Artigos científicos estão “superados”: interesses ?

21/06/2018 às 3:22 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Ao ler esse esclarecedor e atualíssimo artigo, logo me lembrei do magnífico ‘O CANTO DO GALO”, de Rubem Alves e, óbvio, de minhas quatro Pós e do Mestrado inacabado que tentei concluir, impossibilitado que fui entre outros fatores pelo objeto desses dois textos críticos. Só para lembrar um pequeno exemplo, é muito difícil se encontrar hoje em dia, em qualquer literatura nacional ou estrangeira, forma mais burra de citação de obras em artigos e livros como a adotada no Brasil e no mundo atualmente. E linguagem hermética pior ou equivalente só mesmo a dos juristas. Fico a imaginar se os cientistas realmente brilhantes estiveram um dia preocupados com essas questões…

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Artigos científicos estão “superados”: interesses ?

Cientista não é aquele ser que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas” – C. Lévi-Strauss.

A ciência tem dado saltos qualitativos nas interfaces tecnológicas, nas disciplinas humanas da medicina do cuidar, e da epidemiologia preventiva. Também na valoração quantitativa, se cotejarmos a sua expressão na literatura através dos artigos científicos em revistas de editorias euro – americanas e links globais da web. O artigo científico tornou-se um dos pilares de evolução da ciência; antes da sua aparição, os resultados dos experimentos e hipóteses eram apresentados por cartas, descreve Thomas Wood Jr. em sua matéria.

Hoje em dia, estas publicações ao invés de gerarem conhecimentos inovadores, passaram a alimentar múltiplos networks, intra e inter comunitários acadêmicos, ou não, extrapolando o número de periódicos com textos e relatos de qualidade duvidosa; e não raro atendendo às pressões das universidades e institutos de pesquisas para justificar – e disputar rankings classificatórios de excelência –, gastos laboratoriais e honorários dos pesquisadores, consequentemente, captar mais financiamentos e notoriedades pessoais.

A forma das publicações atuais, com hermetismo estatístico no limite da razoabilidade, aliado ao fetiche de renomados boards editoriais, com textos longos e assertivos, acabou por negligenciar a ciência substantiva. Não existe estilo de prosa mais difícil de entender, e mais tedioso de ler, do que o paper científico, criticou o renomado Francis Crick.

A ciência contemporânea na colateral pesquisa experimental, sem embargo da investigação teórica, deveria ser impregnada de necessidades sociais e galvanizadas pelo bem-estar a ser alcançado para as maiorias, destarte, interpretar e responder as misérias humanas; equacionar a poluição dos sistemas ambientais; diagnosticar e tratar as re-emergentes patologias nos ecossistemas envolvendo a espécie humana. A super especialização no olhar do cientista não deveria ter o viés dos orçamentos. Para o bem da humanidade, a ciência terá que reinventar também a sua comunicação intramuros e com o mundo real.

(Marcos Luna)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 09.05.2018

 


“O CANTO DO GALO”

Era uma vez um granjeiro. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista.

Estudou administração, para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas.

No curso de administração, aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.

Aplicado à criação de galinhas, esse princípio se traduz assim: galinha que não bota ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total de sua granja, o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle da produtividade de suas galinhas. “Produtividade de galinhas” é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos botados pela unidade de tempo escolhida. Galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de “mérito galináceo”: as galinhas que botavam mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que botavam menos ovos recebiam menos ração.

As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, ato contínuo, subiam nas costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico e obrigavam-nas a se agachar. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, qualquer um deles botara. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.

As galinhas continuaram a botar ovos como sempre haviam botado: os números escritos nos relatórios não deixavam margens a dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, eles se quebravam e de dentro deles saíam pintinhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintinhos. E, se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Aí o granjeiro científico aprendeu duas coisas:

Primeiro: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

Segundo: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas”.

Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer “aquele que ensina”. Mas o ensino é, precisamente, uma atividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correta é pesquisadores, isto é aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios.

As revistas internacionais são os ninhos acreditados. Não basta botar ovos. É preciso botá-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos  ovos sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão “publish or perish”, bote ovos ou sua cabeça será cortada, a docência termina por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, em vez de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de botar ovos, são obrigados pela presença de alunos a gastar seu tempo numa tarefa irrelevante: ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender a exigência da comunidade científica internacional de “publish or perish”.

Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam ovos botados. Sugiro que nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que trabalham nela, dêem mais atenção ao canto do galo…

In: ALVES, Rubem. Entre a Ciência e a Sapiência. O Dilema da Educação. 6ªed. São Paulo: Ed. Loyola, 2001. p. 67-71.

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