A inevitabilidade da burrice

26/06/2018 às 3:37 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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O titulo é forte. O assunto é controverso. Mas o que é colocado neste artigo serve para uma boa reflexão.

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A inevitabilidade da burrice  JoaoPereiraCoutinho

O professor questiona o aluno: “Quanto é 5 vezes 5?” O aluno responde —erradamente. O professor castiga o aluno, jogando a cabeça dele contra o quadro-negro. Os colegas riem.

Mas um deles, sentindo piedade, mostra ao ignorante o desenho de uma árvore de Natal. O número é 25, tal como o dia da festividade.

O ignorante sorri, aliviado. E, quando o professor insiste —”Quanto é 5 vezes 5?”—, o aluno responde, triunfal: “Natal!”. Os colegas riem e a cabeça dele sofre.

A cena pertence a “Cinema Paradiso”, a obra de Giuseppe Tornatore que faz agora 30 anos. E eu, assistindo ao filme mais uma vez, pensei: a cena é tão politicamente incorreta que seria impensável hoje.

Não pela violência do professor. O problema está no aluno: no filme, Tornatore filma um caso de burrice. E não existe adulto que, pensando na sua escolaridade básica, não relembre os coleguinhas da turma que eram incapazes de fazer contas. Alguns de nós fomos aquele burrinho.

Hoje, essa explicação —a inevitabilidade da burrice, digamos— não existe na gramática pedagógica. Vivemos tempos de “romantismo educacional”.

A expressão pertence a Charles Murray, a “bête noire” das ideias feitas. Em ensaio para a revista The New Criterion, Murray define o que entende por “romantismo educacional”: trata-se da filosofia de que o sucesso de um aluno depende sempre do meio onde ele vive e estuda —e não, Deus nos livre, de quaisquer limites intelectuais inatos (ou genéticos).

Adaptando a definição de Murray a “Cinema Paradiso”, o aluno que não é capaz de multiplicar 5 por 5 não é relapso a matemática. Ele será produto de um meio pobre e inculto; ou, então, é discriminado por um professor incompetente e autoritário. Burrinho ele não é.

O mais curioso, escreve Murray, é que o “romantismo educacional” não é uma questão de esquerda ou direita. Os dois lados das trincheiras subscrevem o papel decisivo do meio ambiente, negando qualquer limitação “natural”.

A esquerda afirma que as questões de raça, classe ou gênero decidem o destino de qualquer um. A direita prefere atacar a escola pública, defendendo o ensino privado (e o cheque-educação para quem não pode pagar). Por outras palavras: mudando o meio, o aluno floresce rumo ao infinito.

Infelizmente, nem tudo é um produto do meio, embora ele seja importante, claro. E quando falamos das matérias centrais —língua e matemática— é absurdo afirmar que todos, em condições sociais semelhantes, terão iguais desempenhos acadêmicos.

Nos Estados Unidos, explica Murray, várias razões explicam o sucesso do “romantismo educacional”. Para alguns pedagogos, as diferenças de inteligência podem ser suplantadas se os professores tiverem iguais expectativas relativamente aos alunos.

Para outros, o foco não deve estar nos professores, mas nos alunos: se todos eles tiverem “autoestima” elevada, os resultados positivos serão inevitáveis.

Sem falar da influência do psicólogo Howard Gardner, para quem existem vários tipos de inteligência —musical, espacial, interpessoal etc. Se o aluno de “Cinema Paradiso” não sabe matemática, ele pode ser um cantor excelente; ou um dançarino; ou um palhaço. Nem tudo é matemática.

Existe alguma verdade nessa observação —qualquer um é capaz de apreciar a inteligência de um jogador de futebol, por exemplo. Mas isso não invalida o óbvio: ler, escrever e contar ainda são as proficiências basilares de qualquer educação formal. Iludir o fato não altera a realidade.

Para Murray, o “romantismo educacional”, para além de uma falácia pedagógica, é uma tortura evidente para a maioria dos alunos (e dos pais). Quando se promete excelência para todos, o que dizer quando essa excelência não vem?

Concordo com Murray. E, como ex-aluno e atual professor, sei bem em que consiste essa tortura: uma culpa desnecessária pelo simples fato de não sermos iguais em talentos e capacidades. Mesmo quando o meio está acima de qualquer suspeita.

Em “Cinema Paradiso”, a ignorância era punida com uma violência grotesca. Mas não é preciso usar força física para exercer violência sobre os ignorantes. Há uma violência igualmente nociva quando se usa a mentira piedosa para negar a burrice e a mediania.

Um sistema de ensino realista deve fazer o melhor que pode. Mas também aceita as fraquezas da inteligência como parte da diversidade humana.

(João Pereira Coutinho)

FONTE: Folha de S. Paulo, 29.05.2018

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