Exílio

28/09/2018 às 9:44 | Publicado em Artigos e textos | 3 Comentários
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Seria Veríssimo o primeiro exilado caso a barbárie vença ? O problema é que seríamos quase 100 milhões de exilados a vagar pelo mundo…

Pergunta


 

Exílio Verissimo_sax

Não estou sugerindo nada, mas, por pura coincidência, tenho relido trechos do livro de Edward W. Said intitulado “Reflections on Exile”, em que o crítico e ensaísta reflete sobre vários tipos de desterro.

Said ficou famoso com o livro “Orientalismo”, sobre os clichês e lugares-comuns do pensamento europeu a respeito do Oriente Médio, e notório por ser o único não judeu — ele era palestino — da elite intelectual de Nova York, o que não impediu que fosse respeitado mesmo por quem não concordava com suas posições políticas.

Nas suas reflexões sobre o exílio, Said se concentra nos efeitos do expatriamento, se é que existe a palavra, no mundo literário, começando pelo protoexilado Dante, banido de Florença, e incluindo o autoexilado de Dublin James Joyce, o longe da Irlanda Beckett, o longe da Rússia Nabokov, os longes dos Estados Unidos Hemingway e Fitzgerald, todos corridos de suas terras pelas ondas fascista e comunista, e o pai de todos os transplantados, Joseph Conrad, o polonês com o melhor texto em inglês que se conhece.

Fora do mundo literário, o exílio perde toda a conotação intelectual ou romântica. Sobra a realidade trágica das migrações de multidões fugindo da fome e da guerra. O crítico George Steiner, citado por Said, chegou a propor que boa parte da literatura ocidental moderna é “extraterritorial”, uma literatura feita por exilados ou sobre exilados, simbolizando a era dos refugiados que começou no fim do século XIX, nos estertores do colonialismo, e, desde então, só ficou mais terrível.

Nas categorias de exilados arrolados por Said, fora as vítimas do nazismo e do stalinismo, todos se exilaram por iniciativa própria, mesmo que a iniciativa fosse incentivada.

Como no caso do Brasil depois do golpe de 64, quando recebemos a ordem de amar o país ou deixá-lo. Amar o Brasil, no caso, era amar a ditadura.

Você, eu não sei, mas eu estou fazendo planos para qualquer eventualidade. O mais irrealizável e, por isso mesmo mais atraente, é desenferrujar meu saxofone e ir tocar no metrô de Paris, para garantir o croissant das crianças.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: Principais jornais do país, ontem.

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Paulo Leminski

28/09/2018 às 3:43 | Publicado em Canto da poesia | Deixe um comentário

Li dois livros de Paulo Leminski e os compartilhei aqui. Volto agora com mais uma poesia dele.


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