Ai dos vencidos

23/11/2018 às 3:21 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 6 Comentários
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Excelente artigo de Eleonora Ramos: Bem que avisei !

AnoNovo1


Ai dos vencidos

Charges produzidas por artistas de C Portugal, França, Áustria, Alemanha, França e Chile sobre a eleição de Bolsonaro, simplesmente geniais, reconfortam a tal ponto que parece ter valido a pena todo o sofrimento de 47 milhões de brasileiros, milhares eleitores de primeira viagem.

Uma conta simples também reconforta, 47 mais 34 mais 8 são quase go milhões que não queriam Bolsonaro presidente e milhares, milhões desses, certamente, fariam qualquer coisa para evitar o que chamam de catástrofe. Fizeram. Horas no Facebook, postando, postando, respondendo, discutindo, deletando amigos, maldizendo desconhecidos. E foram às ruas, uma, duas, três vezes, em lindas manifestações, no peito uma única hashtag, a #elenão, que correu mundo. Quatro milhões de mulheres reunidas num grupo virtual despenderam enorme, mas não vitorioso, esforço de mobilização. Tudo resultaria inútil para conter a avalanche do 17, incontrolável, reproduzida ao in- finito, contaminando tudo, como uma samarco de consciências.

Fico com a pergunta exata e a perplexidade do jornalista Bernardo Kucinski, ganhador do último Prêmio jornalístico Wladimir Herzog: “Como explicar o voto de milhões de brasileiros a um ser tão repulsivo? Como explicar um fenômeno de dissonância cognitiva de tal magnitude”? Era dia 25 de outubro.

Nos dias seguintes, os inacreditáveis milhões deram filhotes e fecharam em exatos 57.797.847 de votos. Kucinski, ex-assessor do presidente Lula e professor da Escola de Comunicação da USP, cita “os donos do poder econômico, a classe média frustrada e enraivecida e os pobres, presas fáceis das teses de lincha- mento e justiçamento” como protagonistas da tal catástrofe. As capas da imprensa mundial anunciaram a chegada em cena de um sub-Trump tropical, no comando de um país gigante, rico, estratégico, frágil, acometido de grave dissonância cognitiva, repetindo Kucinski.

O Trump de verdade foi uma tragédia anunciada, alívio para a ressaca supremacista pós-governo Obama e hoje, com a Ku Klux Khan no poder, a economia americana vai bem.

O big Trump demonstrou satisfação pela eleição do sub-Trump, potencial aliado que lhe abrirá as portas para o que der e vier, como nunca antes na história deste pais.

Os dias pós-resultado das urnas foram de eleitores verde-amarelos em êxtase, e a palavra luto em todas as mídias, com lacinho preto e tudo.

Mas para alguma coisa serviu esse trauma nacional. A qualidade e a quantidade de bons textos que passaram por nós, alguns como balas traçantes, registros para se guardar, infelizmente na mesma gaveta abarrotada de outros, muitos, que, resumidos, apenas repetirão a mesma “bem que avisei”.

(Eleonora Ramos)

FONTE: Jornal A TARDE, 14.11.2018

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