TECENDO A MANHÃ

19/03/2019 às 3:59 | Publicado em Canto da poesia, Zuniversitas | Deixe um comentário
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João Cabral de Melo Neto, uma das suas melhores e mais famosas poesias.


TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(Publicado no livro “A educação pela pedra” – 1966)


joão-cabral

Nasceu a 09 Janeiro 1920
(Recife, Pernambuco, Brasil)

Morreu em 09 Outubro 1999
(Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil)

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