Tratar Haddad e Bolsonaro como equivalentes é injusto

17/10/2018 às 15:11 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Excelente esse artigo de Jânio de Freitas, publicado recentemente na Folha de São Paulo.

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Tratar Haddad e Bolsonaro como equivalentes é injusto  janio-de-freitas-2

Um ou outro. Assim é a atual eleição presidencial. Nenhum eleitor, absolutamente nenhum, ainda que se abstenha por ausência ou voto omisso, deixará de contribuir para a eleição de um ou de outro. Mas, se a decisão eleitoral se faz entre dois nomes, na verdade, o eleitor fará outra opção. Vai escolher entre democracia e autoritarismo.

Não há neutralidade diante desta bifurcação. A decisão do PSDB e do DEM (chama-se Democratas, veja só) de não apoiar Jair Bolsonaro (PSL) nem Fernando Haddad (PT) parece fuga à responsabilidade, a sua tradicional subida no muro.

É, no entanto, apoio a Bolsonaro e ao que ele representa, já que o beneficiam todas as opções que não sejam de apoio explícito a Haddad, carente de votos. Os pilatos envergonhados recorrem ao ardil apenas verbal da neutralidade.

Descendente direto da ditadura, o DEM mudou de nome sem mudar de natureza. O PSDB fez o inverso. Traído por vários de seus líderes, renegou as origens e os compromissos promissores, e se tornou o líder da direita até ver-se agora desbancado por um partido nanico. A escolha mal disfarçada dos peessedebistas por Bolsonaro e pelo autoritarismo pode ser coerente, mas é vergonhosa.

Os dois puxadores de tal posição não precisariam mais do que respeitar sua história remota. Nela se conta que Fernando Henrique e José Serra se sentiram ameaçados pela ditadura militar a ponto de buscar refúgio no exterior.

O primeiro teve vida mansa por lá, mas o outro passou por riscos e dificuldades superados só pela sorte. Hoje, é a defensores nostálgicos da força que os perseguiu, enquanto impunha no país a tortura, a morte, a censura, o atraso, que Fernando Henrique e José Serra dão a ajuda capaz de ser decisiva. É demais.
Haddad e Bolsonaro não se equivalem, nem o PT e a corrente política bolsonarista são a mesma moeda, como muitos têm dito e escrito.

A respeito, Hélio Schwartsman já foi claro: “Bolsonaro já deu inúmeras declarações que escancaram seu descompromisso para com a democracia e os direitos humanos. Não é absurdo, portanto, imaginar que, uma vez alçado ao poder, ele dê início a uma escalada autoritária” // “Quanto a Haddad e o PT, se o passado vale alguma coisa, eles já foram aprovados no teste da democracia. O partido teve uma presidente destituída e seu líder máximo preso e em nenhum momento deixou de acatar as regras”.

Os defeitos de Bolsonaro que nos interessam, muitos, não são vistos em Haddad. As qualidades de Haddad, como pessoa e como homem público, nunca foram vistas em Bolsonaro nos seus 27 anos de político. Sem falar no seu tempo de perturbador dos quartéis. Tratar os dois como equivalentes não é apenas injusto, é também falso. E não é de boa-fé.

A democracia não é defendida com posição passiva nem, muito menos, com enganosa neutralidade. Defendê-la, pelos meios disponíveis, não é comprometer-se senão com a própria democracia. Não a defender, é traição ao presente do país e às gerações que nele ainda despontam.

(Jânio de Freitas)

FONTE: Folha de São Paulo

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O GUARDA DA ESQUINA

17/10/2018 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Já estamos há muito assustados com o guarda da esquina, agora mais ainda. Só há uma saída para espantá-lo de vez: O VOTO !

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O GUARDA DA ESQUINA

O jornalista Carlos Chagas costumava contar uma história: em meio à reunião em que se discutiu a edição do AI-5, enquanto o vice-presidente Pedro Aleixo apresenta ressalvas, o então ministro da Justiça, Gama e Silva, lhe pergunta: “Mas Dr. Pedro, o senhor tem alguma coisa contra as mãos honradas do presidente Costa e Silva que está aqui? É ele é quem vai aplicar o AI-5”, ao que Pedro Aleixo responde: “Não, das mãos honradas do presidente da República eu não tenho o menor medo, eu tenho medo é do guarda da esquina”.

Nas últimas semanas, assistimos situações em que pessoas foram atacadas, agredidas e ameaçadas por apoiadores de Bolsonaro apenas porque vestiam camisa vermelha, ou se posicionavam publicamente como eleitores do PT. Há alguns dias, a cena em que dois homens brancos e fortes seguram a placa em homenagem a Marielle Franco partida ao meio, viralizou na internet como símbolo da profanação e de uma segunda execução da vereadora, uma mulher negra e socialista. Há quem ache exagero nos que apontam os riscos que corremos com o avanço do fascismo e a possibilidade de um candidato que exorta o ódio e a violência vencer as eleições, mas exemplos históricos existem aos montes e apontam para a gravidade do momento.

O fascismo não se caracteriza apenas pelo ódio ou pelas promessas de ordem a qualquer custo partidas das bocas dos seus chefes. A característica principal do fenômeno é que, em meio ao desespero de milhões, quando os chefes autorizam, estimulam e sugerem que tudo será resolvido de maneira simples e que o culpado é o outro, hordas de indivíduos, milícias e grupamentos paramilitares decidem que vão tratar dos problemas à revelia do Estado, das autoridades e das Leis estabelecidas. No descrito episódio da placa de Marielle, as palavras do então candidato ao senado, Flavio Bolsonaro, não deixam dúvidas: tratava-se da “restauração da ordem”. Alguns dias depois o próprio presidenciável confirmou não ter controle sobre o que vinha sendo praticado em seu nome, se referindo ao assassinato de Mestre Moa do Katendê.

Quem ainda não se deu conta do que está se passando é melhor ficar atento. O fascismo avança  com o beneplácito e as vistas grossas da imprensa, do judiciário e das frágeis autoridades constituídas a partir do golpe de 2016, ano em que uma ligeira fresta foi aberta por onde os demônios começaram a atravessar. E se já não era bom, pode piorar, pois não vai haver nenhuma ordem imposta na base da força e nem vai existir governo na base do medo, a não ser que ativistas sejam presos, trabalhadores sejam reprimidos, sindicatos sejam esmagados e a imprensa seja silenciada. Se for assim, estaremos efetivamente numa ditadura fascista, situação em que a violência partida do Estado será potencializada pelos milhões de guardas da esquina que já começaram a mostrar serviço.

(Carlos Zacarias de Sena Júnior – Professor do Departamento de História da UFBA)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, 12.10.2018

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