e no carro blindado, num país desigual e conflagrado. Os mauricinhos tiveram que empurrar o carro até o posto, andar de ônibus lotados ou a pé no escuro. O establishment descobriu que trabalhadores como caminhoneiros, que produzem e transportam seus bens, guardam um segredo: sabem usar o celular como uma arma e se articular silenciosamente.

(Paulo Ormindo de Azevedo)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 03.06.2018

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